A ENTREVISTA DE LULA

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A entrevista do ex-presidente Lula à TV Folha e ao El País pode ser considerada um marco para a esquerda nesse período do Brasil com Jair Bolsonaro na presidência tendo em vista que a mesma encontra-se desorientada em discurso e ação; tanto pelo fato de o governo Bolsonaro ser recente quanto pelas divisões históricas e as recentes que afastam petistas de ciristas por exemplo.

O governo bate-cabeça por sua incompetência em se articular com a sociedade e o Congresso não pela oposição que não consegue dialogar entre si e menos ainda mobilizar a população contra a retirada de direitos e, especialmente, a reforma da previdência, que ameaça a aposentadoria de milhões de brasileiros.

Até aqui a esquerda se deixa pautar pelo núcleo ideológico – o mais inconsistente e superficial – do governo Bolsonaro, respondendo a maluquices do presidente e de seus ministros, tal qual Damares Alves, com sua discussão ultra-relevante sobre a cor das roupas dos meninos e das meninas. Entretanto, é desse núcleo que brotam ataques às minorias e às ciências humanas. Diante de várias frentes de batalha, como unificar o discurso e a ação?

O ex-presidente Lula em sua entrevista conseguiu dar a meu ver pistas à esquerda ao confrontar-se com o governo Bolsonaro e a política econômica de Paulo Guedes, focando dois pontos: a geração de empregos e a previdência. Lula desafiou o ministro da Fazenda: “venha aqui e vou te ensinar a gerar emprego”. E bradou que o governo irá ferrar a vida de milhões de brasileiros com a destruição das aposentadorias.

Nesse momento, o responsável pela geração de 22 milhões de empregos, entre 2003 e 2010, aproveitou para defender seu legado e contrapor sinteticamente um projeto desenvolvimentista ao desmonte neoliberal do estado de bem-estar social: o petista criticou a economia de recursos públicos para depois escoá-los para os banqueiros e defendeu a reorganização do estado para retomar investimentos, criar frentes de trabalho e a girar a roda da economia novamente.

O petista aconselhou as esquerdas a organizarem protestos na frente da casa dos deputados federais que votarão a reforma, ressaltando que este modo desperta mais pressão sobre os parlamentares do que centralizar os manifestos na Avenida Paulista. Eis os principais apontamentos em termos de discurso e ação que o ex-presidente jogou sobre a mesa.

Além de esboçar estratégias de manifestações, Lula avisou: “estou louco para fazer caravanas, farei quando sair daqui”. “Quero me confrontar com o Moro e o Deltan Dallagnol em universidades e desafiá-los a provarem minha culpa, em debates públicos”. Fica claro nessas falas que Lula está defender a política off-line, e isso é importante. Explico.

Nos últimos anos algumas pessoas passaram a dar peso absoluto às redes sociais como se elas forjassem projetos políticos e lideranças. Ledo engano. Rede social é meio, mas não gera resultado se não tiver conexão com a realidade. Os que citam os garotos do MBL como frutos que brotaram das redes sociais se esquecem de que no off-line eles foram financiados e treinados por organizações financeiras e intelectuais de cunho “liberal”.

A política é a arte de criar vínculos com as pessoas, e não se faz isso apenas virtualmente. É preciso olhar nos olhos, dialogar e convencer. Organizar bases e articular meios de ação. O MBL fez e faz muito disso, e acerta ao buscar auxílio das comunicações digitais. Auxílio! O determinante advém das conexões reais (se fora ou dentro da lei, é outra conversa) com financiadores, aliados e cidadãos.

A esquerda perdeu o protagonismo das ruas a partir de 2013 e agora que os direitos dos pobres e das classes médias estão sob ameaça, entendo que Lula está a convocar as esquerdas a restabelecerem conexão com o povo e as ruas. Não se trata de uma conclusão inédita, mas de um alerta cirúrgico, em termos de “time” político.

No mais, o que se viu foi um Lula em grande forma política. Não é fácil para um homem que se sente injustiçado manter a sanidade estando solitário e preso depois de décadas livre e cercado por várias pessoas. Não é fácil para um homem de mais de 70 anos suportar a cadeia depois de perder a esposa, o irmão (que considerava um pai e não lhe foi permitido ir ao velório) e o neto de sete anos.

Entretanto, em nenhum momento Lula mostrou ressentimento e agressividade em seus questionamentos duríssimos a Moro e Dallagnol e menos ainda fraqueza física e mental, ao contrário, seus raciocínios foram encaixados e lineares, do começo ao fim. Ao ser questionado sobre a situação econômica de sua família, que está com os bens bloqueados, Lula lamentou e imediatamente falou do endividamento das famílias brasileiras.

Isto é, o animal político está vivíssimo, colocando as questões públicas e políticas acima dos dramas particulares, exibindo força física e mental, contrapondo-se ao governo Bolsonaro e se posicionando como porta-voz das esquerdas, do PT, das oposições e, acima de tudo, dos pobres.

Lula mostrou resignação ao falar “fico preso cem anos, mas não troco liberdade pela dignidade”. O recado da Jararaca é claro: “estou em luta política para continuar a influir o processo político independente do que me aconteça na cadeia e se vou sair dela ou não”. A conquista do direito de dar entrevistas foi uma das vitórias em meio a tantas derrotas.

Lula está em luta. Não pisaram na cabeça da jararaca, e ela está disposta a brigar para entrar para a história como o grande herói dos pobres e do nacionalismo. A entrevista à TV Folha e ao EL País deixou isso claro para quem assistiu com visão abrangente. Foi, em meio a tanta mediocridade política, dentro e fora do Brasil, uma atuação de gênio político, que não se via há anos, em terras pátrias. O contra-ataque, dos togados, virá. O risco pra eles é construir um mártir que incomodará mais se estiver surrado fisicamente ou morto.

André Henrique – cientista político, jornalista e editor do Independente

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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