A peste negra e o coronavírus no Brasil: o que Giovanni Berlinguer tem a nos ensinar?

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O político italiano, humanista e professor de medicina social, Giovanni Berlinguer

Pensar em saúde, em tempos de Coronavírus, é pensar em Giovanni
Berlinguer: médico, acadêmico e político italiano. Suas bases teóricas, aliadas a atuação concreta como militante da reforma sanitária italiana e em vários outros países, em particular no Brasil e na América Latina, fizeram dele uma das maiores referências no campo da saúde coletiva em termos globais.

Sua análise histórica da saúde e da política, compreende as diferentes realidades cronológicas de mundo: as forças lentas da história, por vezes
imperceptíveis, e os chamados “movimentos rápidos” da vida cotidiana, como se dá no tempo presente com a pandemia do Covid-19, e que configuram, quando articuladas, as chamadas “descontinuidades históricas”.

Não cabe aqui discorrer sobre a trajetória acadêmica, uma de suas
análises, porém, merece ser relembrada: trata-se da obra “Minhas pulgas ou
como, através delas, me envolvi com a ciência” (publicada no Brasil pela editora Cebes-Hucitec), cujo objeto de estudo inclui a peste negra da Europa. Uma de suas críticas, destaca quão nociva foi a religião para o enfrentamento daquela pandemia.

Com a clareza textual que lhe era peculiar, o autor explica que antes do
surgimento da peste, os gatos eram, em boa medida, vistos como seres divinos.

Até mesmo nos monastérios, hostis a todo ser vivo do sexo feminino, fazia-se exceção às gatas. Na Alemanha, para homenagear sua fecundidade,
associavam-se as gatas ao culto de Fréia, a deusa do amor, organizando-se
orgias com símbolos felinos.

Tal situação, desencadeou reações religiosas que impunham, sob o
pretexto de erradicar tais costumes sexuais, a destruição de antigas crenças,
incluindo a eliminação física dos gatos. As “bruxas”, não se pode esquecer, eram obrigatoriamente queimadas com seus felinos.

Entretanto, quando as relações comerciais da Europa se intensificaram e
os navios do Oriente atracaram em portos europeus, bandos de ratos negros, esfomeados e empestados, não encontraram seus predadores; as populações encontravam-se desprotegidas e seus aliados (os gatos) haviam sido exterminados. Assim, a Idade Média morreu vítima de suas superstições.

Até a igreja (representante do poder político nos tempos medievais), que
as alimentava foi atingida. A peste, contudo, atingiu de fato mais duramente os cristãos que os árabes porque aquela religião condenava a limpeza do corpo.

No Brasil, ainda se insiste nessa pretensa superioridade da “moral cristã”
com relação ao oriente, especialmente representada hoje, pela chamada
“bancada da bíblia”.

Nega-se a ciência e o poder instituído, afirma com certo pesar que a
religião perdeu espaço para aquela.

O campo progressista, é preciso lembrar, sempre foi permeável à
ingerência direta da religião nas questões políticas (a Marcha da Família com Deus pela Liberdade é um de seus exemplos). Mas sejamos sinceros: nada se compara com os dias atuais.

Em tempos de Covid-19, “pregadores” convocam a presença de seus fiéis
nos templos e nas ruas, contra qualquer preceito científico; o jejum passa a ser quase uma política estatal; afirma-se não existir qualquer confirmação de morte por tal enfermidade; questionam-se orientações internacionalmente comprovadas por experiências históricas recentes das formas de conter a peste Felizmente, não mais se condena a limpeza do corpo como nos tempos medievais; tampouco matamos os gatos. Contudo, convenhamos: não caminhamos tão bem assim.

É preciso abrir os olhos para uma nova peste negra. A Idade Média se
avizinha.

O autor, Eduardo Cazelatto:

Eduardo Cazelatto
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