As demissões na revista Veja e a quebra do oligopólio da imprensa

2

Demissões de Marco Antonio Villa, Vera Magalhães e Carlos Graieb revelam problemas financeiros da Veja e uma mudança de paradigma na imprensa ocidental.

Análise / Opinião – Rafael Bruza

A jornalista Vera Magalhães, o historiador Marco Antonio Villa e o jornalista Carlos Graieb, que foram demitidos da revista Veja / Fotos – Reprodução
A jornalista Vera Magalhães, o historiador Marco Antonio Villa e o jornalista Carlos Graieb, que foram demitidos da revista Veja / Fotos – Reprodução

A revista Veja, que pertence a um dos maiores conglomerados da América Latina, a Editora Abril, demitiu alguns de seus funcionários mais conhecidos e relevantes na última semana.

Na segunda-feira (11), foi confirmada a demissão da colunista Vera Magalhães, que fazia o Radar On-line, e o redator-chefe da revista, Carlos Graieb.

A colunista não tinha nem um ano na redação da Veja, pois foi contratada para ocupar a vaga deixada por Lauro Jardim (contratado pelo jornal O Globo).

Mas Graieb era um dos profissionais que vivia mais tempo na empresa: trabalhou mais de 15 anos na Abril e ocupou diversos cargos de liderança dentro da Veja.

Outra baixa importante da revista foi anunciada nesta quarta-feira (13), quando o historiador Marco Antonio Villa anunciou sua própria demissão da revista através de uma publicação em seu blog e ainda apontou uma crise financeira na Editora Abril.

”Na última quinta-feira fui comunicado que não participaria – como de hábito – do programa Sem Edição. A Tveja iria passar por uma reestruturação, de acordo com Sílvio Navarro. É de conhecimento público que a revista Veja passa por sérios problemas financeiros e que está reestruturando seu quadro de jornalistas e colaboradores”, afirmou Villa antes de indicar que sempre foi bem avaliado dentro da revista e que seus programas sempre tiveram bons índices de audiência.

A quebra o oligopólio

As palavras de Villa deixam claro que as demissões da revista Veja ocorrem basicamente por problemas financeiros na Editora Abril.

Perceber isso é simples: quando profissionais bem avaliados pela audiência dos meios de comunicação em que trabalham e com nomes conhecidos pelo público do país são demitidos sem nada terem feito, fica claro que a intenção da empresa é apenas cortar gastos.

Demitem os profissionais com salários mais altos e mantém o funcionamento com menos funcionários ou estagiários de jornalismo que trabalham mais, ganhando menos.

Esses estudantes são muito tentadores para “reestruturações” de redações jornalísticas e as contratações de estagiários vêm sendo cada vez mais usadas em redações das Américas e da Europa.

Mas as demissões também significam perda de qualidade dos meios de comunicação tradicionais. Então precisamos de novas alternativas.

O caso é que as publicações impressas estão perdendo as condições financeiras de manter os melhores profissionais do mercado. E adivinhe qual é o destino de quem sai de grandes redações como Villa, Constantino e outros profissionais?

Isso mesmo, a Internet!

O jornalismo não está morrendo. As grandes redações que estão mudando drasticamente e perdendo o oligopólio da formação de opinião dos países, pois audiência não se cria nem se amplia: se rouba. E com mais meios de comunicação, a divisão de audiência cresce.

Mas existem mais interpretações desse momento a serem consideradas.

O jornalista e professor de inovação, Marcelo Pimenta, da ESPM, indica que em um de seus artigos sobre o setor de jornalismo que as crises no planeta Terra funcionam como uma “mola propulsora do desenvolvimento e do empreendedorismo”.

Ele aponta que crises, destruições e novas aparições são comuns na história do universo e compara a atual situação do jornalismo com a extinção de dinossauros, que morreram (supostamente) após a queda de um meteoro.

A explosão gerou uma crise na Terra que “permitiu que os pequenos mamíferos, alimentos permanentes dos dinossauros, saíssem do subsolo e das cavernas e se desenvolvessem para dar origem aos primatas”.

Aplicando essa analogia ao jornalismo, podemos concluir que as grandes redações perderam sua relevância com a aparição da Internet, mas novas formas de fazer jornalismo surgem naturalmente.

E aqueles que tiverem capacidade de se adaptar sobreviverão, igual aconteceu e ainda acontece com a evolução da vida no planeta Terra.

Deixando analogias de lado, a Internet foi um ‘soco na cara’ das contas de redações “dinossauras” (tradicionais).

O modelo de financiamento via publicidade foi diretamente afetado pela facilidade com que as empresas podem se dirigir diretamente à sua audiência, que também começou a se informar por meios de comunicação digitais, em detrimento dos impressos (principal fonte de financiamento dos conglomerados), especialmente nas faixas mais jovens da sociedade.

Com isso, ficou muito mais difícil manter as enormes estruturas jornalísticas desenvolvidas nas últimas décadas, inclusive porque os gastos com salários se mantiveram, enquanto a receita caiu. E esse problema se agravará no futuro!

Mas, na contra mão dessa queda dos dinossauros, novos meios de comunicação começaram a surgir no setor de imprensa das democracias ocidentais.

Portais com propostas originais, maleáveis, poucos gastos e grande poder de interatividade com o público hoje superam os grandes conglomerados em diversos quesitos como credibilidade, simpatia do público e até mesmo índices de audiência em alguns casos específicos.

Ou seja, estamos vivendo uma mudança significativa na formação de opinião do mundo ocidental.

Isso não significa que os grandes conglomerados vão fechar e morrer definitivamente, pois eles ainda têm credibilidade, poder de formar agenda (escolher os assuntos importantes do dia) e visibilidade suficientes para continuar funcionando.

Mas podemos esperar o surgimento de vários meios de comunicação pequenos e prontos tanto para informar o público quanto para questionar os grandes e poderosos conglomerados de imprensa, que até hoje desfrutaram da permanência do oligopólio do setor aqui no Brasil.

A questão é que os cidadãos aprimorem sua busca de informação na Internet para identificar mentiras e verdades, além de saber diferenciar informação de opinião, na tarefa de evitar manipulações ou exaltações de emoções completamente prejudiciais à opinião pública, tendo em vista que os pequenos meios de comunicação são revolucionários, mas muitas vezes pecam nos quesitos técnicos e éticos.

E, para isso, meus caros leitores, cabe a vocês cidadãos estudar, analisar e aprender a procurar informações corretas na Internet.

Ler mídia de diferentes ideologias, dar credibilidade ao conteúdo sem deixar o questionamento de lado e conversar com os jornalistas das publicações digitais para conhecer quem te informa são condutas que fazem toda diferença.

Então daqui para frente, cabe a cada um de nós buscar a verdade e trabalhar para compreender  a realidade como ela é.

Esse é o próximo passo de avanço para o jornalismo ocidental. E quem compreender isso estará dois passos a frente de quem fica se lamentando por acreditar numa crise no jornalismo que, no fundo, só afeta grandes conglomerados de imprensa e seus profissionais.

A Internet é o presente e o futuro. É hora de acreditar nela.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

Facebook Twitter LinkedIn 

Comente no Facebook

Discussion2 Comentários

  1. Francisca Teodora Novello

    Não esquecendo que, particularmente no Brasil, JORNALISMO É IDEOLOGIA …..haja vista a própria revista Veja que se um dia foi jornalismo, tornou-se apenas panfletão da ideologia de seus proprietários

  2. Eu acho que a revista veja está mudando de direção, hoje ela está mais voltada ao povo de esquerda. Acho acho que podemos dizer que a revista veja mudou de nome é VEJA CAPITAL