Assimilação da vergonha

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Momento um: “O italiano é muito cínico, graças a Deus! Quando cheguei à Itália, havia 60 milhões de fascistas. Naquele dia havia 60 milhões de antifascistas”. A frase foi dita pelo jornalista Joel Silveira (1918 – 2007) em entrevista concedida à revista “Aventuras na História”. Especializado e celebrizado por suas coberturas de guerra, Silveira falava do dia em que chegou em Roma, na Itália, o mesmo da execução do ditador fascista Benito Mussolini.

Momento dois: 1989. O então recém-empossado presidente da Argentina, Carlos Menem, visita o almirante da reserva Isaac Rojas, conhecido por sua participação extremamente intensa no golpe que derrubou o lendário líder trabalhista Juan Domingo Perón da presidência do país latino, em 1955. O gesto foi interpretado pela opinião pública como uma simbologia de encerramento do conflito entre peronistas e antiperonistas que gerou divisões na sociedade argentina por cerca de 40 anos. O peronismo é uma ideologia controversa, uma vez que mesmo atraindo seguidores de esquerda, teve algumas gêneses inspiradas no fascismo.

Momento três: faltando dois meses para a posse do então presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro (no PSL à época), surge a informação de que artistas da TV Globo que se opõem ao bolsonarismo pretendiam boicotar um programa de entretenimento comandado pelo ator e apresentador Marcio Garcia, um apoiador declarado do político. Na rede social Facebook, um professor da faculdade onde me formei, conhecido ex-integrante da luta armada contra a Ditadura (1964-1985) e ex-exilado, faz um comentário que me chamou a atenção sobre a questão do uso indiscriminado da rotulação de fascista: “O Brasil não tem 60 milhões de fascistas”, se referindo ao número aproximado de votos que Bolsonaro recebeu no segundo turno da eleição presidencial de 2018. Embora tenha elevado a quantidade – foram precisamente 57.797.847 sufrágios – a essência da ideia é pertinente.

Momento quatro: em maio, pleno auge da pandemia de coronavírus no Brasil e do acirramento político do país expondo um chocante quadro de incompetência governamental diante da crise humanitária, o artigo “Aos meus ex-amigos, cúmplices da barbárie”, do jornalista José Eduardo S. Gonçalves (segue link), obtém ampla repercussão ao destrinchar com exatidão o drama da ação do bolsonarismo nas relações sociais. Um trecho do texto: “No meio desta gente que aplaude e acha adequado esse conjunto de sandices há pessoas que conheço. Tem artista, designer, arquiteto, advogado, fotógrafo, médico, engenheiro, empresário, gente da moda etc etc. Pessoas com quem já convivi, conversei, compartilhei opiniões. Pessoas que, em alguns casos, cheguei a admirar. Que chamei de amigos. Como é que essas pessoas se tornam, de repente, cúmplices de uma barbárie colossal?”.

Momento cinco: a segunda via da carteira de identidade de minha mãe, com previsão de retirada marcada para o dia 26 de março, ficou retida em um posto de identificação civil do Detran, na Zona Sul do Rio de Janeiro, por conta das medidas de isolamento social. Há cerca de dez dias, com a reabertura do local em meio às medidas – confusas – de flexibilização, fui até lá como representante para buscar o documento (minha mãe, idosa, é do grupo de risco). Na saída, após três meses de reclusão só saindo de casa para o absolutamente indispensável, cogitei caminhar algumas quadras até uma loja de artigos para o lar situada na mesma rua, queria comprar um timer de cozinha. Meu pensamento recebeu o impacto da lembrança de que fulano, beltrano e sicrano declararam apoio entusiasmado ao atual presidente. Moradores da região onde eu estava naquele momento. Amigos, conhecidos, colegas de trabalho e clube, pessoas por quem até troco afeição sincera apesar da divergência na conjuntura política. Mas que naquele momento e nas circunstâncias atuais, não dava. Fui impelido a desistir. Desisti e voltei.

Já tinha desistido de usar o Facebook, somado os motivos de decadência e desinteresse da citada rede social (infelizmente abrindo mão de interagir com muitas pessoas realmente legais, que existem). Nos últimos tempos ficam poucos, porém suficientes, amigos de verdade. O texto de Gonçalves foi um pequeno alento, embora dentro de um cenário de tragédia na fronteira entre o bufo e o amargo, aos que pensavam que só aconteciam com si próprios. Como eu. Presenciei colegas de trabalho rompendo amizades (incluindo de infância) de forma constrangedora, fiquei aliviado por ter sido excluído por algumas “amizades virtuais” que se enquadram na dita descrição kafkiana do contexto, pesaroso por ver algumas amizades que mergulharam fundo na histeria do mais recente “ismo” da sociedade brasileira.

A julgar pelo índice de porcentagem cambaleante dos que ainda apoiam com louvor a aventura bestialógica do bolsonarismo, sou dos que estão pensativos a respeito das afirmativas de Joel Silveira, do professor da minha faculdade e desse encontro de simbologia reconciliatória entre Menem e Rojas. A ideia de que todo fascista é bolsonarista, mas nem todo bolsonarista é fascista. A questão de que não podemos viver mergulhados em um ranger de dentes em um futuro (espero que assim seja) Brasil pós-bolsonarista. Reconciliação? Precoce, obviamente. Ainda mais quando se há consciência de que o movimento iconizado no atual presidente é além dele.

Conversei com um amigo da faculdade, mais arguto nessas observações do momento, no Whatsapp, ele me forneceu elementos até me ajudaram a escrever este texto. “Deixa o tempo agir, eles apostaram muito alto no Bolsonaro, é o pessoal razoável que ficou com muito ódio do PT e vai se ligar que não é por aí, vão caminhar para o centro (enquanto espectro político-eleitoral). Deixa eles internalizarem a vergonha. Imagina, esses caras brigaram com amigos e família por causa desse idiota, com que cara eles estão agora?”. Concordo. Mas ainda não dá. E tem os que lavaram as mãos na bacia de sangue, como bem citou Lima Duarte no antológico vídeo de condolências pela perda de seu amigo Flávio Migliaccio. São poucos, felizmente muito poucos, mas há. Esses eu prefiro até mudar de calçada.

Seria uma leviandade infantil pretender cenas de novela mexicana, gente pedindo perdão de joelhos, proferindo repetidamente mensagens de arrependimento. Mas como será esse reencontro, esse novo convívio? Difícil. Dar tempo ao tempo, é uma prática inexorável, ainda que um clichê filosófico velho: como disse o grande Millôr Fernandes (1923 – 2012), ao tempo que outra coisa podemos lhe dar?

Provoca uma leve angústia, no sentido coletivo, de que esse tempo de internalização de vergonha pode durar quatro décadas. Pode ser que nem tanto. Particularmente, não devo me negar ao “olá, como vai?” para fulano que, mesmo não sendo fascista, jogou o país no colo de um inédito vandalismo de Estado. Mas será um “olá, como vai?” carregado pelo constrangimento, pelo trauma da lembrança de milhares de brasileiros na sepultura por conta de uma “gripezinha”.

Leonardo Guedes

Jornalista, vive no Rio de Janeiro. Teve passagens pelo site SRzd e pela rádio Bradesco Esportes FM. Atualmente, escreve o blog “Disse o Compositor”, sobre Música Popular Brasileira

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