Até quando criaremos ‘pequenos deuses’ no futebol?

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A discussão de Neymar com torcedores na final contra a Alemanha é só um sintoma da hipervalorização de jogadores de futebol feita pela imprensa e pelo marketing esportivo.

Opinião – Rafael Bruza

Neymar discutindo com torcedores enquanto é contido por membros da comissão técnica / Foto – Reprodução
Neymar discutindo com torcedores enquanto é contido por membros da comissão técnica / Foto – Reprodução

Após bater o pênalti que garantiu a medalha de ouro inédita para o Brasil, Neymar chorou diante da televisão mundial. Foram cenas emocionantes que circularam o mundo. Mas minutos depois, longe das câmeras, o jogador teve conduta diferente do que muitos esperavam.

Deu entrevista a um repórter brasileiro dizendo que “vocês (brasileiros, suponho) vão ter que me engolir”. E, usando a faixa “100% Jesus” na cabeça, se dirigiu até o grupo de torcedores críticos para discutir e mandar todos eles irem “tomar naquele lugar”. Nesse momento, foi contido por seguranças e membros da comissão técnica da seleção olímpica (sub-21) do Brasil.

Assim o jovem descarregou a raiva que nutriu durante a competição, onde a seleção foi duramente criticada por ter maus resultados (como o empate contra o Iraque, por exemplo).

Os internautas criticaram o fato, lógico. Disseram que o jogador tem a “obrigação de vencer” e não podoeria ter se vangloriado por ganhar nos penaltis da seleção sub-21 da Alemanha (que ainda estava desfalcada).

Então vamos ao cerne da questão: se, de um lado, o jogador de fato foi muito injusto ao personalizar críticas de uma nação a uns poucos brasileiros que o criticavam ali no momento, por outro, devemos dizer que esse é o preço de exaltar a imagem de um jovem atleta como se ele fosse um “deus” do Brasil, dando, em consequência, milhões de dólares a esse ser humano que acabou de começar a vida.

A idade de 21 a 28 anos é o momento em que as pessoas escolhem as ideias, condutas, crenças e experiências que levarão consigo pelo resto da vida.

Jovens dessa idade estão começando a trabalhar e a viver sozinhos. Boa parte deles nem saiu de casa ainda.

Mas Neymar não.

Com 17 anos já era promessa do futebol e já recebia um salário de milhares de reais, mais alto do que muitos executivos.

Com 21 anos, foi transferido ao Barcelona por quase 300 milhões de reais em uma transação muito estranha.

E com 22 anos, na Copa do Mundo, virou a única e maior esperança de uma nação de 200 milhões de pessoas.

Ou seja, a vida do Neymar começou com um estrelato que tende a diminuir conforme a vida dele avance.

Essa situação pode parecer ideal a quem valoriza a riqueza fácil e ociosa. Mas ela gera desequilíbrios na vida do jovem, como o que vimos acima.

Se isso é certo ou errado, não me convém dizer.

Mas sei da lei de causa e efeito: se na imprensa e na sociedade elevamos um cidadão jovem a esse status de “deus”, fugindo da realidade em que somos todos iguais e todos temos uma função humilde nesse mundo, é normal que ele realmente acredite nisso e atue como se tivesse poder ilimitado.

O anormal seria se Neymar fosse uma pessoa humilde e compreensiva…

De qualquer forma, podemos criticar o jogador, mas vendo como o povo e a imprensa brasileira tem a tendência de criar deuses no futebol (Ronaldo, Ronaldinho, Romário, Pelé, entre tantos outros que simplesmente jogam futebol), é fácil concluir que, se não fosse Neymar, teríamos outro “pequeno deus” jogando muita bola, mas também vivendo em uma situação completamente distorcida pela grana, pelo sucesso e pelo poder, algo que não convém nem a ele, por criar desequilíbrios que atrapalham sua vida, a despeito de toda “bonança” financeira.

Então cabe perguntar: como alterar essa situação?

Bom, primeiramente devemos fazer o que já estamos fazendo aqui: reconhecer como exaltamos a figura de pessoas que simplesmente chutam uma bola e como elas são endeusadas pela mídia (vide, marketing) por venderem produtos com sua imagem.

A imprensa trabalha essa imagem de “deus do futebol” como se fosse prioridade da nação brasileira, nós acreditamos, reproduzimos essas noções, e logo as empresas usam essa crença social para vender seus produtos em um cenário já preparado para que admiremos o que os jogadores dizem e fazem.

Por essas e outras vocês nunca verão os meios de comunicação fazendo críticas duras à Neymar. Eles lucram muito com a imagem do jogador e não estão dispostos a abrir mão disso.  Basta ver que Galvão Bueno defendeu o Neymar depois que ele xingou os torcedores, como indica a Revista do Ceará no vídeo acima.

Quem quiser superar essa situação, portanto, deverá atuar sozinho.

Como disse, primeiramente é preciso reconhecer tanto o trabalho marqueteiro da imprensa quanto a forma desequilibrada que valorizamos ou desvalorizamos profissões segundo a forma que elas aparecem na mídia formadora de opinião.

Essa conscientização é base de tudo.

Com ela adquirimos o discernimento para entender que salvar uma vida merece valorização, enquanto chutar uma bola, não.

E dessa forma daremos aos atletas a atenção que eles merecem. Nem menos nem mais.

Quem sabe com essa conscientização, a corrupção no futebol diminua e cartolas como o presidente da CBF, Marco Polo del Nero, finalmente paguem pelos crimes que cometeram.

Não há outra saída a não ser orientação e educação popular… E, na minha opinião, já é hora de começar a fazer isso.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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