Atropelamento e assassinato de militante do MST é motivado por clima de ódio incentivado por Bolsonaros e Dória, dispara advogado

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De acordo com o advogado Nilcio Costa, a família de Luiz Ferreira da Costa receberá assistência jurídica do MST

Por André Henrique

Na manhã de quinta (18), em Valinhos, interior de São Paulo, o motorista Leo Luiz Ribeiro (60) acelerou uma caminhonete modelo Mitsubishi Hylux L-200 na direção de manifestantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e atingiu 05 militantes. Um deles, Luiz Ferreira da Costa (72) não resistiu aos ferimentos e morreu antes de chegar à Unidade de Pronto Atendimento (UPA).

Duas pessoas deram entrada no sistema de saúde municipal, informa o jornal Brasil de Fato (aqui). Além de Luiz Ferreira da Costa, que não resistiu aos ferimentos, o jornalista Carlos Felipe Tavares, de 59 anos, sofreu escoriações e passou por exames, na UPA. 

Contexto

Cerca de 500 manifestantes do acampamento “Marielle Vive” e do MST protestavam contra a prefeitura de Valinhos, por conta da falta de fornecimento de água para a ocupação. Os manifestos ocorreram na frente do acampamento, na Estrada do Jequitibá.

Os moradores entregavam panfletos e alimentos da reforma agrária para os carros que passavam, quando Leo Luiz Ribeiro acelerou a caminhonete na direção deles. Dentro de um ônibus, um cidadão gravou a cena. No G1 Campinas (aqui)

A prisão e a estratégia do MST

No final da tarde de quinta (18), a Polícia Civil prendeu em flagrante Leo Luiz Ribeiro em Atibaia (SP). O delegado Júlio César Brugnoli, titular do 1º DP de Valinhos, contou que o suspeito disse em depoimento não ter percebido que havia matado alguém e que acelerou depois de o carro ser cercado pelos manifestantes, “ele alegou que foi abordado na estrada, de uma forma violenta, que a caminhonete estava sendo atacada por pedras e paus pelo pessoal do MST, e que a reação foi fugir por medo e que não teria percebido o atropelamento”.

Ribeiro foi encaminhado à cadeia anexa do 2º Distrito Policial de Campinas (SP), de acordo com Brugnoli, ele responderá pelos crimes de homicídio doloso, na modalidade simples e lesão corporal contra o cinegrafista, que também foi atropelado; além de fuga do local do acidente.

Ao jornalista André Henrique, do Independente e do Rede RMC, o advogado do MST Nilcio Costa afirmou que a estratégia de sua ação será para que Leo Ribeiro responda por homicídio qualificado no caso do senhor Luiz Ferreira e por tentativa de homicídio, não uma simples lesão corporal, em relação ao cinegrafista, “porque ele jogou o carro em cima daquelas pessoas para matar quem fosse possível”, cravou.

O advogado rebateu a afirmação de que o carro foi danificado pelos manifestantes “nós fotografamos a caminhonete e vários órgãos de mídia alternativa fizeram esse trabalho também e o único estrago no carro foi o pára-choque amassado pela batida, nas vítimas”.

Apoio aos familiares de Luiz Ferreira da Costa

Nilcio Costa disse ao jornalista André Henrique que os advogados do MST já se reuniram com a família do senhor Luiz Ferreira da Costa e se colocaram à disposição para oferecer cobertura jurídica aos familiares, “nós estamos ingressando no processo criminal como assistentes de acusação para ajudar na produção de provas, de modo a garantir um julgamento justo, que não fique impune […] estamos ajuizando uma ação civil de reparação de danos morais à família e dando suporte no acesso à pensão por morte da viúva e à indenização do seguro DPVAT”.

Íntegra da entrevista:

Criminalização dos Movimentos Sociais

O advogado do MST apresentou dados CPT (Comissão Pastoral da Terra), segundo os quais, de 1985 a 2018, foram assassinados 1789 trabalhadores, destes, 307 autores dos assassinatos foram identificados e apenas 117 foram julgados. Ou seja, 92% dos crimes no campo ficam sem solução, informa Nilcio Costa. Site da CPT (aqui)

Para o advogado, a conjuntura política predominantemente de direita colabora a que se construam narrativas políticas que incentivam a violência no campo, ele cita como exemplo o presidente da República Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo João Dória. Nilcio Costa destaca que Bolsonaro durante a campanha eleitoral ameaçou em vídeo quando esteve no Pará que trataria os militantes do MST como bandidos. E Dória foi ao Pontal do Paranapanema e se comprometeu com fazendeiros a combater de modo violento o movimento social, acusou o advogado.

Matéria da Fórum – Jair Bolsonaro diz que dará fuzis para homens de bem contra o MST

Em vídeo gravado divulgado pelo jornal Brasil de Fato (aqui), um irmão de Ribeiro diz que é contra manifestação fechando ruas e que seu irmão “deveria ter passado um caminhão em cima dos manifestantes”.

Manifestações

No sábado (20) o MST reuniu setores progressistas nas ruas de Valinhos e milhares de pessoas protestaram exigindo justiça e o fim da criminalização dos movimentos sociais.

O ato contou com a participação de parlamentares federais e estaduais. Para Ivan Valente, deputado federal (PSOL-SP), “este assassinato do companheiro Luiz Ferreira é fruto criado pela eleição de Jair Bolsonaro, vamos dar nome aos bois. A intolerância e o preconceito acendem o pavio do fascismo. O presidente da República defende os ricos e aqui estamos falando de uma vítima que veio de baixo, de um sonhador, de um lutador. E eles querem matar nossos sonhos. Não conseguirão. Fora, Bolsonaro”, bradou.

A deputada estadual Isa Penna (PSOL-SP) disse que o senhor Luiz Ferreira da Costa se entregou de corpo e alma às lutas que iam além de seus interesses pessoais, uma luta de todos os trabalhadores brasileiros, e que o PSOL estava no ato levando solidariedade à família do senhor Luiz e ao MST, ressaltou.

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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