Cármen Lúcia, o ‘cala boca’ é cotidiano na imprensa brasileira

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Presidente do STF disse em evento que o “cala a boca já morreu” na imprensa do Brasil, mas a violência policial, o oligopólio da mídia e os assassinatos de jornalistas ainda são problemas de liberdade de imprensa.

Opinião – Por Rafael Bruza

A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Càrmen Lúcia / Foto - Reprodução (Agência Brasil)
A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Càrmen Lúcia / Foto – Reprodução (Agência Brasil)

Discursando no fórum da Associação Nacional dos Editores de Revistas, a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, disse que o “cala a boca já morreu” na imprensa brasileira, sugerindo que os jornais, rádios e TV’s têm direito de repassar informação ao cidadão. Na teoria (leis) e no geral, nós, jornalistas, de fato somos livres. Podemos nos comunicar. Mas, na prática, a ação de policiais em manifestações, os assassinatos e a autocensura feita pelas empresas de comunicação são parte da profissão.

Como esquecer o “podemos tirar, se achar melhor”, por exemplo? Por alguma razão, o editor da Reuters teve receio de publicar a informação (de interesse público) de que o ex-gerente de Serviços da Petrobras, Pedro Barusco, começou a receber propinas em 1997, no governo FHC.

Poucos dizem isso na área de comunicação, mas muitos jornalistas têm medo de manifestar suas posições políticas livremente onde trabalham. Por isso Mino Carta diz que jornalistas são amigos dos patrões: se o jornalista não virar “amigo”, vai pra rua!

Claro que certo excesso nessa visão, mas esse tipo de autocensura foi citada no relatório da ONG Repórter Sem Fronteiras, que rebaixou o Brasil em 5 posições no ranking mundial de liberdade de imprensa, por causa dos assassinatos de jornalistas, da violência da PM contra profissionais da imprensa em manifestações e a concentração no setor de mídia,

A ONG foi clara ao dizer que a imprensa no Brasil continua concentrada em algumas empresas de comunicação (traduzindo: Grupo Globo, Grupo Abril, Grupo Estado, Grupo Folha, Grupo Bandeirantes, Grupo Editorial Record, entre outros) que têm interesses privados, distorcendo o exercício do jornalismo.

“Os meios de comunicação nacionais agem de forma a convidar suas audiências a precipitarem a saída da Presidenta Dilma Rousseff do poder. É difícil para os jornalistas de grandes conglomerados de comunicação trabalharem de forma serena, sem sofrer de interesses privados e partidários. Esses conflitos de interesses permanentes são evidentemente prejudiciais à qualidade da informação difundida”, conclui o comunicado.

E olhe QUE IRONIA: veículos do Grupo Globo censuraram essa informação ao cobrir o a notícia (veja aqui).

Pessoalmente duvido que todos os jornalistas das redações do G1 e da CBN tenham gostado da decisão de tirar esse parágrafo acima, assim como a informação de que a imprensa no Brasil está concentrada num esquema de oligopólio que inclusive ganha mais publicidade com o Governo Temer do que com o Governo Dilma.

Indo para as ruas, manifestações, vemos que jornalistas são intimidados pela ação policial e até mesmo pela nobre “Justiça” em que Cármen Lúcia é autoridade máxima.

O fotógrafo Sérgio Andrade da Silva ficou cego do olho esquerdo após levar um tiro de bala de borracha disparado por um policial durante uma manifestação. Mas ao pedir indenização ao Estado, foi considerado culpado pela Justiça por simplesmente estar ali trabalhando, assumindo o risco de ser atingido “em caso de confronto”.

Há mais casos.

Semana passada, “agentes da lei” ordenaram que jornalistas da Ponte apagassem fotos e vídeos de uma manifestação estudantil contra a PEC 241 e a MP de Reforma do Ensino Médio assim: por livre e espontânea vontade.

Isso é censura em toda regra, vedada pela constituição, onde nossa imprensa é livre.

Mas na vida real, nós, jornalistas, somos constantemente censurados, intimidados e até assassinados (lembrando que o Brasil é o 3º país mais mortífero para jornalistas, atrás apenas do México e de Honduras), como também lembrou ONG Repórteres sem Fronteiras

Vou concluir lembrando um dos casos mais preocupantes que já vi na história recente da profissão: jornalistas do Paraná divulgaram os super-salários de juízes (que receberam acima do teto constitucional em tempos de recessão econômica) e foram perseguidos por magistrados e promotores, que processaram os profissionais mais de 30 vezes, em várias cidades diferentes.

Isso é tudo, menos o fim do “cala a boca”. Não tenho dúvidas de que tivemos um grande avanço.

Há quarenta anos, jornalistas eram assassinados e torturados pelo Estado Militar em nome da “segurança nacional”. Hoje eu posso fazer esse texto criticando a presidente da maior corte jurídica do país sem ser processado, torturado ou morto. Mas ainda há muito o que melhorar antes de falar realmente em imprensa livre sem ignorar veementemente as lamentáveis condições em que alguns profissionais da comunicação estão inseridos no cotidiano da profissão..

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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