Carta aberta a europeus e norte-americanos que reclamam das Olimpíadas no Brasil

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Suas reclamações são compreensíveis, pois a organização dos jogos é ruim, mas a maioria dos problemas que vocês enfrentam aqui não são nada perto do que vivem alguns brasileiros. Então venham conhecer a realidade de nosso país antes de criticá-lo, por favor.

Carta aberta

cristo chora

Aos queridos amigos europeus e norte-americanos,

Sei que a organização das Olimpíadas do Rio de Janeiro de 2016 é horrível em muitos sentidos, principalmente se fizermos comparações com os nobres jogos de Londres 2012.

Vivi na Europa e entendo que vocês estão acostumados com um padrão de vida muito mais evoluído do que o nosso.

Mas, antes de fazer reclamações de primeiro mundo em um país de terceiro mundo, peço humildemente que tenham algo de consideração pelos brasileiros que sofrem mais do que vocês em nossa queria pátria.

Algumas delegações reclamaram de uma Vila Olímpica montada especialmente para elas num país em que metade da população não tem esgoto coletado em suas casas, por exemplo.

Na teoria, os esportistas têm todo direito de reclamar, pois a vila tem problemas graves, sim.

Mas na prática, esse tipo de queixa “ocidental” ignora todos os brasileiros que, ao contrário dos atletas, são abandonados pelos governos de nosso país e despejados de suas casas por uma Polícia Militar truculenta que “só recebe ordens” da “Justiça”.

A questão é: vamos trabalhar para (tentar) resolver os problemas que vocês encontrarem e apontarem durante os jogos.

Mas me pergunto quem fará algo por esses brasileiros carentes e desamparados?

As queixas deles não saem nem na imprensa nacional…

E o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), só cogita a possibilidade de agradá-los em época de eleições.

Mas ele fez questão de afirmar que faria de tudo para agradar os australianos, até “colocar um canguru na frente deles”.

E há reclamação por causa de uma piada?

Ora, os australianos decidiram não entrar na Vila Olímpica, chamaram todas as atenções do país com queixas e logo em seguida foram para um resort 5 estrelas.

Simples assim.

Agora perguntem a um brasileiro que trabalha no lixão recolhendo latinhas para ganhar alguns centavos se ele quer morar nessa Vila Olímpica “cheia de problemas”.

Ele aceitaria na hora, pois não tem teto para morar e só terá se for à periferia construir um barraco em zona de risco, enquanto continua sendo ignorado pelo poder público.

O caso é: nosso governo atualmente dá mais atenção a vocês, cidadãos de primeiro mundo, do que a nós, brasileiros!

Também por isso há tanta gente daqui indignada com o evento.

Não pretendo aqui minimizar os problemas da organização dos jogos, mas sim explicar que esses incômodos de primeiro mundo não são nada perto do que milhões de brasileiros sofrem diariamente.

Quando chegarem ao Brasil olhem a seu redor. Olhem as favelas do Rio de Janeiro. E percebam como é injusto reclamar de qualquer coisa perto de uma família destruída por uma bala perdida, pelo tráfico de drogas ou pelo abandono do Estado.

Reparem nas crianças de rua virão pedir dinheiro a vocês. A família desses pequenos seres humanos não consegue matriculá-los na escola e muito menos pagar um teto.

Eles não sabem ler, meus amigos. Serão discriminados durante toda a vida. Possivelmente passarão fome e provavelmente apanharão de soldados da Polícia Militar.

O que são problemas de fiação, sujeira e encanamento perto de situações desse tipo?

Na verdade, estou começando a achar que realização da Copa FIFA e das Olimpíadas no Brasil serve muito bem para mostrar a vocês, cidadãos de primeiro mundo, que existem realidades muito mais cruéis do que estão acostumados.

E esse contato com vidas sofridas dá lindas lições de humildade, meus amigos.

Portanto, abaixem a cabeça e pensem bem antes de reclamar, caros europeus e norte-americanos.

Como brasileiro que sou, asseguro que daremos nosso melhor para atender a todos durante esse mês de Olimpíadas.

Teremos muitos problemas, sim, pois os brasileiros mais irresponsáveis são incapazes de se posicionar no lugar do outro para pensar no que é melhor para o “todo”.

É isso que somos! Infelizmente…

Mas quero pedir que quando as Olimpíadas acabarem e vocês voltarem a seus países civilizados e exemplares, não se esqueçam dos brasileiros carentes que citei acima.

Eles são os injustiçados do Brasil, meus caros. Não vocês.

E é por eles que o Cristo Redentor chora, até porque poucas pessoas de primeiro mundo estão dispostas a mudar a situação em que essas pessoas vivem…

Então tenhamos mais compaixão pelos demais antes de priorizar nossa visão, por favor.

Sem mais,

Rafael Bruza

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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