Chico Buarque explica Moro e Bolsonaro

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Se Sérgio Moro fosse um desses políticos hábeis e ardilosos, poderia, neste momento, tendo em vista a troca imposta por Jair Bolsonaro da direção da Polícia Federal e a entrega de nacos do governo a condenados chefes de condenados como Valdemar da Costa Netto e Roberto Jefferson, abandonar o governo com a seguinte narrativa: “estou saindo do governo porque o presidente passa por cima da minha autoridade, Bolsonaro me traiu, traiu o combate da corrupção e o povo que confiou nele”.

Seria o caminho para Sérgio Moro desfazer o erro estratégico que cometeu ao aceitar o ministério da Justiça das mãos de Jair Bolsonaro. Ali Moro colocou seu capital político num beco sem saída, por duas razões: 1) foi o mesmo que confessar que condenou Lula à prisão em função de um projeto político, afinal, aceitou o presente/ministério do beneficiado direto da prisão do petista. Reforçou também a tese de que Lula é um preso político, a essa altura evidente a qualquer um que leu o processo do tríplex, despido de paixões políticas e agarrado aos autos, aos fatos e à constituição. 2) ao virar ministro, Sérgio Moro entregou sua alma a Jair Bolsonaro e virou um zumbi político. Não é à toa que está procurando um jeito de sair do governo há tempos.

Entretanto, Sérgio Moro não nasceu com talento para política e tem a cintura dura para a nobre arte. E tipos assim estão fadados a serem puxados e empurrados, não tem capacidade para voos próprios. Como juiz, Moro atendia aos interesses de setores das elites e era empurrado pela mídia burguesa, sonha ser um presidente na mesma condição. Não consegue sequer se desvencilhar do presidente mais estabanado do planeta. Fico em dúvida se Moro terá a virtu de aproveitar a fortuna que lhe bateu à porta.

O Brasil no meio disso tudo segue à deriva. A maior crise sanitária do século exige governo, liderança e coordenação, mas o presidente da República está isolado e ocupado apagando os incêndios que ele mesmo produz. Não fossem os governadores, os prefeitos, setores do judiciário e do Congresso mais a maioria da sociedade civil construírem um pacto mínimo pelo isolamento social e pela ciência, o caos seria pior. E Bolsonaro colocou no ministério da Saúde alguém que em teoria ele possa controlar na direção do…caos.

No meio da desordem, Sérgio Moro tenta pular do barco, mas aposta em uma saída introvertida e coloca a decisão nas mãos de Jair Bolsonaro, assim fica difícil a separação. Bolsonaro a sua vez não quer mais um presidenciável do mesmo campo político à solta picando seu calcanhar, fará de tudo para manter Moro debaixo de suas asas. Parafraseando Chico Buarque “como, se na desordem do armário embutido, meu paletó enlaça o teu vestido e o meu sapato inda pisa no teu. Como, se nós amamos feito dos pagãos, teus seios ainda estão nas minhas mãos, me explica agora com que eu vou sair”.

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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