Cientista político avalia as condições de Lula e Bolsonaro para 2018

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Por André Henrique

Para cientista político, Lula segue favorito, para 2018, mas Jair Bolsonaro explora habilmente o ressentimento das pessoas contra os políticos tradicionais e os partidos da ordem.

Pedro Fassoni Arruda – cientista político (PUC-SP)

Após a condenação de Lula em primeira instância, cresceram as especulações sobre as eleições presidenciais de 2018. Lula conseguirá ou não ser candidato? O petista perderá competitividade? Se não for o candidato, o ex-presidente será capaz de transferir votos a um candidato de centro-esquerda? Divulgada antes da sentença de Moro,  a pesquisa Datapoder360 apontou Jair Bolsonaro isolado em segundo lugar com apenas 5 pontos atrás do petista e jogou mais lenha na fogueira.

Em entrevista ao independente, o cientista político da PUC-SP, Pedro Fassoni Arruda, afirma que Lula segue como o favorito por conta de seu legado político “que se reflete nos 87% de aprovação popular quando deixou o governo”e pela falta de apelo popular do PSDB e do PMDB. O analista vê Jair Bolsonaro como candidato competitivo por conta da crise das lideranças tradicionais e dos partidos da ordem. Para Fassoni, “o maior erro de quem acredita na democracia, no respeito às minorias e nos direitos humanos é subestimar uma liderança fascista em tempos de crise estrutural”.

Acompanhe este e outros pontos, na entrevista:

Qual impacto imediato da condenação de Lula no cenário político?

O impacto pode ser notado nas ações da militância e mobilização nas redes sociais, mas não altera significativamente o jogo de poder. A situação do governo Temer, que está acuado diante de tantas denúncias, segue bastante crítica. Mas a condenação de Lula em primeira instância não altera o equilíbrio de poder, como as alianças político-partidárias e as principais reformas, como a trabalhista e a previdenciária. Os apoiadores e simpatizantes de Lula sustentam que a condenação foi injusta e arbitrária, por faltares provas que o incriminem. A militância petista tende a considerar seu principal líder como alguém que foi condenado pelos seus acertos enquanto presidente, não pelos seus erros. Enquanto isso, seus críticos assistem atônitos o crescimento de Lula em todas as pesquisas eleitorais para 2018.

Dá pra especular sobre o futuro do PT, caso Lula seja condenado em segunda instância e impedido de ser candidato?

Sim, é possível traçar alguns cenários possíveis com a ressalva de que o futuro sempre está em aberto e que existem outras variáveis que precisam ser consideradas. Um dos cenários possíveis é o seguinte: como Lula é uma liderança carismática e personalista, o PT encontrará dificuldades em substitui-lo. Por quase quatro décadas, Lula esteve à frente do PT e seu grupo sempre foi hegemônico dentro do partido. Desde a primeira eleição de Lula, o lulismo foi claramente mais forte que o petismo, sobretudo no Norte e Nordeste do Brasil. Mas ainda que a candidatura de Lula seja impugnada, o PT continuará sendo o principal partido de esquerda e a maior referência do campo popular e progressista. Continuará elegendo uma bancada considerável de deputados e senadores, apesar do alijamento de sua principal liderança.

Se não cassado, Lula segue competitivo e favorito para 2018 ou não terá chances de vencer?

Lula seguirá favorito. Em parte, pelo legado que deixou, que se reflete nos 87% de aprovação quando saiu do governo. Mas também por conta da pequena base social dos maiores partidos de direita, como o PMDB e o PSDB. Estes dois partidos têm força na atual legislatura, na mídia e no judiciário, mas pouco apelo popular. E as contrarreformas que tais partidos vêm apoiando, como a trabalhista e a previdenciária, os afastam ainda mais da maioria da população brasileira. É importante que o PSDB poderá pagar caro pelo impeachment (na verdade, um golpe parlamentar diante da inexistência de crime de responsabilidade) e pelo apoio que está prestando ao governo ilegítimo e corrupto de Michel Temer.

Sem  Lula na disputa, a esquerda conseguirá produzir uma alternativa competitiva em tão pouco tempo? 

Essa é uma questão complexa, que também tem relação com os demais partidos. Afinal, esse sentimento difuso de descontentamento “contra tudo o que está aí” afetou igualmente a todos os grandes partidos da ordem (incluído aí o próprio PT, mas também o PMDB, o PSDB, e DEM e outros). Existe um vazio de lideranças. Como eu falei anteriormente, a liderança carismática de Lula tem muita força e nem mesmo as duas eleições de Dilma foram capazes de diminuir seu protagonismo. Mas também devemos perguntar como fica o PSDB, com os escândalos envolvendo Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin, por exemplo. Do lado do PT, algumas figuras vêm se destacando, como os senadores Lindbergh Farias e Gleisi Hoffman, e o nome do ex-prefeito Fernando Haddad também é sempre lembrado. Do lado do PSDB, o outsider João Dória vem ganhando projeção, embora à revelia dos caciques de seu próprio partido.

Ciro Gomes reúne condições de herdar os votos da centro-esquerda?

Sim, pelo menos em parte. Ciro tornou-se um crítico do neoliberalismo e passou a adotar um discurso neo-desenvolvimentista. Como professor universitário, tenho notado um crescente entusiasmo de parcelas do movimento estudantil com a sua provável candidatura. Depois de passagens pela velha ARENA e pelo PSDB (onde participou do governo Itamar Franco e da elaboração do Plano Real junto com FHC), Ciro deu uma guinada à esquerda e aproximou-se dos governos petistas, sem abrir mão do exercício da crítica. Mas também existem resistências e desconfianças ao nome de Ciro dentro da própria esquerda, em parte por conta de seu passado e também por causa de sua dificuldade em penetrar no movimento social organizado, nos grupos identitários e também – evidentemente – pelo fato de o PT dificilmente abrir mão de uma candidatura própria.

Uma vez rotulado como ficha suja, Lula seguiria um cabo eleitoral indispensável?

Creio que a condenação de Lula pouco mudará tal situação. Lula desperta amores e ódios. Numa situação como esta, Lula pode sim ajudar a trazer votos daqueles que já pretendiam votar nele. Entre aqueles que comemoraram a sua condenação, o apoio de Lula a outro candidato só faria aumentar a rejeição deste.

A falta de apelo popular do PMDB e do PSDB, mais os problemas jurídicos de Lula, podem favorecer Marina Silva ou, por outra, alimentar um fenômeno de extrema-direita como Jair Bolsonaro?

Sim, essa possibilidade é cada vez maior por conta do enfraquecimento dos líderes dos principais partidos. Numa situação como essa, os chamados outsiders conseguem “roubar” votos dos políticos tradicionais. Mas PT, PMDB e PSDB sofrem o impacto de maneiras muito diversas: O PMDB já não lança uma candidatura própria à presidência há duas décadas; o PSDB perdeu as últimas quatro eleições; e o PT está passando por um processo de mudanças, inclusive com aumento massivo de filiações ao partido – fenômeno que se acentuou ainda mais após a condenação de Lula pelo juiz Sérgio Moro. O grande problema para o Partido dos Trabalhadores é que o lulismo sempre foi mais forte do que o petismo nas eleições presidenciais.

Em uma pesquisa do DataPoder360, Bolsonaro já aparece empatado tecnicamente com Lula, o professor acredita que o direitista é um candidato competitivo ou por falta de estrutura desidratará durante a corrida eleitoral? 

Bolsonaro é um candidato competitivo, infelizmente. O maior erro de quem acredita na democracia, no respeito às minorias e nos direitos humanos é subestimar uma liderança fascista em tempos de crise estrutural. A extrema-direita ganhou força nos EUA (com a eleição de Trump), na França (com Marine le Pen), na Itália (com Berlusconi) e em muitos outros países nos últimos anos. A crise estrutural do capitalismo, que combina desemprego com eliminação de direitos sociais, entre outras coisas, tem o efeito de gerar ressentimentos diante de determinados grupos, como os estrangeiros, além de favorecer a adesão a soluções autoritárias que – pelo menos no plano da retórica – visam restabelecer a “credibilidade das instituições” e o combate à corrupção. Mas Bolsonaro não tem uma forte organização partidária, tampouco intermediários organizacionais que possam sustentar a sua candidatura, e isso é um limite para o seu crescimento junto ao eleitorado.

O que explica a ascensão de Bolsonaro e como o sr avalia o crescimento da direita “liberal-conservadora”? A direita (ideológica) veio pra ficar?

Como eu disse, Bolsonaro consegue explorar habilmente esse ressentimento das pessoas contra os políticos tradicionais e os grandes partidos da ordem. Mas discordo quanto à rotulação de direita liberal-conservadora, que cairia melhor no PSDB ou no DEM (que conta em suas fileiras com velhos “filhotes da ditadura”, mas possui uma liderança como Rodrigo Maia). Bolsonaro não é um liberal, é um autoritário e feroz crítico do liberalismo em sua forma política; e não é um conservador, e sim um reacionário: os conservadores, como o próprio nome diz, estão identificados com a manutenção do status quo; enquanto os reacionários querem fazer a roda da história girar para trás, e acabar com todas as formas de emancipação que a democracia liberal – com todas as suas limitações – foi capaz de proporcionar.

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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