Comitê e empreiteiras ficam com a maior parte dos benefícios das Olimpíadas, segundo pesquisador

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O professor estadunidense, Stanley Engerman, disse em entrevista à BBC Brasil que as Olimpíadas do Rio de Janeiro tendem a gerar prejuízo para a cidade, devido aos altos custos.

Informação – Redação * com informações da BBC Brasil

Crianças observam desfile das Olimpíadas no Parque Madureira, zona norte do Rio de Janeiro / Foto – Reprodução (Agência Brasil)
Crianças observam desfile das Olimpíadas no Parque Madureira, zona norte do Rio de Janeiro / Foto – Reprodução (Agência Brasil)

Stanley Engerman é professor de economia e história da Universidade de Rochester, em Nova York, e estudou o impacto que os jogos Olímpicos exerceram em algumas cidades-sede. Ao longo de seus estudos, ele concluiu que os maiores beneficiários dos jogos costumam ser empreiteiras e os comitês organizadores.

“O que ocorre é que a maior parte do dinheiro, principalmente os pagamentos das TVs por direitos de transmissão, acaba indo para o Comitê Olímpico. Quem ganha dinheiro é o comitê e as construtoras que fazem as obras. Muito pouco vai para a cidade sede”, afirmou Engerman em entrevista à BBC Brasil.

O pesquisador também aponta que os comitês responsáveis pela organização das Olimpíadas e da Copa do Mundo tiram vantagem desses grandes eventos.

Os comitês que organizam as Olimpíadas e a Copa do Mundo agem como monopólios. Eles impõem condições muito duras. O discurso é: ‘se você quiser sediar a Olimpíada, precisará desses novos estádios; se quiser a Copa do Mundo, terá que ter jogos em diferentes cidades e prover transporte para essas cidades’. Enquanto houver vários competidores buscando sediar os eventos, eles tirarão vantagem. Não há muito o que os países possam fazer”, argumenta Engerman.

Segundo o professor, os ganhos dos anfitriões costumam ficar abaixo dos gastos com construção dos estádios e com cumprimento das exigências dos organizadores.

Ele argumenta que as Olimpíadas do Rio de Janeiro tendem a gerar prejuízo à cidade devido aos altos custos de realização e informa que a única exceção à tendência de sofrer prejuízo ao sediar os jogos aconteceu quando a cidade de Los Angeles (EUA) recebeu o evento em 1984, pois já tinha todos os estádios prontos e conseguiu atrair investidores privados na época.

“A cidade tem muitas faculdades pequenas e já tinha muitos estádios prontos ao sediar os jogos de 1984. Eles também tiveram um empreendedor muito bom, Peter Ueberroth, que fez várias empresas se interessarem pelos jogos e investirem dinheiro na cidade”.

Questionado por que tantas cidades ainda concorrem para sediar as Olimpíadas, ele aponta que os anfitriões costumam acreditar no turismo.

“Pensam que haverá muito turismo durante o evento, o que nem sempre ocorre. Também argumentam que os jogos serão uma desculpa para construir um sistema de transporte, como no caso de Barcelona”, afirma o pesquisador, depois de questionar se as cidades-sede não poderiam fazer as linhas de metrô sem “absorver todos os custos dos jogos”.

Ele também afirmou que as cidades candidatas a ser sede das Olimpíadas costumam acreditar na glória” por receber o evento.

“Eles também pensam que ganharão bastante prestígio e glória por receber as Olimpíadas. Mas isso é questionável, porque na maiora dos casos, as cidades que abrigam os jogos já costumam ser conhecidas e não há sinais de que o movimento aumente depois das Olimpíadas”, afirma.

Além de alertar que diversas cidades-sede como Atlanta (1996), Atenas (2004), Pequim (2008) e Londres (2012) acabaram com “elefantes brancos” (estádios inutilizados) após as Olimpíadas, o pesquisador também ressaltou que graças aos altos custos, cada vez mais cidades se recusam a participar da disputa para sediar o evento.

“Boston era cogitada como uma das competidoras para a Olimpíada de 2024, mas, após alguns estudos, o prefeito desistiu de concorrer. Ele foi muito criticado no início, mas depois que se divulgaram os cálculos sobre as Olimpíadas de Londres, mais pessoas passaram a apoiá-lo”.

Ele também comentou um prognóstico para o futuro das Olimpíadas.

“Alguns dizem que no futuro, todas as Olimpíadas serão na Rússia ou na China porque são países com governos autoritários e que não precisam justificar tanto o uso de dinheiro público”.

E questionado se a realização do evento deixaria os habitantes locais mais “felizes e confiantes”, Engerman disse que “isso é algo muito difícil de medir e se tornou um dos últimos refúgios de quem defende sediar esses eventos. Quanto você pagaria por essa felicidade? Ela não vem de graça”.

Ele acha que as Olimpíadas só são atraentes “se você não olhar para os custos”.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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