Conversei com um admirador da Ditadura e não brigamos

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Momento um: o youtuber Felipe Neto, uma das personalidades mais populares do país nos últimos anos (independente se desperta admiração ou repulsa), faz uma conclamação em seu Twitter pelo resgate da valorização da Bandeira Nacional como fator de união de todos os habitantes do território brasileiro, alertando para uma apropriação indevida: “Nossa bandeira é um símbolo. Símbolos são fundamentais na comunicação e na nossa identificação. Entregarmos a nossa bandeira pros fascistas é perder um dos símbolos mais importantes de nossa luta. Não existe outra bandeira, precisamos recuperá-la msm q machuque nosso ego” (sic: “mesmo que machuque nosso ego”, em um trecho editado pela limitação de caracteres para as postagens em Twitter).

Momento dois: a ampla reação popular pelo mundo afora por conta do assassinato de George Floyd por um policial nos Estados Unidos reverbera em uma situação inédita de revisionismo histórico. Estátuas de figuras históricas vinculadas à escravidão negra são atacadas e algumas, derrubadas.

Momento três: na Praia do Leme, Zona Sul do Rio, há uma estátua em tamanho natural do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro presidente da Ditadura Militar (1964-1985), um período marcado por repressão política, torturas, mortes e desaparecimentos. O monumento fica ao lado da edificação militar do Forte do Leme e em frente a Pedra do Leme. Atrás da mesma localidade, em praticamente alto-mar, ocorreu a maior tragédia da história da região: o naufrágio da embarcação Bateau Mouche IV, na noite de Reveillon de 1988 para 1989, deixando um total de 55 mortos. Não existe qualquer homenagem pública concreta às vítimas, sequer uma placa (se existe, o autor deste texto desconhece). Em diversos estados do país, existem projetos que pedem a retirada de homenagens (nomes de ruas, pontes, etc.) para figuras vinculadas ao Regime Militar.

Momento quatro: começo da flexibilização das atividades comerciais no Rio de Janeiro, ainda que de forma confusa. Após três meses cumprindo isolamento para evitar o contágio por coronavírus e saindo de casa apenas para o estritamente necessário, sem fazer longas distâncias, vou até Copacabana e caminho pela Avenida Atlântica, uma das principais do bairro. À meia-distância, em frente ao célebre hotel Copacabana Palace, percebo uma novidade que não tinha reparado antes, do outro lado, no calçadão da orla: uma estátua nova. Resolvo atravessar a via de tráfego e ver de quem se tratava. É do piloto Ayrton Senna (1960-1994), um dos maiores ídolos do esporte nacional. A representação mostra-o empunhando uma Bandeira Nacional, seu costume muito elogiado quando vencia uma corrida e ia para o pódio receber a premiação.

Quando fui observar, uma mãe com dois filhos (um de oito e outro ainda bebê, no carrinho), tirava fotos da estátua com o celular. Me ofereci para registrar uma foto dos três juntos com o monumento dedicado ao piloto. A jovem ficou agradecida com a gentileza e registrei a foto, o menor no colo. Depois de tudo, enquanto ela colocava o filho bebê de volta no carrinho, puxei uma rápida charla com o menino maior sobre quem tinha sido Ayrton Senna – eu tinha dez no fatídico dia de sua morte, assistindo tudo ao vivo como a maioria dos brasileiros. De repente, um homem aparentando uns quarenta e cinco anos subiu no pedestal da estátua e ficou “abraçado” em Ayrton. Pediu que eu comparasse a altura da estátua com a dele. Um pouco que espantado, respondi que ele era um pouco mais alto. O rapaz criticou: “Não sabem nem fazer estátua, Senna tinha um metro e 75!”. A jovem mãe com as crianças já tinha ido embora e aproveitei o momento para comentar a minha observação sobre a discrepância de homenageados alguns quilômetros mais adiante, no Leme (Castelo Branco e o Bateau Mouche). Antes, indaguei da pessoa se ele era um concordante da Ditadura – tenho o hábito de, em algumas conversas que envolvam temas sensíveis, como religião e política, perguntar sobre preferências antes de emitir opinião. “Depende de qual ditadura”, respondeu o cidadão. “Se você está falando da ditadura do PT, eu sou contra”, completou. De forma serena, afirmei que tinha um pensamento diferente sobre a Ditadura Militar, mas completei com um argumento que aprendi em uma leitura e tenho usado com algum sucesso em diálogos com algum antagonismo: “vamos concordar em discordar”.

“Os presidentes daquela época eram eleitos”, afirmou o cidadão como argumentação de sua avaliação não-negativa do Regime Militar. Foi uma charla rápida, ele concordou com a minha visão sobre a ausência de homenagens para os mortos do naufrágio do Bateau Mouche. Nos segundos seguintes, foi cada um para seu lado, ele continuou a caminhada dele pela orla e voltei para a frente do Copacabana Palace. Antes de prosseguir, o homem fez uma insistência: “se você ver direitinho, os presidentes daquela época eram eleitos, votados”.

Acabava de ter uma brevíssima conversa sobre um tema polêmico, com um visível apoiador de um período muito doloroso da História do Brasil. O mais surpreendente: foi pacífico. Não houve briga. Não teve troca de insultos, xingamentos, o tal “cancelamento”, termo tão em moda, mas inadequado no caso porque era uma conversa de corpo presente e não uma rede virtual. Ele não me convenceria de que aquele período foi produtivo positivamente para o país (embora eu também tenha críticas profundas aos governos petistas, ainda que não ao ponto de classificá-lo como uma “ditadura”). A recíproca seria a mesma se eu dissesse que as ditas “eleições” ao qual ele se referiu eram mais uma espécie de “aclamação” de cartas marcadas para sugerir o aspecto “democrático” da Ditadura. Mas não aconteceu briga. Foi uma charla até ligeiramente simpática.

Uma gota no oceano no Brasil de hoje.

Momento cinco: naquele mesmo local onde a estátua de Ayrton Senna foi instalada, ocorreu um dos momentos mais tensos do isolamento de combate ao covid-19. Uma organização não-governamental instalou dezenas de cruzes na areia da praia em homenagem aos mortos pela pandemia. Um idoso bolsonarista começou a derrubar as cruzes gritando ataques contra as medidas de isolamento. Um homem que passava pelo local, revoltado com a atitude (tinha perdido um filho jovem para o coronavírus), foi para a areia refincar as cruzes.

Não aconteceu vias de fato entre os dois por sorte.

Todos representados pela Bandeira Nacional que Senna empunhava.

Leonardo Guedes

Jornalista, vive no Rio de Janeiro. Teve passagens pelo site SRzd e pela rádio Bradesco Esportes FM. Atualmente, escreve o blog “Disse o Compositor”, sobre Música Popular Brasileira

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