“CORREÇÃO DE PERSPECTIVA – SOBRE A ESCOLA DE ARTES QUE ANTES ERA O PRESÍDIO DO CARANDIRU”

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(Texto de Ygo Ferro – com colaboração de Michel de Souza sobre o prédio da Escola Técnica de Artes de São Paulo / Fotografia de Maria Carolina Bei)

         Eu poderia ser todas essas pessoas!
          Talvez eu apenas fosse todas aquelas paredes…

          Meus pés podem sustentar aquelas escadas? Que pegadas existem escondidas em cada degrau dessas histórias tão diversas? O que foram? O que são?

          No voo livre de um pássaro o olhar atravessa a vidraça do lugar quadrado, mas logo em seguida o olhar retorna. A vidraça é a porta, a entrada de pontualidades, atrasos, professores, alunos curiosos ou despreocupados com o tempo (com o que foi passado).

          Meu coração sempre fica aflito quando lembro que aqui poderia ainda viver com as grades e não com as vidraças, que são móveis, frágeis, delicadas e agressivas quando quebradas. As vidraças e sua sutil transparência protegem, mas não prendem pensamentos de um passado remoto espalhados por aqui. E na sua calma, os pombos entram sem cerimônia no lugar protegido, como se fossem pessoas vindas do parque ao lado, curiosas com as mudanças promovidas pelo tempo distante e que prefiro não lembrar.

          Prefiro pensar sobre o que pensa a moça da faxina, o vigia na portaria e a professora contemplativa analisando seus alunos numa atividade de observação contida. Mas, minha atenção está nos olhos da aluna triste que aparece entrando pela porta de vidro. Ela está atrasada, ela ignora todos aqueles outros alunos que fotografam para a disciplina que exige uma certa “correção de perspectiva”. Imersa em seu universo, ela senta no pátio que agora é um grande palco. Dentro de si, o que será que ela pensa?

          Eu penso novamente sobre o que os outros pensam; no entanto, não ligo que falem mal do meu passado, penso agora no presente e no futuro. Penso que a aluna triste e atrasada, que mesmo triste, atrasada e ainda pensativa, agora pode ter um futuro.  

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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