“Cresci no bairro onde o garoto foi amarrado e açoitado por seguranças do mercado Ricoy”

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Por Malu Aires

O mercado Ricoy e o menor de idade torturado

Eu cresci na Vila Joaniza, bairro em São Paulo, onde o garoto foi amarrado e açoitado por seguranças do mercado Ricoy.

Um dos bairros mais pobres de São Paulo, onde uma avenida corta comunidades da divisa com Diadema, até a avenida Interlagos.

É um bairro de pessoas muito pobres, cercadas por pontos de droga. Alguns conjuntos habitacionais, construídos no final dos anos 70, são os espaços onde a maioria das mulheres dessas comunidades trabalham como diaristas. Sem férias, sem salário mínimo, sem aposentadoria.

Os homens trabalham com “lotação”. Vans que atravessam São Paulo e que sobem e descem o litoral paulista.

Na Vila Joaniza, tudo é uma gambiarra. A avenida é uma gambiarra, o transporte público é uma gambiarra, as escolas públicas são gambiarras, os postos de atendimento são gambiarras.

As pessoas tentam viver honestamente, criar seus filhos, nesse lugar esquecido pelo poder público, há meio século. Foram invadindo a avenida com salões, lojas, mercados que avançam a calçada. 

Na farmácia, você encontra filmes piratas, na padaria capinha pra celular, na pastelaria um mini sacolão… Tudo junto, misturado e desorganizado, por claro abandono.

Um mercado na Venezuela, mesmo boicotado por fornecedores, ainda é melhor que um da Joaniza. Você entra num mercadinho desses e não encontra as maiores marcas de produtos. São sabonetes baratos, biscoitos baratos, doces baratos… O açougue, podre.

Produtos de péssima qualidade, por preços absurdos. Hipermercado próximo, só a 15, 20 km. Na hora do almoço ou janta, é o que tem.

Na Joaniza, as pessoas são exploradas pelo dono do mercadinho, dono da padaria, dono da farmácia, dono do sacolão, dono da igreja, dono da boca.

As pessoas entram e saem desses mercadinhos, levando o lixão do atacado. Deixam lá o salário todinho de um mês de sacrifícios. Assim, o dono da rede Ricoy ficou rico (4ª maior rede de supermercados do estado de SP).

O mercado sujo, malcheiroso, de atendimento ruim, é fachada cínica que esconde um empresário que trata clientes da Joaniza, como “animais”.

Dois seguranças ficarem 40 minutos açoitando um garoto que tentou roubar um chocolate 100% parafina, é ordem que vem de patrão.

Os seguranças, informa a empresa, estão desempregados. 

A empresa só não informou que está demitindo funcionários em todo o Estado, pra mudar pro ramo do atacado.

Os brucutus descartáveis, foram jogados fora como os produtos baratos que vencem, diariamente, nesses mercados. 

Nem desconfiam, os baba-ovo de patrão, que o salário deles era garantido por mães de meninos negros, como daquele garoto.

Mães que entram e saem desses mercados, seguidas pelo olhar preconceituoso de brutamontes que poderiam ser filhos delas.

Para cada adolescente que rouba um chocolate num supermercado, são milhares desses supermercados roubando gente pobre. Tratando toda a gente pobre que enriquece o dono pão-duro, como se fosse ladra.

Pra freguesia cativa das periferias, espancamento e tortura é “promoção”.

Eu cresci na Vila Joaniza, bairro em São Paulo, onde o garoto foi amarrado e açoitado por seguranças do mercado Ricoy….

Posted by Malu Aires on Tuesday, September 3, 2019
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