A crítica deve começar o quanto antes

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Deyvis Drusian

O filósofo e escritor brasileiro, Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé / Foto – Reprodução

Nada como acordar numa segunda-feira de manhã e ler um bom pensamento filosófico. Pena que nesta semana não tive este prazer. Pelo contrário, fiquei chocado ao ler de manhãzinha a coluna de Luiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo, intitulada “Uma das causas da caretice 3.0 é a criação da noção de jovem crítico”. E vou explicar o porquê.

De início, pensei que fosse apenas um título mal escolhido, mas depois da leitura completa confirmei minha indignação inicial. O artigo se propõe a bater fortemente em jovens considerados por ele como “caretas 3.0”, por estarem pensando e manifestando suas ideias publicamente via redes sociais.

Num Estado ainda considerado democrático, entende-se que todos possuam o direito de manifestar suas ideias, e não apenas aqueles que possuem uma coluna semanal num grande jornal.

Pelo fato de se tratar de um filósofo, profissão que milenarmente demanda um pensar em profundidade e com uma grande noção crítica, creio que o dever do autor fosse incentivar o pensar crítico e não caçoar disso como se fosse uma bobagenzinha de molecotes (lembrando que Krisis em grego está relacionada à tomada de decisão com base numa avaliação. Ou seja, não existe uma grande ação, seja de um médico, político, juiz ou cidadão, que seja possível sem uma crise ou pensamento crítico).

Em seu artigo, o escritor afirma que “as redes sociais e seu debate histérico são muito mais tóxicos do que a televisão jamais foi”. Ao afirmar isso, ele ignorou a diferença fundamental entre os dois tipos de mídia. A TV é basicamente um veículo de comunicação unidirecional, que praticamente não possibilita a interação. Ou seja, ela é uma mídia mais estéril do ponto de vista democrático, por não abrir espaço para contestações e contribuições em termos de troca de conteúdo. Por outro lado, as redes sociais são nativamente uma mídia de rede, possibilitando às pessoas o debate aberto e democrático.

Outra questão é a criação do estereótipo dos “caretas 3.0”. Segundo o autor, esse grupo de pessoas usaria calça jeans e roupas descoladas, teria liberdade sexual, fumaria maconha e seria filho da contracultura, características tradicionalmente vistas como “não caretas”. A discordância nesse ponto é devido à visão extremamente rasa do autor sobre grupos sociais. Não é possível que um renomado filósofo incorra em tão frágil argumentação.

Por fim, vamos analisar a seguinte afirmação do autor: “ser crítico é, talvez, uma das coisas mais fáceis na vida”. A discordância aqui é absoluta, pois ser crítico demanda um exercício contínuo, que precisa ser estimulado desde a infância. A crítica é ma ação desenvolvida diariamente ao longo da vida. Por isso, a crítica deve começar o quanto antes.

Desdenhar a crítica num país como o nosso é desdenhar que, historicamente, muitos atores desta sociedade não tiveram a oportunidade de fazê-la publicamente (como os próprios jovens na ditadura militar – não podemos nos esquecer que retornamos à democracia há apenas três décadas). Talvez, senhor filósofo, estejam criticando hoje (por se sentirem mais à vontade) o que nunca puderam criticar?

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