Datafolha reconhece dados ‘enganosos’ em pesquisa e diz que Folha escolheu perguntas

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Jornalistas questionaram números favoráveis a Michel Temer e indicaram que a diretora do instituto reconheceu que é ‘enganoso’ declarar que 3% do eleitorado deseja novas eleições e ‘impreciso’ dizer que 50% do eleitorado deseja um Governo de Michel Temer sem adicionar a informação de que as opções de resposta estavam limitadas

Informação – Rafael Bruza * com informações do Intercept

Capa do jornal Folha de S. Paulo do domingo (17) com erros apontados pelo jornalista Glen Greenwald / Foto – Reprodução (Intercept)
Capa do jornal Folha de S. Paulo do domingo (17) com erros apontados pelo jornalista Glen Greenwald / Foto – Reprodução (Intercept)

Após questionamentos de jornalistas feitos à última pesquisa do instituto Datafolha, divulgada no domingo (17) pelo jornal Folha de S. Paulo, a diretora do instituto, Luciana Schong, reconheceu o “aspecto enganoso” na afirmação de que 3% dos brasileiros querem novas eleições no Brasil, confirmando que “essa pergunta não foi feita aos entrevistados”, segundo artigo no Intercept, do jornalista Glen Greenwald. A diretora também admitiu que as perguntas da entrevista foram escolhidas pelo jornal Folha de S. Paulo e disse que “qualquer  análise de dados que alegue que 50% dos brasileiros querem Temer como presidente seriam imprecisos” se não informarem que as opções de resposta eram apenas duas: um governo de Temer ou de Dilma.

A pesquisa do Datafolha, instituto que pertence ao Grupo Folha, que controla o jornal Folha de S. Paulo, o Portal UOL, entre outros, divulgada no domingo (17) dizia que 50% dos brasileiros acredita que é melhor manter Michel Temer no Governo, enquanto 32% deseja a volta de Dilma Rousseff e 3% querem novas eleições.

Jornalistas do o Intercept e do Brasil 247 questionaram esses números indicando inclusive que o eleitorado não apoiaria Temer dessa forma, pois 30% dos brasileiros nem o conhecem, segundo dado divulgado na mesma pesquisa do Datafolha.

Matéria do jornal Folha de S. Paulo que indica que 50% dos brasileiros prefere um Governo de Michel Temer, 32% de Dilma e 3% pretende eleições / Foto - Reprodução
Matéria do jornal Folha de S. Paulo que indica que 50% dos brasileiros prefere um Governo de Michel Temer, 32% de Dilma e 3% pretende eleições / Foto – Reprodução

O jornalista Glen Greenwald disse em artigo que “é simplesmente incorreto alegar (como fez o gráfico da Folha) que apenas 3% dos entrevistados acreditam que ‘novas eleições são o melhor para o país’, já que a pesquisa não colocou essa pergunta aos entrevistados. E ainda mais prejudicial: é completamente incorreto dizer que 50% dos brasileiros acreditam que a permanência de Temer seja melhor para o país’ até o fim do mandato de Dilma. Só é possível afirmar que 50% da população deseja a permanência de Temer se a outra opção for o retorno de Dilma”, afirma no Intercept.

Segundo as denúncias dos jornalistas, esses números divulgados pelo Datafolha “contradizem todos os dados conhecidos” até agora, pois em abril, o mesmo instituto havia divulgado pesquisa em que 79% defendiam novas eleições e 60% defendiam o Impeachment de Michel Temer. Eles também argumentam que nada importante ocorreu para que a opinião dos brasileiros mudasse de forma tão brusca.

Glen Greenwald também disse que os resultados da pesquisa do Datafolha “foram reproduzidos de forma incansável – como era de se esperar – em manchetes de outros veículos do país” e apontou que “não se pode subestimar o impacto da pesquisa”.

O contexto – Análise

Antes da divulgação os números, diversos jornalistas e formadores de opinião questionaram a ausência de pesquisas de opinião que verificassem a popularidade de Temer e Dilma após três meses do afastamento da presidente via Senado.

Foi então que o Datafolha divulgou pesquisa extremamente favorável a Temer, onde supostamente metade da população brasileira (cerca de 100 milhões de pessoas) desejam a manutenção do presidente interino no Governo.

Notícia do portal G1, do Grupo Globo, que mostra pesquisa de Ibope onde 62% dos entrevistados disse apoiar novas eleições / Foto - Reprodução
Notícia do portal G1, do Grupo Globo, que mostra pesquisa de Ibope onde 62% dos entrevistados disse apoiar novas eleições / Foto – Reprodução

Mas os números destoam completamente de pesquisas anteriores do Ibope, do Paraná Pesquisas e inclusive do próprio Datafolha que apontavam grande apoio popular a eleições diretas (62%, segundo o Ibope em abril) e ao Impeachment ou renúncia do presidente interino, Michel Temer (58% queria impedimento de Temer, segundo o Datafolha, também em abril), conforme apontou o jornalista norte-americano Glen Greenwald, jornalista que publicou as informações vazadas por Edward Snowden em 2013.

Como não aconteceu nada de grande valor a Temer que fizesse a população brasileira mudar sua opinião de forma brusca e radical, os jornalistas do Intercept e do Brasil 247 questionaram os números, apontando essas falhas de precisão jornalística na pesquisa e na divulgação dos dados.

O Intercept entrevistou a diretora do Datafolha, Luciana Schong, que confirmou que as perguntas foram elaboradas pelo jornal Folha de S. Paulo e admitiu dois erros: o “aspecto enganoso” que surge quando o jornal indica que 3% dos eleitores desejam novas eleições sem ter feito essa pergunta aos entrevistados e a “imprecisão” que acontece quando o jornal diz que metade da população brasileira defende um Governo de Michel Temer, sem informar que o entrevistado só podia escolher duas opções (a presidência de Temer ou de Dilma).

Esse “aspecto enganoso” e essa “imprecisão” geram profundas consequências na opinião pública e inclusive na intenção de voto dos senadores da República, que ainda não optaram pelo Impeachment definitivamente, pois supõe que a população brasileira mudou sua opinião do dia para a noite e agora apoia o Governo de Michel Temer.

Com isso, os senadores se veem tentados a votar a favor do Impeachment, na intenção de “fazer a vontade do povo brasileiro”.

Então tanto o instituto Datafolha quanto o jornal Folha de S. Paulo cometeram erros ou atitudes de má fé de extrema gravidade, que impactam não apenas na opinião pública, distorcendo-a, como também no natural funcionamento da Democracia, tendo em vista que o Grupo Folha manipulou a opinião pública para fazer todos os cidadãos brasileiros acreditarem que a maioria da população quer que Temer continue na presidência.

Todos os grandes jornais do país reproduziram a informação errônea divulgada pela Folha, mas como todos são defensores do Governo interino de Michel Temer, está claro que a maioria não fará retificação e irá simplesmente manter os dados errados do Datafolha para influir na opinião pública de forma favorável ao presidente interino.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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