Defensor de Bolsonaro, diretor da Funarte é acusado de censurar peça em SP

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Uma funcionária do órgão foi exonerada do cargo na semana passada, após se opor à posição de Roberto Alvim sobre a peça censurada.

Por Rafael Bruza

O diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte, Roberto Alvim

Nesta terça-feira (27), o grupo A Motosserra Perfumada acusou Roberto Alvim, diretor do Centro de Artes Cênicas da Fundação Nacional das Artes (Funarte), de censurar a peça “RES PUBLICA 2023”, por razões ideológicas.

“Roberto Alvim censurou sumariamente a realização da temporada de estreia da nossa peça RES PUBLICA 2023, em outubro, no Complexo Cultural da Funarte, em São Paulo, tomando por base – pasmem! – apenas a sinopse do texto”, alega o grupo.

A nota do grupo Motosserra Perfumada afirma que Roberto Alvim sequer “leu a peça”, que foi impedida de ser apresentada em uma das salas do Complexo Cultural Funarte SP, localizado no centro da cidade.

“Ele nunca viu o espetáculo, que ainda nem existe. Mesmo assim, sua assessoria afirmou, no e-mail que enviou à Coordenação local da Funarte, no dia 18 de agosto, que a peça RES PUBLICA 2023 não reúne ‘qualidade artística’ para ocupar uma das salas do Complexo”, relata o grupo, que tem seis anos de experiência em pesquisa cênica na Cidade de São Paulo.

A Funarte (“veja aqui” o Facebook do órgão) é uma fundação do governo brasileiro, ligada à Secretaria Especial da Cultura – extinto Ministério da Cultura -, que a sua vez pertence ao Ministério da Cidadania.

Roberto Alvim e o presidente, Jair Bolsonaro

Admirador de Olavo de Carvalho e defensor de Jair Bolsonaro, nas redes sociais, Roberto Alvim foi anunciado diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte, em junho, pelo ministro Osmar Terra.

Ele ganhou o cargo após declarar na imprensa que cometeu “suicídio profissional” por apoiar o presidente Bolsonaro nas eleições de 2018 – com quem conversou por telefone, antes da nomeação.

Em post no Facebook, Alvim nega que tenha promovido censura contra o grupo A Motosserra Perfumada.

“Reduções do conceito de ARTE a ativismos políticos, discursos diretos ou propagandas partidárias/ideológicas NÃO terão mais lugar em nossos equipamentos culturais. É uma questão de escolha conceitual”, diz o diretor. “Isso, amiguinhos, não é CENSURA. Nada impede de que se faça ativismo político no palco em outros espaços. Mas nos espaços da Funarte, só trabalharemos com obras de arte”.

Pouco depois, Alvim voltou ao Facebook para fazer novo comentário do caso.

“Dou aqui uma notícia para os que usam a arte como veículo de agendas ideológicas: sua hegemonia na cultura brasileira ACABOU”, disse o diretor.

Roberto Alvim aparece com este tipo de postura nas redes sociais desde antes de assumir o cargo. Em junho, ele fez uma publicação no Facebook em que convocava “artistas conservadores” para criar “uma máquina de guerra cultural”.

dou aqui uma notícia para os que usam a arte como veículo de agendas ideológicas:sua hegemonia na cultura brasileira ACABOU.

Posted by Roberto Alvim on Wednesday, August 28, 2019

Em outro texto publicado em sua página de Facebook, Alvim fez uma lista diferenciando o que considera “arte de direita” e “arte de esquerda”.

“Arte de esquerda é DOUTRINAÇÃO de todos os espectadores; arte de direita é EMANCIPAÇÃO POÉTICA de cada espectador”, afirmou o dramaturgo, em junho.

Em São Paulo, o Complexo Cultural Funarte – onde o grupo A Motosserra Perfumada foi impedido de se apresentar – é composto por um equipamento no centro com cinco salas de espetáculo, duas galerias e uma área de convivência, além do Teatro de Arena Eugênio Kusnet e do Teatro Brasileiro de Comédia.

Funcionária exonerada

A coordenadora do Complexo Cultural Funarte, Maria Ester Moreira, foi exonerada do cargo na semana passada, após se opor ao posicionamento de Roberto Alvim sobre a peça RES PUBLICA 2023.

“(A exoneração) está ligada ao fato de que me posicionei claramente ao Centro de Artes Cênicas da Funarte, não acatando um posicionamento de seu atual Diretor sobre um projeto de ocupação de uma das salas do Complexo Cultural Funarte SP”, diz Maria Ester.

Ela explica que a “qualidade artística” de uma obra não é um dos critérios estipulados pela Funarte para emprestar seus espaços a companhias teatrais.

“Era um espetáculo político, mas não panfletário”, disse a funcionária exonerada. “Falava sobre uma sociedade massacrada por um governo fascista, da qual sobraram uns poucos sobreviventes que vão trocando suas memórias e lembrando o inferno que viveram enquanto constroem uma barricada”.

Maria Ester trabalhava há dois anos e oito messes na entidade e era responsável pela gestão do Complexo Cultural Funarte em São Paulo.

Na segunda (24), ela foi informada por funcionários do Centro de Artes Cênicas, no Rio, que um espetáculo previsto para outubro não poderia estrear por falta de “qualidade artística”.

A ex-funcionária questionou a decisão e afirmou que não iria cumpri-la, alegando que responderia apenas ao presidente e ao diretor-executivo da Funarte. Neste contexto, acabou exonerada do cargo.

Maria Ester ainda argumenta que todos os processos para a encenação do espetáculo haviam sido aprovados pelas instâncias do Centro de Artes Cênicas.

O grupo Motosserra Perfumada corrobora as declarações de Maria Ester.

“É evidente que não há nenhum tipo de critério de ‘qualidade artística’ envolvido no veto a nossa temporada. Trata-se, claro, de um ‘filtro’ que o Centro de Artes Cênicas impôs, drasticamente, a Regional da Funarte em São Paulo. Fomos os primeiros a serem ‘filtrados’. Outros, talvez, estejam sendo, nesse exato momento, ‘filtrados’ num gabinete em Brasília, segundo a profilática visão de Roberto Alvim sobre o que é arte e o que não é arte”, conclui a nota do grupo.

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Posted by A Motosserra Perfumada on Tuesday, August 27, 2019

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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