Desconstruindo as “provas” de que vítima de estupro queria sexo coletivo

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Fotos e um áudio dizem provar que a adolescente mente em sua versão dos fatos, mas não passam de simples virais da Internet.

Ilustração
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Opinião/Análise – Rafael Bruza

Virais de redes sociais e sites de notícias dizem que a jovem de 16 anos mente em sua versão sobre o suposto estupro coletivo do Rio de Janeiro.

Baseiam-se em um áudio e fotos virais para afirmar que a jovem queria fazer sexo coletivo naquele lugar e que logo mudou de ideia, denunciando o ocorrido.

Além de imagens onde a jovem supostamente aparece em pose sensual e com um fuzil na mão, os defensores dessa versão compartilham uma publicação do Facebook onde um homem comenta o caso. Essa é uma transcrição do texto:

“Sobre o videozinho q ta rolando n foi estupro, papo de visão mermo só 5 amigo que ia cumer ela aí ela abriu a boca e gritou falou q podia vim a boca intera q ela tava dendro que ia dar pra todo mundo, geral cumeu, na parte do vídeo q ela tava dormindo ela pediu pra dormi geral paro nós paramos os amigo deu banho nela, levamo ela p ir embora demos donheito p ela ir embora, ela voltou pro morro falando q ia dar pra 50, qual foi pcr mídia mente muito, vagabundo fala mt sem saber oq aconteceu di verdade, nenhuma favela de comando aceita estrupo, pcr geral ta lgd q se estrupar na favela de comando vai morrer, tanto q os 36 q cumeu ela ta vivo, se brotar no Jorge turco ou no chapadão n tem jeito vai entrar na vara”

O problema é que a delegada viu as evidências e acredita na hipótese de estupro.  Declarou que o “crime está provado no vídeo”.

Não sei vocês, mas pessoalmente ponho mais fé na delegada que em materiais desses.

E a questão é: se as provas mostrarem que a adolescente estava desacordada ou não deu permissão para a prática sexual, configura-se o crime de estupro, independentemente do que ela tenha dito ou desejado antes do fato.

Então devemos discutir se aqueles homens fizeram algum ato sexual com a jovem sem o consentimento dela.

Pouco importa as condições anteriores a isso.

Muito menos os hábitos sexuais de uma cidadã brasileira que têm todos os direitos e liberdades garantidos pela Carga Magna de 1988.

Então, por mais que as teorias sejam convincentes (ou patéticas), é preciso manter o foco na investigação e em evidências concretas antes de tirar conclusões.

O vídeo é concreto. O laudo é concreto (apesar de não provar o estupro, pois os resultados se alteram quando as mostras são recolhidas dias depois do ocorrido, como aconteceu nesse caso).

E nesta segunda-feira (30), dois jovens suspeitos de participar do estupro coletivo foram presos pela Polícia Civil.

Lucas Perdomo Duarte Santos, de 20 anos, foi preso no centro do Rio. Sua defesa questiona a legalidade da prisão argumentando que ele não tem relação com o caso.

E Raí de Souza, de 22 anos, se entregou para, segundo seu advogado, “mostrar que não tem nada a dever”. Mas o suspeito admitiu que publicou as imagens na Internet, o que pode ser enquadrado como divulgação de material de pedofilia (lembrando que a jovem era menor e o Ministério Público Federal pediu cópia do inquérito nesta segunda para averiguar essa possibilidade).

Olhando todos esses fatos, a versão da jovem ainda carece de provas, em situação quer permite o surgimento de teorias de todo tipo. Mas não podemos tirar conclusões precipitadas que costumam condenar a vítima de estupro, por causa de nossa “cultura machista”, segundo psicóloga entrevistada pela BCC.

A apuração do caso estará baseada no que ocorreu naquele momento e nas versões dos envolvidos, pois isso, ao contrário de virais na Internet, é o que determina a existência ou não de crime sexual.

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