Dilma fez discurso histórico, mas a conspiração do Impeachment parece concluída

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A presidente atacou o Impeachment e se defendeu das acusações no Senado Federal, mas os senadores da República aparentemente já decidiram seus votos e provaram mais uma vez que todo esse processo não passa de uma grande conspiração.

Opinião – Rafael Bruza

dilmaA presença da presidente Dilma Vana Rousseff no Senado Federal com certeza intimidou os senadores da República, que na prática atuam como juízes no processo de Impeachment. Dilma nunca foi boa em oratória. Mas nesta segunda-feira (29) a presidente fez um discurso contundente, corajoso e teve êxito na desconstrução do Impeachment, tanto em relação a suas causas jurídicas quanto no contexto em que o processo se desenvolveu.

A presidente não poupou ninguém. Atacou a “elite econômica e política” que, segundo ela, tramou golpes de Estado durante a história do Brasil quando foi ferida “pelas urnas”.

Evidenciou que o entendimento do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre os decretos de crédito suplementar mudou depois da edição dos mesmos; afirmou que as causas do Impeachment são “apenas pretextos” para derrubá-la e eleger um governo através de “eleição indireta”; alegou que somente o povo pode afastar um presidente pelo “conjunto da obra”; indicou que o Impeachment foi aberto após chantagem feita por Eduardo Cunha (que queria votos de petistas a seu favor no Conselho de Ética, mas foi desatendido); argumentou que não feriu a lei ao assinar decretos de crédito suplementar; disse que não era pessoalmente responsável pela execução do Plano Safra (onde ocorreram as pedaladas fiscais); acusou os líderes do Impeachment de criarem situações “com apoio escancarado de setores da mídia, para construir o clima político necessário para a desconstituição do resultado eleitoral de 2014” e concluiu seu discurso defendendo novas eleições para tentar convencer alguns senadores indecisos a cumprirem a vontade da maioria da sociedade brasileira.

O problema, meus amigos, é que essas alegações não devem surtir efeito no voto da maioria dos senadores, pois eles decidiram condenar Dilma Rousseff há meses, alguns há anos, considerando que vários cidadãos exigem o impedimento desde novembro de 2014, um mês depois da reeleição da petista, quando ocorreu a primeira manifestação contra se mandato.

Só estavam esperando o cenário correto para tirar o PT do poder.

Dilma está sendo julgada por gente que a detesta. A imprensa que cobre esse julgamento (Grupo Globo, Grupo Estado e Grupo Abril, por exemplo) compõe esse grupo que tem repúdio pelo PT e por seu plano de governo. Alguns senadores e jornalistas estão indecisos e consideram argumentos de defesa em sua decisão, mas os líderes do Governo interino e os chefes de redação não ligam para nada disso. Nunca ligaram.

Eles simplesmente usam todo seu poder para fazer articulações no Congresso e na sociedade, adquirindo, assim uma maioria de congressistas votando a seu favor no processo de Impeachment.

Por isso trata-se de uma conspiração, não de uma ação propriamente legal.

Os líderes do Impeachment ganharam força em 2015 por representar os interesses da maioria da sociedade quando as pesquisas de opinião apontavam mais de 50% de entrevistados favoráveis ao Impeachment de Dilma.

Mas em 2016, ignoram os novos anseios dessa maioria que pede novas eleições.

Além disso, desconsideraram completamente os argumentos contra o impedimento tentando maquiar suas intenções com uma imagem de aparente legalidade que só completa o quadro de hipocrisia e de cinismo em que o processo foi conduzido.

Agora, mais de 3 meses depois do afastamento de Dilma e da posse de Michel Temer, todos os argumentos do Impeachment se mostraram falhos, sem que isso impactasse no voto dos senadores.

Essa certeza que desconsidera o contraditório comprova o caráter impositivo do processo.

A luta contra a corrupção provou ser apenas um artifício retórico para destituir Dilma.

O “caos na economia” pregado por tanta gente se mostrou uma construção política feita por setores da imprensa e do empresariado, que acabou subitamente quando esses setores ficaram contentes com a troca de Governo.

E os argumentos jurídicos do Impeachment (decretos de crédito suplementar e pedaladas fiscais) são tão frágeis, que os líderes desse movimento tiveram que recorrer à argumentos morais que eles não seguem e à exaltações de uma crise econômica que eles ajudaram a criar ao minar a confiança na economia brasileira.

Para completar, Michel Temer também assinou os decretos de crédito suplementar que supostamente configuram o pedido de Impeachment de Dilma. Mas o pedido de impedimento do presidente interino está parado na Câmara dos Deputados desde abril.

Como defender o Impeachment diante desse cenário?

Ocorreu uma grande articulação de setores liberais e conservadores para criar o clima político necessário para o Impeachment. Dilma falou isso no discurso.

E logo esses setores de direita assumiram o Governo por simplesmente terem maioria no Congresso. Agora são os juízes de Dilma no Senado.

Como essas pessoas têm a audácia de dizer que esse processo de Impeachment é legal e legítimo diante desse quadro?

Como não reconhecer que os membros do Governo interino atuam apenas para tomar o Governo do Brasil para si?

E como alguns cidadãos podem acreditar nas versões hostis a Dilma vendo todo esse padrão de atuação que despreza a versão de defesa da presidente e passa por cima do voto sincero de 54 milhões de brasileiros?

Dilma não é santa. Teve erros, sim, e muitos, principalmente nas áreas políticas e econômicas, que a trouxeram a essa situação.

Mas tudo isso que os líderes do Impeachment fizeram e estão fazendo beira o ridículo.

Deveria ser desmascarado como uma simples conspiração e como uma farsa porque é exatamente isso que se trata.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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