‘A direita está estruturada em torno de páginas dos Bolsonaros e do MBL’

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Estas páginas no Facebook são “porta de entrada” para o debate nesse campo político, segundo análise do Monitor do debate político no meio digital, feito no campus leste da USP.

Por Rafael Bruza

O youtuber Arthur do Val, ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSC-RJ) / Foto – Reprodução

Um levantamento do projeto Monitor do Debate Político no Meio Digital, publicado nesta segunda-feira (12) afirma que a direita brasileira no Facebook está estruturada” em torno das páginas de membros da família Bolsonaro e do Movimento Brasil Livre (MBL)”. A análise foi feita pelo Grupo de Políticas Públicas em Acesso à Informação (GPoPAI), coordenado pelos professores Pablo Ortellado e Márcio Moretto Ribeiro, no campus leste da Universidade de São Paulo (USP),

“Essas páginas formam um agrupamento central (a parte azul na foto abaixo) que, além de servir como uma espécie de porta de entrada para o debate político desse campo, liga os outros três grandes agrupamentos”, diz a análise. “Essas comunidades de leitores refletem cada qual uma matriz discursiva: o militarismo (laranja), em torno das páginas do Coronel Telhada, Major Olímpio e do Sargento Alexandre, que engloba os defensores do porte de armas e uma série de páginas masculinistas; o patriotismo (verde) que inclui em alguma medida a anti-corrupção; e o liberalismo/conservadorismo (roxo), surpreendentemente indissociáveis enquanto comunidade de leitores, que inclui tanto os Institutos Mises e Liberal, o PSL e o NOVO quanto páginas como Jovens de Direita, Tradutores de Direita e Sempre Família”.

O grafo da análise / Foto – Divulgação/Facebook)

O Monitor do Debate Político no Meio Digital busca mapear, mensurar e analisar o ecossistema de debate político na Internet. Os responsáveis pela iniciativa estão recolhendo dados para fazer uma análise sobre os meios digitais de esquerda, que deve ser publicada nos próximos dias.

Marcio Moretto, que é coordenador do projeto, acredita que páginas dos Bolsonaros e do MBL cresceram nos últimos anos por serem centros de grupos de direita.

“Uma hipótese é que essas páginas cresceram mais nesses anos exatamente porque elas estão no centro. Em outras palavras, porque elas dialogam com as outras três tribos. Resta entender que discurso elas usam que as colocam em uma posição central. Para isso precisamos olhar para o conteúdo das postagens. Pretendemos fazer isso nos próximos meses. Por ora, meu palpite é que essas páginas aprenderam a dialogar com a juventude”, diz o coordenador.

Em um comentário feito na publicação, ele também comenta brevemente a formação da situação atual.

“Os resultados anteriores de análise de redes indicam que o bloco antipetista se formou no começo de 2014, quando os grupos anti-corrupção, que estavam entre a direita e a esquerda na sociedade civil, se deslocaram para a direita. As pesquisas com aplicação de questionário, por sua vez, indicam que os manifestantes dos atos pró Lava-Jato não se alinham totalmente com pautas da direita sugerindo uma espécie de populismo antipetista. Antes da formação desse campo, porém, já havia uma clara distinção entre progressistas (movimentos negro, LGBT, feminista e pró liberação das drogas) e conservadores (especialmente os militaristas). Esse é o fenômeno que estamos investigando com este levantamento”.

Segundo Moretto, o leitor também tem influencia nas publicações.

“A relação entre o administrador da página e o leitor não é simétrica, mas também não é de mão única. O leitor é influenciado pelas postagens, mas influencia curtindo e compartilhando aquilo que acha mais importante”, afirma. “O que estamos tentando estudar é um fenômeno que autores dos Estados Unidos chamam de ‘guerras culturais’. Durante os anos 90, nos EUA, temas morais como direito ao aborto e casamento igualitário passaram da periferia para o centro do debate público. Um dos efeitos dessa mudança é que esses temas são intrinsecamente polarizantes. Nossa hipótese é que um fenômeno tem ocorrido no Brasil desde de meados dos anos 2000″.

Análise de 2014

Moretto compara os dados desse ano com o levantamento de 2014, onde um grupo liberal e um conservador também aparecem em destaque.

“A estrutura é praticamente a mesma (à de 2017): 4 clusters (do inglês: ‘grupo, aglomerado’), Bolsonaro no centro, ao lado do Liberalismo da Zoeira (MBL não existia), um clusters militaristas, um patriota e um liberal/conservador. A grande diferença é que o cluster militarista era bem maior do que esse cluster central.

O grafo do levantamento de 2014 / Foto – Divulgação/Facebook)

Metodologia usada em 2017

O estudo selecionou as “cem maiores páginas de direita”, dentre 15 mil listadas em 2016, excluindo páginas “anticorrupção” e “anti-PT”, que são objeto de outros estudos do projeto.

“No grafo, o tamanho dos nós é proporcional ao número de curtidas no período e os pesos das arestas são proporcionais à intersecção das curtidas entre as páginas”, diz a análise. “Utilizamos um algoritmo que aproxima páginas com mais e maiores arestas e outro (Louvain) que clusteriza as páginas em comunidades de leitores — este último define a divisão por cores no grafo”.

Os responsáveis entendem que estas páginas anticorrupção e anti-PT respondem a “outro fenômeno, estudado em “outros levantamentos”.

“Extraímos as curtidas de uma amostra das postagens dessas páginas do mês de janeiro deste ano. Nossa amostra englobou um milhão de usuários sendo 576 mil do cluster central, 384 mil do cluster militarista, 110 mil do cluster patriota e 78 mil do cluster liberal/conservador (com alguma intersecção entre eles)”, diz a publicação.

Análise Estrutural das Páginas de Direita no FacebookO digrama representa a estrutura das comunidades de leitores de…

Posted by Monitor do debate político no meio digital on Tuesday, September 12, 2017

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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