Do Brasil, S.O.S., é o Brasil

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Por Leonardo Guedes

Ouça 15 músicas de sucesso de Aldir Blanc | A Gazeta
O compositor Aldir Blanc

Aldir Blanc proporcionou uma das melhores reportagens que o autor deste artigo realizou em seus tempos de repórter. Foi em 2013, em uma livraria da Zona Sul do Rio de Janeiro. Era o evento de noite de autógrafos e lançamento de seu perfil biográfico, escrita pelo jornalista Luiz Fernando Vianna, em uma livraria da Zona Sul do Rio de Janeiro. Existia uma imensa expectativa pela presença do homenageado, uma vez que por questões de saúde, evitava saídas muito cansativas de sua residência, na Zona Norte da capital fluminense, além de uma certa timidez em sua personalidade. Foi por volta das 20h30 que o compositor entrou no estabelecimento, gerando uma verdadeira emoção entre os presentes, incluindo este repórter.

Visivelmente, Aldir também aparentava a aura da emoção. Na troca de palavras na curta entrevista para a reportagem, o compositor disse-me algo que, puxando para o momento atual de risco profundo para a espécie humana, pode ter soado profético: “Cuidem, mas cuidem de suas vidas”.

Antes da chegada e da charla jornalística com Blanc, este repórter ouviu outros amigos dele. Dois deles, com curtas declarações, proveram bem para a formação estilística para a publicação posterior da reportagem no site. O eterno amigo e parceiro João Bosco (imagine a dor indescritível dele nesta situação de passamento – antes, já partira Tunai, seu irmão de sangue) ficou pouco tempo e mandou esta: “Ele é o melhor contador de histórias que eu conheço”. E Sergio Cabral, o pai, muito antes da amargura de ver seu filho homônimo parar atrás das grades por corrupção, mandou a letra resumida de quem era Aldir Mendes Blanc: “Aldir é O carioca”, dando a entonação forte para o artigo masculino antes do gentílico para os nascidos na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro que tornava-o maiúsculo.

A geração surgida na música brasileira nas décadas de 1960 e 1970 ofertou ao país letristas/poetas que com sensível requinte – sem o elitismo esnobe que a palavra “requinte” suscita – traduziram o sentimento popular: sempre lembrados são Chico Buarque de Hollanda, Paulo Cesar Pinheiro, Vitor Martins, Cacaso e Aldir Blanc.

Cada composição que tem a letra de Aldir encaixada em sua melodia vai além da denominação de “música”: eram crônicas cantadas com a tradução com modos de ourives do palavreado (conforme bem definiu Dorival Caymmi sobre ele) do espírito brasileiro/carioca. Uma quase cabalística fusão na forma poética.

E assim, vão surgindo as figuras, algumas quase invisíveis dentro de uma sociedade fechada, egoísta e excludente, que Aldir puxa para a luz da visibilidade. Um líder negro renegado de uma revolta justa em busca de dignidade e respeito dentro de uma força armada (“Mestre-sala dos mares”), o boêmio que procura não se abater apesar de ter brigado com a namorada (“Vida noturna”), a atriz decadente que ainda tem um brilho fugaz na lembrança do amante (“Miss Suéter”), o Carnaval delirante dos desamparados e dos modestos (“Rancho da goiabada”), a mistura de Tropicalismo com cientificismo (“Nação”), a amargura da violência na Baixada Fluminense (“Êxtase”)… A lista é pra lá de centenária em prosas musicais.

“Eu aprendi que a alegria / De quem está apaixonado / É como a falsa euforia / De um gol anulado”. Aqui, uma estrofe da precisão de ourivesaria da palavra. A estrofe, presente em “Gol anulado”, é uma analogia perfeita da desilusão amorosa com o estraga-prazer sentido diante do grande momento do futebol (Aldir era vascaíno ferrenho, tal qual o autor deste texto) que não foi exatamente o grande momento. Isso dentro de uma música que, embora assuste em uma primeira audição, revela-se uma denúncia do absurdo da violência doméstica.

Particularmente, além do breve contato pessoal no lançamento de seu perfil biográfico, Aldir Blanc foi referência em outras situações: na tentativa frustrada de tê-lo como um colunista no site de notícias onde eu trabalhava; era em seu estilo carioquês no qual me espelhava na época em que tentei ensaiar uma carreira de letrista de MPB paralela com a de jornalista que as paredes labirintíticas do destino não permitiram continuar (um dia, quem sabe…). Situações alegres em que sua poesia musicada esteve presente: o pessoal da redação discutindo afinal o que significa a letra da enigmática “Bijuterias”, utilizada na época como música de abertura na segunda versão da novela “O astro”, da TV Globo (“Mas sou sincero / Necessito ir urgente ao dentista / Tenho alma de artista”); escutar Elis Regina cantando “Dois para lá, dois para cá” e dançar de zoeira com a mãe na sala de casa, fazendo literalmente o “minha cabeça rodando, rodava mais que os casais” deixando a coitadinha ligeiramente zonza. Em um estabelecimento do comércio onde trabalhei (fora do ramo jornalístico), uma citação de verso de Aldir Blanc que gerou uma gargalhada: indaguei do meu colega de balcão por que não me deixou ter o privilégio do agrado visual de atender uma mulher bonita que havia acabado de passar pelo seu caixa. “Ah, Guedes, comigo não faz diferença, sabe como é né, eu… Você já percebeu, né?”, respondeu o colega, expressando de modo desajeitado que sexualmente seu agrado não era o gênero feminino. “Tá bom, Fulano, aqui é tipo restaurante natural: cada um come o que gosta”. Caímos na risada. A citação feita por mim é da música “A nível de…”, uma das últimas parcerias de Blanc e João Bosco que retratava um par de casais em uma tentativa atrapalhada de troca de parceiros (chamada popularmente de “suingue”). Episódios da identificação do estilo do compositor no cotidiano do brasileiro/carioca comum.

A recordação imediata de todo brasileiro que lembrar de Aldir será o bandoneon que abre e encerra a versão de Elis Regina para “O bêbado e a equilibrista”, afinal, é a mais popular de toda a sua lavra, mas no momento em que ele parte deste mundo físico, vitimado por uma doença encarada de forma negligente pelo primeiro que deveria zelar pelo bem de seu povo, a trilha sonora é outra.

“Do Brasil, S.O.S., é o Brasil… Do Brasil, S.O.S., é o Brasil…”, diz o começo de “Querelas do Brasil”, uma composição de Aldir com Maurício Tapajós (1943-1995) gravada por Elis – e também pelo Quarteto em Cy – que expressa um pedido de socorro pela devastação da nossa identidade cultural brasileira. “O Brazil tá matando o Brasil”, prossegue. “Tinhorão, urutu, sucuri”, segue adiante a letra. Tal qual assistimos agora. Um Brasil de Carluxo Bolsonaro, Olavo de Carvalho e Gusttavo Lima que vai envenenando pouco a pouco o Brasil de João Cândido, Darcy Ribeiro e Aldir Blanc.

Do Brasil, S.O.S., é o Brasil…

Leonardo Guedes é jornalista com passagens pelo SRZD e pela Rádio Bradesco Esportes FM.

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