Do espetáculo cívico dos estudantes à mediocridade política de Jair Bolsonaro.

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As ruas do Brasil foram tomadas por milhares de estudantes em várias cidades nesta quarta (15 de maio). Foi apenas o primeiro ato dos estudantes contra os cortes de mais de 30% na educação superior. Fica a expectativa de que as próximas manifestações serão maiores, ainda mais depois da intervenção desorientada do presidente da República. Perguntado sobre os protestos, Jair Bolsonaro disse que os estudantes são “massa de manobra de minorias”, “idiotas úteis” e não sabem “quanto é 7×8 nem a fórmula da água”. Como se nota, Jair Bolsonaro segue a se comportar como o parlamentar rastaqüera do baixo clero que vivia em busca de polêmicas com grupos de esquerda em redes sociais. Acontece que os tempos são outros, Jair Bolsonaro tem de ter habilidade política para não se isolar e ficar pelo caminho. E não está tendo. Poucas vezes se viu um comandante tão desastrado. Jair Bolsonaro pensa que o Brasil se restringe aos fanáticos de extrema-direita que o trata como mito e Olavo como Deus. Nem Bolsonaro é mito. Nem Olavo é Deus, menos ainda, filósofo. Um presidente tem de dialogar com o conjunto da sociedade e mediar conflitos, não gerar mais confusão. Ao tripudiar as manifestações, o presidente joga mais lenha na fogueira que, na primeira demonstração, já mostrou que pode virar incêndio. Notem que os movimentos receberam adesão de anônimos, estudantes de DCEs liberais e de congressistas de centro-direita, além de aglutinar as esquerdas. Isso porque a maior parte das esquerdas ainda dorme em berço esplêndido. Mas, com a injeção de ânimo desta quarta, segmentos da esquerda e do progressismo em geral certamente vão se somar aos estudantes nas próximas manifestações. É isso que dá governar sem recuos e mediações. Na ânsia de se vingar das esquerdas, combater o tal do “comunismo” e reescrever a história, esse governo criou uma série de zonas de atrito e jogou contra si grupos organizados, criando as condições de as esquerdas se reagruparem e vencerem a batalha de narrativas. Uma greve geral se anuncia. A atenção de milhões de desempregados será despertada para o futuro sem aposentadoria e o para presente sem perspectivas. O 15 de maio pode ser o estopim de algo muito maior contra um governo que não se entende com o Congresso e não é bem quisto pelo empresariado. É preciso desenhar como isso pode acabar? E o que faz Bolsonaro? Joga mais lenha na fogueira. É um “jênio”. Na arte da política, para além do subterrâneo do pântano do baixo clero, Jair Bolsonaro é quem não sabe multiplicar 7×8. O valente está a cavar a própria cova.

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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