É justo hostilizar quem hostiliza?

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Respeito quem acha que sim, mas eu digo que não: se realmente somos democráticos e moralmente superiores, cabe fazer desconstrução de ideias através do esclarecimento e do respeito. Mesmo que nosso interlocutor seja insensível e grosseiro, não podemos descer a seu nível.

Opinião – Rafael Bruza

O deputado federal, Jair Bolsonaro (PSC-RJ), e seu filho Flávio Bolsonaro, que foi candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro / Foto - Reprodução (Twitter)
O deputado federal, Jair Bolsonaro (PSC-RJ), e seu filho Flávio Bolsonaro, que foi candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro / Foto – Reprodução (Twitter)

O deputado federal, Jair Bolsonaro foi hostilizado por alguns eleitores enquanto votava em uma escola em Vila Isabel, na zona norte do Rio de Janeiro neste domingo (02). Do lado de fora da escola, cidadãos chamaram o deputado de “fascista”, “escória” e gritaram “fora Bolsonaro”. O candidato respondeu: “Isso é maconha estragada e mortadela rançosa”. Mas calma que tem mais.

Neste domingo (02), dia das eleições municipais, uma equipe da GloboNews foi hostilizada durante uma entrada ao vivo na sede do PT em São Paulo, onde cobririam a entrevista de Fernando Haddad, derrotado por Doria no 1º turno. Os manifestantes chamaram os globais de “golpistas” e gritaram “fora daqui”.

Como represália, o Grupo Globo optou por não transmitir a entrevista coletiva.

O grito dos militantes do PT não era à toa: o Grupo Globo realizou uma série de coberturas jornalisticamente desonestas contra o PT, fortalecendo a ideia política de que o Impeachment de Dilma Rousseff era absolutamente indispensável ao país e exercendo influência, então, na opinião da sociedade, de forma impositiva e pouco respeitosa.

Não sou eu, Rafael, que digo isso: é um relatório da ONG Repórteres sem Fronteiras que, aliás, foi ironicamente manipulado por veículos do Grupo Globo, como a rádio CBN (conheça “aqui” o relatório e “aqui” o episódio de manipulação midiática).

Existem, portanto, situações de conflito político entre militantes do PT e de esquerda contra Bolsonaro e Grupo Globo, assim como existe rivalidade entre cidadãos do PSDB e de direita em relação à petista.

Mas será que é justo hostilizar um cidadão brasileiro por sua posição política daquela e por suas ações do passado?

Considerando que os cidadãos que hostilizaram Bolsonaro acreditam ter motivos de sobra para chamar o deputado de “fascista”, nesse ponto de vista deles é justo, sim, fazer escrachos como os narrados acima, inclusive porque, segundo os hostilizadores, as políticas que Bolsonaro defende atingem os direitos dos homossexuais e de cidadãos que cometem crimes.

A agressão de Bolsonaro aos direitos das minorias justifica a hostilização na visão de críticos.

Trata-se de uma argumentação convincente, meus amigos, que serve também para os jornalistas da GloboNews.

Mas discordo completamente desse posicionamento.

Na minha visão, hostilizar um cidadão por questões políticas é uma atitude tão antidemocrática e tão desrespeitosa quanto alguns comportamentos de Bolsonaro e do Grupo Globo.

Ora, os mesmos direitos e liberdades que protegem as minorias sociais defendidas por nós também valem para nossos rivais políticos!!

E se menosprezamos esses direitos e liberdades por achar que nossos rivais “merecem” escrachos,nós mesmos atentamos contra nossos valores, meus amigos.

Isso sem falar na hipocrisia: é preciso respeitar a todos antes de exigir respeito.

Até porque uma atitude hostil contra rivais só fortalece o contra-ataque, a vingança e a justificativa para condutas imorais, formando um cenário em que o “olho por olho, dente por dente” cria uma sociedade cega e banguela que se preocupa mais em atacar o rival do que em melhorar a si mesma.

Além disso: qual é a conquista política ou eleitoral de quem hostiliza seus rivais políticos? Uma matéria em algum portal que repercutirá durante algumas horas na imprensa, um vídeo que garantirá alguns milhares de visualizações e um consolo moral entre tantas agressões sofridas?

São conquistas minúsculas perto do que é necessário fazer para desconstruir conscientemente as ideias de agentes políticos conservadores e para ter resultados favoráveis em eleições.

A maioria dos eleitores de Bolsonaro que defendem suas hostilidades são radicais. Caso a esquerda opte por hostilizações contra seus rivais políticas, há tendência a radicalização desse espectro político, o que é péssimo para eleições majoritárias.

Por isso mesmo, Haddad pediu desculpas à repórter da GloboNews, Andreia Saidi, após o escracho e continuará agindo de forma equilibrada.

Hostilizar rivais é contra-produtivo para qualquer agente político bem intencionado que queira difundir ideias e ter algo de influência política em eleições desse país.

O próprio Bolsonaro nunca ganhará uma eleição para poder executivo por causa de seus posicionamentos radicais…

Portanto, se não controlarmos nossos impulsos seremos colocados sob o mesmo rótulo de intolerantes com que acusamos os demais.

Então não tem jeito: se realmente queremos um país próspero, pacífico e respeitoso, convém agir a partir desses valores.

Ou então podemos nos xingar e bater por questões políticas rezando para que alguém bem intencionado escute o que temos a dizer.

A escolha é de cada um de vocês.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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