É preciso entrar nas igrejas

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Por Bruno Reikdal Lima

Um texto lido por si só tem seu alcance. Encontra possibilidades de interpretação a partir das conexões criadas pelo leitor a partir de sua história de vida, experiências subjetivas, relações comunitárias, sociais, de classe, bagagem cultural, etc. Mas outra coisa é interpretar esse mesmo texto sabendo, também, o contexto em que foi escrito, por quem, qual a realidade geográfica, a organização social, econômica, política e os traços culturais que enredam aquela produção humana. Essa segunda opção permite comparações, aproximações e distanciamentos entre as realidades da autoria e do leitor. Possibilita além das interpretações a criação de “modelos” ou “esquemas mentais”, conectando diferentes comunidades humanas em seu tempo e território por meio da leitura. O enriquecimento do texto e do resultado da interpretação é gigantesco.

A Bíblia é um texto milenar, de sabedoria semita, popular, propagado em diversas conjunturas históricas e perpassado por centenas de tradições e culturas. Saber da história de sua escrita e autoria como a historiografia crítica tem possibilitado desde a década de 1930, abre novas portas e permite que entendamos com qualidade distinta o porquê que determinados textos foram escritos, amplificando nossas interpretações comuns. Na América Latina, entre as décadas de 1960 e 1980 resultados desses estudos foram disseminados nos interiores do continente e em periferias urbanas por meio da militância de lideranças católicas envolvidas nas Comunidades Eclesiais de Base (CEB) e nos Círculos Bíblicos, promovidos pela Teologia da Libertação. A figura que resume essa experiência é Carlos Mesters, frei carmelita de origem holandesa.

Com a criação de métodos pedagógicos de ensino-aprendizagem propriamente latino-americanos, assumindo a produção do também católico do movimento de libertação Paulo Freire, a rede das CEB’s teve um grande alcance e fazia circular grande quantidade de material histórico-crítico e de leitura popular da Bíblia. De fácil acesso e em linguagem comum, textos como “ABC da Bíblia” orientavam a formação das comunidades, que aprendiam como, quem e quando foram escritos cada um dos textos – isso quando não desenvolviam hipóteses de pesquisa ou mesmo métodos para relacionar a realidade do povo de dois ou quatro mil anos atrás com o interior nordestino ou territórios guatemaltecas.

Apesar de protestante, essa experiência histórica pessoalmente me incentiva e inspira muito, dado que o lugar antes ocupado por redes de católicos em pequenas paróquias foi transformado, e a religião das periferias urbanas e interiores também.

Assim, como trazer para pentecostais e neopentecostais recursos teóricos e informações que ampliem suas possibilidades de interpretação e que, ao mesmo tempo, fortaleçam as comunidades de fiéis e não lideranças personalistas ou pequenas aristocracias pastorais?

As leituras e interpretações feitas nesses ambientes têm atendido demandas imediatas ou mesmo auxiliado grupos e mais grupos sociais. Contudo, reduzidas às repetições doutrinárias de cartilhas ou reféns do carisma e fé na iluminação do pastor, que dita como se deve ler ou interpretar determinado texto – sem contexto, sem história, sem autoria.

Se por um lado isso nos apresenta uma grande limitação, por outro apresenta uma oportunidade única: os textos já estão nas mãos das pessoas. Eles estão carregados com determinados sentidos e significados, fragmentários e dependentes de um ou outro leitor em suas conexões. Mas podem ser enriquecidos com conteúdos auxiliares que nos mostrem o texto que está “por trás do texto”.

Carlos Mesters utiliza uma ideia fiel muito curiosa quando afirma que Deus escreveu dois livros: a Vida e a Bíblia, e a Vida ele escreveu primeiro. E você só entende bem o segundo, se tiver passado pelo primeiro. A Bíblia é um texto popular, fruto da história de um povo, em um período, passando por transformações, conflitos, disputas, em determinadas regiões, e que lança mão dos conteúdos culturais disponíveis para expressar suas experiências de fé e de vida, de relações sociais, histórias, conflitos, crescimento, enfraquecimento, etc.

É possível produzir algo muito bom sem saber disso; mas é possível criar modelos ou esquemas mentais enriquecidos que nos dão maior autonomia para interpretar não apenas o texto, mas nossa a totalidade de nossa realidade atual. Criar uma ponte entre uma vivência humana do passado com a vivência humana de hoje – não sendo uma transposição arbitrária, isolada ou dependente da iluminação de uma liderança carismática, mas consciente e prática da comunidade de fiéis.

Saber, por exemplo, que os textos do Pentateuco são registrados, confeccionados comunitariamente e compilados entre a invasão dos Assírios no século VII a.C. e pós-Exílio babilônico do século V, sendo finalizado mais ou menos quatrocentos anos antes de Cristo, permite que lembremos que o povo passava por períodos de guerras, terror, medo da dissolução social, a decadência de um reinado que havia se consolidado trezentos anos antes. A seleção das leis fundamentais a serem registradas, os alertas proféticos sobre os resultados da desobediência do povo aos mandamentos, a estruturação das narrativas ganha novas possibilidades. Como mostra o historiador crítico Sean Freyne, por exemplo, ao invés de imaginarmos que as narrativas de Criação do Gênesis se reduzem a legitimar a exploração e transformação do ambiente por meio do trabalho humano, justificando seu domínio como destino dado por Deus, não a desmembramos do final do Pentateuco, com Deuteronômios advertindo que:

“A riqueza da terra pode ser uma tentação, levando Israel a esquecer que foi Javé quem a doou. Este esquecimento trará consigo maldição, não apenas para os israelitas, mas para a própria terra. A terra será devastada e deixará de produzir frutos, não importa o quanto nela se trabalhe; os israelitas não tomarão vinho nem se ungirão com óleo, produtos que muito provavelmente eram originários da Galileia. Mais à frente, outro conjunto de fortíssimas imagens é empregado para sublinhar a devastação permanente da terra: muitas gerações sofrerão com as condições ecológicas produzidas pelo pecado de Israel: ‘enxofre e sal, toda sua terra está queimada; ela não será mais semeada, não fará germinar e nenhuma erva bela crescerá! Foi como a destruição de Sodoma e Gomorra, Adama e Seboim, que Javé destruiu em sua ira e furor’ (Dt 29, 21-22)”

Com apresentações arqueológicas e discussões histórico-literárias ricas, em diálogo com a tradição, com outros pesquisadores, etc., Freyne abre um diálogo sobre território, ambiente, uso da terra e mudanças de regimes de chuva, e a importância de tudo isso para um povo agropastoril, que sofre agora com invasões, saques e com o Exílio. Isso coloca em relevo a importância que os rios tem nessas narrativas, das riquezas naturais e recursos destacados por Javé como as grandes bênçãos dadas ao povo, e como isso também está presente na tradição dos Profetas (que são escritos durante esse período e pouco depois). Essas noções ampliam as interpretações e nos permitem aproximar realidades de escassez e exploração em determinado tempo e a sabedoria do povo que passou por essa experiência, com o que vivemos hoje.

Os textos sobre as migrações do povo no deserto e os períodos de escassez dos profetas, por exemplo, foram muito utilizados pelas CEB’s dos anos de 1970 no Brasil, dada a identificação do povo com as narrativas de imigração e de períodos de grande seca. Foram amplificadas quando compreendidas junto ao às informações sobre a história de produção dos textos, conhecimentos das realidades culturais, políticas e econômicas de seu tempo, que permitiam visualizar, também, as estruturas de seu tempo: aproximando as semelhanças e destacando as diferenças (sem abandoná-las, mas cientes delas).

Hoje as CEB’s não possuem o impacto que tiveram. Foram perseguidas, perderam apoio institucional, assim como a realidade social se transformou, as pessoas mudaram e as comunidades se deslocaram para novos territórios, enfraquecendo as redes existentes anteriormente e criando novos bolsões em periferias que se constituíam rapidamente sem laço social, cultural ou comunitário comum, e nos quais a religiosidade da qual pertenço, de evangélicos pentecostais, encontrou terreno fértil, teve atuações com efeitos positivos e efeitos negativos. Desses últimos, destaco, novamente, a formação de comunidades que não tem autonomia e são reféns de lideranças carismáticas ou aristocracias pastorais, que monopolizam e determinam a leitura a partir de seu poder político e religioso, assim como pela reprodução de doutrinas que os colocaram onde estão.

A crítica é necessária. Não apenas para o bem social de ganhos na interpretação da realidade, como na promoção da autonomia popular. Para isso é preciso que os movimentos (religiosos ou não) que se preocupam com políticas de fortalecimento social, auto-determinação, empoderamento, etc., fortaleçam ou permitam espaços para que esse tipo de conteúdo e prática comunitária seja criado – obviamente não igual às CEB’s, mas com as semelhanças suficientes para alcançar 40% da população brasileira de hoje, não para um novo tipo de “controle social”, mas abrindo margem para alternativas, possibilidades criativas, maiores recursos e ferramentas distribuídas para o povo para que decida como proceder.

Como desde que o mundo é mundo, a disputa, o controle e a libertação ideológica passam pelo campo religioso. Como disse certa vez um judeu alemão assistente em uma cátedra de teologia, “a crítica da religião é o pressuposto de toda crítica”.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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