‘Ele tentou achar uma metralhadora’, diz adolescente apreendido sobre atirador

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Políticos da oposição e do Governo levantaram o debate sobre armamento e desarmamento após o massacre de Suzano. Pesquisador apresenta padrão de comportamento de atiradores.

Por Rafael Bruza

O adolescente de 17 anos apontado pela Polícia como suspeito no massacre da Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (SP), declarou ao Independente na última quinta-feira (14) que o atirador Guilherme Taucci tinha vontade de comprar uma “metralhadora” para atacar o colégio.

“Ele trabalhou num carrinho de hot-dog durante oito meses, ganhando R$ 1, 2 mil por mês”, disse o adolescente. “Ele tentou achar uma metralhadora, mas não conseguiu. Porque dinheiro ele tinha”.

O menor de idade também declarou que Taucci compraria outras armas, se tivesse acesso.

Na manhã desta terça-feira (19), policiais apreenderam o adolescente, por suspeita de que ele tenha ajudado a planejar o massacre.

Segundo o Tribunal de Justiça (TJ), na audiência foi mantida sua internação provisória, por 45 dias, na Fundação Casa. A unidade em que ele ficará internado não foi divulgada. Ele deixou o fórum em um carro da Polícia Civil por volta das 12h50.

Se terminado o prazo e não houver sentença judicial de internação definitiva, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) determina a sua liberação. Em caso de sentença de internação definitiva, o prazo máximo é de 3 anos.

As armas do ataque

No dia 13 de março, Guilherme Taucci (17 anos) e Luiz Henrique Castro (25 anos) atacaram alunos e funcionários da escola Raul Brasil em Suzano (SP), com um revólver calibre 38, um conjunto de arco e flechas, uma machadinha, um machado e coctéis molotov.

Eles eram ex-alunos da escola. Dez pessoas morreram durante o ataque, contando os assassinos, outras 11 ficaram feridas.

No ataque, apenas Taucci, de 17 anos, portava arma de fogo. A suspeita da polícia é que o atirador tenha matado Luiz Henrique e depois se suicidado.

Armamento ou desarmamento?

Após o massacre, políticos e internautas levantaram o debate sobre o armamento ou desarmamento da população como forma de evitar crimes futuros deste tipo.

A oposição acusou o Governo Bolsonaro de incentivar a cultura de armas, que, segundo eles, têm relação com o massacre.

“Escola não combina com morte. A tristeza com o crime em Suzano é muito grande, o país inteiro está chocado. Precisamos estimular uma cultura de paz e parar com a lógica de violência e brutalidade onde tudo parece se resolver com armas e mais armas”, disse a deputada federal, Sâmia Bomfim, em seu perfil de Twitter.

Já líderes de Governo, como o senador Major Olímpio (PSL-SP), chegaram a afirmar que o armamento de professores poderia evitar mortes em Suzano.

“Se tivesse um cidadão com arma regular dentro da escola, professor, servente, um policial militar aposentado, ele poderia ter minimizado o tamanho da tragédia”, declarou Olímpio.


Padrão psicológico

A BBC Brasil publicou reportagem no último sábado (16) em que o acadêmico brasileiro Gabriel Zacarias, da Unicamp, explica um padrão e a um “roteiro” observados em ataques à escolas nos Estados Unidos e também a atentados extremistas recentes na Europa, que têm relação com o caso de Suzano, segundo Zacarias.

Esse padrão visto em massacres inclui questões marcantes: o atirador geralmente acumula sentimentos mal resolvidos de frustração e alienação social – com uma crise de masculinidade em parte significativa dos casos. Ele busca por armas como suposta forma de se mostrar viril e faz retratos de si mesmo com o armamento, criando uma autoimagem de “guerreiro”. E, após a execução do ato de violência em si, há em vários casos o suicídio dos autores.

Na opinião de pesquisadores do tema, entender esse padrão pode ajudar na prevenção de futuros ataques. Embora seja importante destacar que atentados assim sejam fenômenos complexos e com múltiplas causas, e que EUA, Brasil e Nova Zelândia apresentam realidades bastante diferentes.

Assim como no ataque em Suzano, que deixou dez mortos (incluindo os dois criminosos) e 11 feridos, os perpetradores costumam ser homens jovens. Em geral, têm dificuldade de inserção social e, ainda que muitas vezes não tivessem praticado violência até então, acumulavam algum tipo de ressentimento agudo em relação à sociedade e comunidade onde viviam.

Outra característica importante: eles costumam ter acesso a armas e/ou fetiche por elas.

Em geral, “existe, de fato, um roteiro seguido em ataques desse tipo”, diz à BBC News Brasil Gabriel Zacarias, que é professor de História na Unicamp e estudioso de casos recentes de extremismo islâmico na França (abordados no livro No Espelho do Terror: Jihad e Espetáculo; ed. Elefante, 2018).

“A escola muitas vezes é identificada como um lugar de opressão e ressentimento, e atiradores costumam ter alguma relação traumática não elaborada com aquele lugar. Existe, muitas vezes, uma dificuldade (dos perpetradores) de se inserir no normalmente aceitável.”

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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