Entre os mais investigados na Lava a Jato, apenas o PT perdeu prefeituras

1

PMDB é o partido que mais venceu eleições para prefeitos em 2016 e o PP virou a quarta mais força política do país na esfera municipal do poder Executivo.

Informação – Por Rafael Bruza * com informações da Agência Brasil e do jornal El País Brasil

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva votou em São Bernardo do Campo (SP) nas eleições municipais de 2016 / Foto - Reprodução (Revista Forum)
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva votou em São Bernardo do Campo (SP) nas eleições municipais de 2016 / Foto – Reprodução (Revista Forum)

No último ano, os procuradores da Lava a Jato e o juiz federal Sérgio Moro afirmaram mais de uma vez (veja “aqui” e “aqui”) que PT, PMDB e PP são os principais partidos investigados na operação porque estas siglas compunham o governo no período investigado e nomeavam diretores das estatais onde ocorreram esquemas de corrupção. De fato, o PP lidera a lista de investigados da Lava a Jato no STF, com 31 dos 50 políticos suspeitos. Na sequência aparece o PT com 8 investigados e o PMDB com 7, formando um conjunto que envolve 46 dos 50 políticos incluídos na lista de investigados. Os procuradores denunciaram políticos destes três partidos à Justiça. Mas, nas urnas, os resultados das eleições municipais deste domingo (02) mostram que entre estas legendas, apenas o PT elegeu menos prefeitos do que em 2012.

 

Apesar de não chegar ao segundo turno no Rio de Janeiro e em São Paulo, que são os maiores colégios eleitorais do país, o PMDB continua sendo a maior força política em eleições municipais para poder Executivo. Em 2012, o partido elegeu 1.021 prefeitos e em 2016, foram 1.028 prefeitos apenas no 1º turno (confira o ranking completo dos maiores vencedores das eleições municipais de 2016 abaixo da análise).

Já o PP, que lidera a lista de investigados da Operação Lava a Jato no STF, virou a quarta maior força política em eleições municipais para poder Executivo e também subiu o número de prefeituras que controla: de 476 em 2012, o partido passou a comandar 496 em 2016.

O Partido dos Trabalhadores, no entanto, é apontado como o grande perdedor dessas eleições porque em 2012 elegeu 638  e, em 2016, apenas 256. A sigla perdeu mais da metade das prefeituras que controlava, inclusive em quatro capitais das cinco em que tinha representantes. E dessa forma, deixou de ser o terceiro partido com mais prefeituras em 2012 para virar o décimo da lista de partidos que mais elegeram prefeitos em 2016.

A despeito disso, o PSDB foi considerado o grande vencedor das eleições, porque conseguiu eleger quase 100 prefeitos a mais do que em 2012, com um aumento de 14%. Esse partido inclusive fez o feito inédito de eleger um prefeito de São Paulo (João Doria Jr.) em 1º turno, em disputa onde um terço dos eleitores optou por se abster ou votar nulo ou branco.

Os dados mostram o resultado das eleições municipais de 5.507 cidades em que a disputa foi finalizada no primeiro turno. Em 55 municípios, o pleito foi para o segundo turno e, em seis, o resultado depende ainda de decisão judicial.

Análise – O fator corrupção

Segundo analistas políticos e jornalistas como Kennedy Alencar, os resultados do 1º turno das eleições para prefeito mostram como as investigações e acusações da Operação Lava a Jato complicaram as campanhas petistas nas eleições municipais de 2016.

Para grande parte do eleitorado brasileiro, de fato, os resultados deste domingo (02) supõem uma vitória da luta contra a corrupção por terem atingido principalmente o Partido dos Trabalhadores. A agência de notícia Reuters fez análise dizendo que as eleições municipais “puniram corruptos”. A matéria repercute em jornais nacionais, como o Jornal do Brasil, desde segunda-feira (03).

Mas os resultados positivos do PP, que é o maior investigado na Operação Lava a Jato, e do PMDB, que também tem políticos de alto escalão sob suspeita (como o presidente do Senado, Renan Calheiros, ou o ex-ministro Romero Jucá), provam que suspeitas de corrupção não geram resultados negativos nas urnas, necessariamente.

Há outras questões envolvidas na forma que os eleitores votam.

Em entrevista ao jornal El País Brasil, a cientista política, Nara Pavão, corroborou essa visão.

“Essa é uma dinâmica perversa, mas é importante lembrar que a corrupção é apenas uma das múltiplas dimensões da avaliação do eleitorado. Se o voto é influenciado por processos judiciais, ele também depende de outras questões, como situação econômica, políticas sociais, ideologia”, analisa a cientista, que desenvolveu uma linha de estudo no exterior sobre o comportamento do eleitorado.

Nesse sentido, os maus resultados do PT a nível municipal também têm relação com a recessão econômica que surgiu durante o Governo de Dilma Rousseff, assim como com outros fatores políticos regionais, específicos em cada campanha.

Mas outros especialistas entrevistados pelo jornal El País Brasil fortalecem a tese de que a luta contra a corrupção realizada através da Operação Lava a Jato se concentrou apenas no PT,  gerando resultados eleitorais distorcidos que prejudicaram apenas esse partido, em detrimento de outras legendas investigadas.

“Este tema (da corrupção) tem sido usado de forma manipulativa e desta vez não foi diferente. Ao apontar para o PT, o problema da corrupção, que é sistêmico do programa político brasileiro, é esvaziado. Assim, o castigo da urna é torto em alguns casos e em outros não acontece”, disse Jessé de Souza, que estuda as novas classes trabalhadoras do Brasil.

Neste sentido, cabe lembrar que a exposição de Dilma Rousseff na Presidência da República e a ideologia liberal/conservadora da imprensa corporativa (contrária à ideologia intervencionista e progressista do PT) tendem a concentrar os holofotes e as acusações de corrupção neste partido, o que obviamente gera efeitos distorcidos na opinião pública e, consequentemente, nos resultados eleitorais, pois determinados partidos acusados de corrupção sofrem menos punição nas urnas do que outros partidos igualmente investigados, mas mais expostos e criticados.

A análise da agência Reuters comprova essa tendência da imprensa de tratar o PT como um sinônimo de corrupção. O texto diz que as eleições municipais “Puniram corruptos”, mas o corpo do texto trata apenas dos maus resultados do Partido dos Trabalhadores. Por que a frase fala em “corruptos”, no plural, se apenas um partido foi “punido”?

É uma análise distorcida, que sintetiza toda corrupção em um partido só e favorece opiniões distorcidas na opinião pública.

O que surge então é um cenário em que cidadãos não punem a corrupção nas urnas porque tendem a observar apenas as ilegalidades de partidos que contrariam sua ideologia ou seus interesses políticos, enquanto toleram, esquecem ou até defendem as suspeitas que pairam sobre outras legendas.

O coidealizador do site Atlas Político,  Andrei Roman, que mapeia perfis e atuação de políticos brasileiros através de um banco de dados, defendeu essa visão, também em entrevista ao jornal El País Brasil.

“Esperava-se que a Lava Jato teria a capacidade de ‘limpar a política’. Mas não é isso que está acontecendo. Por conta de um cenário de exacerbação da polarização política, movimentos favoráveis ao impeachment fecham os olhos para evidências de corrupção dentro do Governo. E a esquerda, incrédula com o Judiciário, passou a não dar mais crédito à operação”, comenta Roman.

Ou seja, surgiu uma conjuntura em que os cidadãos possuem enorme percepção da corrupção, mas toleram as ilegalidades determinados partidos, por razões específicas.

E dessa forma podemos explicar por que o PT sofreu punição nas urnas, enquanto PMDB e PP conseguiram eleger mais prefeitos do que nas eleições municipais de 2012, sem que isso parecesse estranhos aos olhos de quem luta contra a corrupção.

Confira o ranking dos 10 partidos que mais elegeram prefeitos em 2016.

1º PMDB: em 2012 elegeu 1.021 prefeitos. Em 2016 o número de eleitos subiu para 1.028.

2º PSDB: em 2012 elegeu 695 prefeitos. Em 2016, o número de eleitos subiu para 793.

3º PSD: em 2012 elegeu 498 prefeitos. Em 2016, o número de eleitos subiu para 539 .

4º PP: em 2012 elegeu 476 prefeitos. Em 2016, o número de eleitos subiu para 496.

PSB: em 2012 elegeu 462 prefeitos. Em 2016, o número de eleitos caiu para 416.

6º PDT: em 2012 elegeu 307 prefeitos. Em 2016, o número de eleitos subiu para 334.

7º PR: em 2012 elegeu 275 prefeitos. Em 2016, o número de eleitos subiu para 295.

8º DEM: em 2012 elegeu 252 prefeitos. Em 2016, o número de eleitos subiu para 265.

9º PTB: em 2012 elegeu 299 prefeitos. Em 2016, o número de eleitos caiu para 262.

10º PT: em 2012 elegeu 638 prefeitos. Em 2016, o número de eleitos caiu para 256.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

Facebook Twitter LinkedIn 

Comente no Facebook

Discussion1 Comentário

  1. Pingback: A Operação Lava a Jato provou sua imparcialidade com a prisão de Cunha? - Independente

Leave A Reply