Esquerda está dividida nas eleições de São Paulo e Rio de Janeiro

2

Em São Paulo, Haddad (PT) e Erundina (PSOL) disputam votos. No Rio, Jandira Feghali (PC do B, aliado do PT), Marcelo Freixó (PSOL) e Alessandro Molon têm candidaturas diferentes em 1º turno, mas já fecharam acordo de aliança no 2º.

Análise – Rafael Bruza

Os pré-candidatos às prefeituras de São Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente: Luiza Erundina (PSOL), Fernando Haddad (PT); Marcelo Freixó (PSOL) e Jandira Feghali (PC do B em coalizão com PT) / Fotos - Reprodução
Os pré-candidatos às prefeituras de São Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente: Luiza Erundina (PSOL), Fernando Haddad (PT); Marcelo Freixó (PSOL) e Jandira Feghali (PC do B em coalizão com PT) / Fotos – Reprodução

Os partidos têm até 15 de agosto para registrar os candidatos das eleições do dia 2 de outubro. Mas tudo indica que as duas principais cidades do país terão diferentes candidatos de esquerda no primeiro turno, com natural divisão de votos entre eles.

Rio de Janeiro

Além das pré-candidaturas de Jandira Feghali e Marcelo Freixó no Rio de Janeiro, Alessandro Molon, da Rede Sustentabilidade de Marina Silva é outro candidato de esquerda que pretende disputar as eleições municipais da Cidade Maravilhosa.

Os três pré-candidatos fizeram uma reunião de cerca de 3 horas no princípio de junho e fecharam acordo de apoio mútuo em um eventual segundo turno. Mas não discutiram a possibilidade de fazer chapa única no 1º turno.

“As três candidaturas são legítimas. Há uma unidade construída, de diálogo, não em uma chapa única. Nos não éramos uma coisa só e nos dividimos. Pelo contrário, somos coisas diferentes, com caminhos próprios, e estamos nos organizando em uma pauta e em um debate permanente sobre a cidade”, afirmou o pré-candidato do PSOL, Marcelo Freixó ao jornal O Globo.

Os três candidatos fazem oposição ao governo do prefeito Eduardo Paes (PMDB) e do governador Francisco Donelles (também do PMDB).

O PT e o PC do B pretendiam apoiar a candidatura de Pedro Paulo (PMDB) à Prefeitura do Rio de Janeiro, mas desistiram do apoio depois que esse deputado federal votou a favor do Impeachment de Dilma Rousseff em abril.

Esses dois partidos estenderam sua aliança ao nível municipal e lançaram a pré-candidura de Jandira Feghali para a prefeitura da cidade, em evento que contou com apoio e presença de Luiz Inácio Lula da Silva.

“Somos uma esquerda que sonha, que imagina, uma esquerda que discursa, mas uma esquerda que também faz”, disse Jandira no evento. Ela foi uma das principais opositoras do Impeachment de Dilma Rousseff no Congresso Nacional.

O candidato da Rede, Alessandro Molon, defende a união entre os três candidatos.

“Não é tarefa fácil vencer eleição no Rio de Janeiro contra a máquina do PMDB, contra a força e o dinheiro do PMDB. Então é preciso que essa conversa (entre Rede, PSOL e PC do B) seja ampliada, que envolva outras forças progressistas e envolva também aqueles que não se identificam com nenhuma força política. A representação está em crise, os partidos políticos todos estão em crise, é preciso conversar sobretudo com que não se identifica com nenhum partido político”, disse o pré-candidato.

Uma pesquisa de intenção de voto feita pelo Paraná Pesquisas em maio indica que o senador Marcelo Crivella (PRB) tem 38,1% dos votos e lidera a disputa pela Prefeitura seguido por Marcelo Freixo (PSOL), com 11,4%, e Flávio Bolsonaro (PSC), com 8,1%.

Jandira Feghali (PCdoB) aparece com 7,0% e Pedro Paulo (PMDB), com 4,4%.

Os demaiscandidatos são: Alessandro Molon (Rede) tem 3,0%; Indio da Costa (PSD), 2,2%; Osório (PSDB), 1,4%; Cyro Garcia (PSTU), 1,3%; e Hugo Leal (PSB), 0,7%.

A disputa em São Paulo

O ar amistoso que existe na esquerda do Rio de Janeiro não se estende a São Paulo, onde o prefeito Fernando Haddad já sente a oposição da deputada federal e pré-candidata do PSOL, Luiza Erundina.

No dia em que lançou sua candidatura, a psolista disse que Haddad faz um governo “medíocre”, indicando que o prefeito “não ousou em nada” e apontando que “a periferia está abandonada”.

A questão dos Guardas Civis Metropolitanos (responsabilidade de Haddad) que retiraram cobertores de moradores de rua durante noites de intenso frio na capital paulista também geraram críticas da pré-candidata do PSOL ao prefeito.

Perguntas ao prefeito Fernando Haddad:O senhor sabe1) que nos últimos dias cinco moradores de rua morreram de frio…

Posted by Luiza Erundina on Tuesday, June 14, 2016

Haddad, por outro lado mantém postura amistosa e evita críticas à Erundina.

Em entrevista ao Diário Centro do Mundo, o prefeito disse que a candidatura de Erundina vai “enriquecer o debate” e que ela “saiu da direita e veio para a esquerda” ao deixar o PSB e se filiar ao PSOL. Mas não entrou em questões que geram divergências.

Em discurso feito na convenção do PT que homologou a candidatura de Fernando Haddad, o ex-presidente Luiz Inácio lula da Silva pediu que o prefeito não fizesse críticas à Erundina nem à Marta Suplicy, filiada ao PMDB e também pré-candidata à disputa pela Prefeitura da cidade.

“Você (Haddad) não deve ficar falando mal nem da Marta nem da Erundina. Se for falar mal, fale de outra pessoa”, disse Lula, segundo o jornal Valor Econômico.

Erundina e Marta Suplicy foram prefeitas de São Paulo, entre 1989 e 1992 e entre 2001 e 2004, respectivamente, quando eram filiadas ao Partido dos Trabalhadores (PT).

Mas nenhuma delas obteve a reeleição.

Caso consiga se reeleger, aliás, Haddad seria o primeiro político do PT que venceu duas eleições seguidas para prefeito de São Paulo.

Em paralelo, a opção de Haddad de não atacar Erundina pode viabilizar apoio dessa candidata num eventual segundo turno.

A última pesquisa do Datafolha indicou que ambos estão tecnicamente empatados com 10% e 8% dos votos, respectivamente, considerando margem de erro de 3 pontos percentuais para cima e para baixo, imediatamente  atrás de Celso Russomano (PRB), que tem 25% dos votos, e Marta Suplicy (PMDB) com 16%.

O instituto também traçou diferentes cenários de segundo turno e informou que Erundina ganha de Haddad por 42% das intenções de voto contra 24% do ex-prefeito.

Cabe lembrar que a candidata do PSOL chegou a ser anunciada como vice-prefeita de Haddad na eleição municipal de 2012. Mas ela desistiu da chapa depois que o PT formou aliança com o deputado federal Paulo Maluf (PP – SP) naquela eleição.

Conclusão

Em São Paulo, pode-se esperar críticas de Erundina dirigida a Fernando Haddad, inclusive porque ele é o atual prefeito da cidade e será desconstruído por todos os candidatos, sem exceções.

No Rio, o clima é mais de amizade graças à proximidade ideológica e ao consenso de que o PMDB é inimigo por controlar o governo do Estado e a prefeitura da cidade.

Então os três devem ter o PMDB de alvo e por isso uma aliança no segundo turno deve ser formada, caso um desses três candidatos consigam superar o 1º turno.

O apoio de Haddad a Erundina ou vice-versa pode se concretizar no segundo turno, a despeito das críticas feitas pela pré-candidata do PSOL ao prefeito.

De qualquer forma, e apesar de dois políticos do PRB (Crivella e Russomano) liderarem as disputas de Rio e São Paulo, há muitos fatores que tendem a alterar os números das pesquisas de opinião até outubro.

Então as circunstâncias desenhadas nessa análise tendem a se modificar nas próximas semanas. Mas as raízes das chapas já se formam e é inegável que a esquerda disputará votos entre si nas duas maiores cidades do país.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

Facebook Twitter LinkedIn 

Comente no Facebook

Discussion2 Comentários

  1. Pingback: PT se distancia de partidos pró-Impeachment nas eleições municipais - Independente