Folha cortou fala de João Doria dirigida a executivos de multinacionais ligadas aos EUA

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Em 2016, um levantamento mostrou que 83% das matérias da Folha publicadas no final daquele ano foram favoráveis à Reforma da Previdência de Michel Temer (MDB).

Por Rafael Bruza

O governador de SP, João Doria, e a citação que foi cortada na matéria da Folha de SP / Foto (Agência Brasil)

Uma notícia da Folha de S. Paulo, publicada na última quarta-feira (10), mostra uma declaração do governador de SP, João Doria (PSDB), que teve um trecho cortado na edição do jornal.

O governador discursou na cerimônia de 100 anos da Câmara de Comércio Americano (Amcham), em São Paulo, para 900 presidentes e diretores de companhias multinacionais relacionadas com os Estados Unidos, como a Ambev, Gerdau e Natura.

No evento, Doria pediu que os executivos se tornem “defensores ativos” da Reforma da Previdência”, proposta pelo Governo de Jair Bolsonaro (PSL), e sugeriu que eles usema “força individual ou corporativa” para pressionar parlamentares a favor da medida.

A matéria da Folha de S. Paulo, assinada pelo repórter Ivan Martinez-Vargas, no entanto, excluiu as palavras “individual e corporativa” da declaração de João Doria.

“Vocês podem ajudar. Usem a força que têm para falar com os parlamentares, que são seus amigos ou que vocês, na condição de eleitores, têm direito de cobrar e impedir que votem contra a reforma”, disse Doria, segundo a Folha.

O Independente publicou a declaração do governador na íntegra, inclusive em vídeo, e destacou as palavras “individual e corporativa” no título da matéria.

Confira a fala sem cortes: “Vocês podem ajudar. Usem a força individual ou corporativa que vocês têm para falar com os parlamentares, que são seus amigos e estão próximos de vocês. Ou que vocês, na condição de eleitores, têm direito de cobrar e pedir que votem a favor da Reforma da Previdência”.

A reportagem procurou o ombudsman da Folha de S. Paulo e enviou email ao caderno “Mercado” do jornal – onde a matéria foi publicada – para questionar se houve autocensura na publicação desta notícia. Também questionou se o impresso apoia a Reforma da Previdência defendida pelo Governo Bolsonaro.

O prazo de resposta dado ao jornal foi ultrapassado, mas até o momento a Folha não enviou respostas.

O texto da matéria da Folha de S. Paulo sobre o caso – o último parágrafo mostra a citação que teve palavras cortadas

Apoio à Reforma?

Em 2016, um levantamento da ONG Repórter Brasil mostrou que 83% das notícias da Folha de S. Paulo, publicadas entre o dia 21 de novembro a 20 de dezembro daquele ano, foram favoráveis à Reforma da Previdência proposta pelo então presidente, Michel Temer (MDB).

“Conteúdos em que prevaleciam o detalhamento do projeto, sem apresentação de contrapontos, ou o apoio explícito em entrevistas foram avaliados como favoráveis e alinhados à proposta. Esse é o critério utilizado pelas maiores empresas do Brasil especializadas em análise de imagem e reputação”, disse o levantamento.

Na época, a Folha foi o jornal impresso que dedicou menos espaço ao projeto do governo, em comparação a O Globo e Estadão – que fizeram 90% e 87% de notícias favoráveis à proposta de Temer, no período analisado, respectivamente.

Na Folha, o dado de matérias pró-Reforma da Previdência seria maior, segundo a ONG, se a colunista do jornal e então senadora, Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), e o jornalista Vinícius Torres Freire, não tivessem tratado a proposta “de forma sistemática” com tendência crítica.

As publicações de ambos mantiveram o índice de matérias favoráveis à Reforma da Previdência, na Folha, sete pontos percentuais abaixo de O Globo e quatro do Estadão.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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