GIL MANDA RECADO HÁ 35 ANOS…

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(Ygo Ferro)

Lá pelo meio da década de 1980 Gilberto Gil já cantava sobre “gente estúpida” e “gente hipócrita”, que são expressões usadas no refrão da composição dele em parceria com seu produtor musical da época, Liminha. Trinta cinco anos depois a música continua intacta em seu conteúdo, pois com é de se perceber a obra aborda uns tipos de indivíduos bem corriqueiros que atravessam séculos, gerações, guerra, fome e frio intactos em suas qualidades de perturbar a vida alheia – seja por uma questão de ignorância, poder ou ambição.          

Aqui estamos nós no meio de um grande problema de saúde pública que paralisou o mundo bem ao estilo dos filmes de ficção científica, causando pânico geral em quase todos e exterminando principalmente as pessoas de países que não seguiram as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) – algo que eu nunca tinha visto na vida. Neste contexto caótico voltamos à música do Gil e do Liminha porque, apesar de tudo, essa gente estúpida e hipócrita continua seu brilhante trabalho de complicar a realidade já bastante difícil. Na selva de falsos moralistas e autoproclamadas “pessoas de bem” existem as mais diversas categorias de seres que ajudam de forma exemplar a destruir seus semelhantes de forma cruel e inconsequente, sem nem ter noção das coisas que praticam ou falam – ou também, pelo contrário, muitos têm a exata ideia do que estão fazendo.        

No momento que eu escrevo este texto os vizinhos do lugar onde eu moro realizam uma festinha entre amigos. Mas como assim, festinha?  Não estamos em quarentena? Sim, festinha, abraços, cigarros, música brega, bebidas e conversas ao pé do ouvido. Pelo menos foi o que eu vi da minha janela. Confesso que gosto da movimentação das festinhas de vizinhos, mas em um momento desses?!?… Gente estúpida? Juventude inconsequente?… Estou falando de um lugar onde os vizinhos são moradores idosos. Acho que não é por aí que vamos sair dessa reclusão forçada. Tão pouco pelo caminho dos falsos solidários. Soube que em Santa Catarina uma rede de shoppings ofereceu ao governo estadual 12 respiradores, porém a condição para tal doação seria a reabertura das lojas. Gente hipócrita?… O mercado “acima de tudo e todos”. E se não sobrar pessoas para pagar de consumidor e trabalhador?         

E dessa forma a lista de “gente estúpida” e “gente hipócrita” é interminável. Nem mesmo um famoso ator de posições contraditórias (e que curiosamente já interpretou o escritor alagoano Graciliano Ramos no cinema) sustentou seu apoio ao governo que incentiva a população nas ruas. Foi um longo caminho para finalmente o artista reconhecer que o chefe de estado é um caso perdido de estupidez. Hoje não sabemos ao certo quem está no comando da nação. Só sabemos que o político é o “rei da cloroquina” diagnosticando mais que os próprios médicos em casos que nem os especialistas descobriram a cura. Também é notório que viramos piada ao redor do mundo. Na Alemanha, por exemplo,  humorístico de TV apresenta certificado de burrice com o nome do presidente. Veja a notícia  nos links: https://veja.abril.com.br/mundo/covid-19-emissora-de-televisao-publica-da-alemanha-ironiza-bolsonaro/ e https://www.dw.com/pt-br/tv-alem%C3%A3-ridiculariza-rea%C3%A7%C3%A3o-de-bolsonaro-na-pandemia/a-53069220.         

Também não tem como esquecer o mercado e seus “patrões nossos de cada dia” que exigem a rotina diária de trabalho como se nada estivesse acontecendo. Muitos desses podem se preservar em suas casas ou em seus escritórios domésticos, enquanto seus subordinados são obrigados à escolha da sobrevivência ou da contaminação. Qual seria a melhor alternativa já que em ambas opções a solução é incerta? E quando apenas demitem (fato recorrente desde inicio da crise)?!? Ou mesmo o que esperar dos “encastelados” e suas riquezas que não cabem numa só vida e nem lembram dos que vivem sem nada?         

Neste momento de “fim de mundo” ainda temos os exploradores da fé alheia, que até agora estão chocados com a diminuição do dízimo e já foram pedir ajuda ao governo. Esses mesmos, que se dizem religiosos e curadores dos males do mundo, não estão sendo muito eficazes nos “milagres de cura”, quando muito inventam novas formas de extorquir seus seguidores. E como se não bastasse para o constrangimento geral, ainda existem aqueles comunicadores da mídia dotados de extrema ignorância, querendo a todo custo provar que são mais especialistas que os próprios profissionais de saúde. Um desses apresentadores enviado das trevas sugeriu campos de concentração para todos os infectados. Haja paciência para tal absurdo! Infelizmente as atrocidades não param, basta lembrar que existem hackers tentando falsificar sites e aplicativos do governo federal para roubar a ajuda básica das pessoas que estão sem renda neste momento.          

Enfim, é muito história, muita gente estúpida e hipócrita atuando neste cenário assustador. Uma coisa é certa: se não seguirmos as recomendações da OMS, enquanto pesquisadores tentam encontrar a vacina para o vírus,  ficaremos de quarentena a vida inteira ou morreremos todos. E para finalizar, um trecho da música “Nos barracos da cidade”, que citei durante o texto:

“E o governador promete,

Mas o sistema diz não

Os lucros são muito grandes

Mas ninguém quer abrir mão

Mesmo uma pequena parte

Já seria a solução

Mas a usura dessa genteJá virou um aleijão (…)”

Ah: acabei citando também uma música dos “Secos e Molhados”

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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