Globo contesta perícia do áudio da JBS, feita pela Folha de S. Paulo

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Globo divulgou matérias questionando a formação do perito contratado pela Folha. Os textos também apontam uso de material amador na perícia e erros de português no laudo.

Por Rafael Bruza

O perito Ricardo Caires dos Santos e ilustração dos jornais Folha de S. Paulo e O Globo / Foto – Reprodução

A Folha de S. Paulo contratou Ricardo Caires dos Santos para fazer uma perícia da gravação que o dono da JBS, Joesley Batista, fez do presidente Michel Temer antes de fechar pré-acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR), homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Os resultados foram divulgados na sexta-feira (19). Segundo a reportagem o perito encontrou “mais de 50 edições” no áudio e afirmou que o material sofreu manipulação

O texto foi reproduzido por diversos canais de mídia durante o fim de semana, inclusive por veículos do Grupo Globo.

“Segundo ele (Ricardo Caires dos Santos), o áudio divulgado pela Procuradoria-Geral da República tem indícios claros de manipulação, mas ‘não dá para falar com que propósito’. Afirma ainda que a gravação divulgada tem ‘vícios, processualmente falando’, o que a invalidaria como prova jurídica, diz o texto da Folha, que cita o perito.

“’É como um documento impresso que tem uma rasura ou uma parte adulterada. O conjunto pode até fazer sentido, mas ele facilmente seria rejeitado como prova’, disse Santos, segundo a reportagem.

No domingo (21), veículos do Grupo Globo como o Fantástico, o jornal O Globo e o G1 questionaram a formação de Ricardo Caires dos Santos, afirmaram que o perito usou o programa Audacity na perícia, que é amador, segundo a matéria, e indicaram que o perito cometeu erros de português no laudo.

“O Globo informa que Ricardo costuma se apresentar como perito do Tribunal de Justiça de São Paulo, mas é apenas um prestador de serviços eventual da Justiça, sem nenhum vínculo com o Tribunal”, dizem os textos do Grupo Globo, maior conglomerado de mídia da América Latina, que continua questionando a formação do perito.

“A reportagem (da Folha) relata que o perito judicial Ricardo Caires dos Santos afirma ser profissional em transcrever áudios. É bacharel em Direito pela Unifig, de Guarulhos, diz ter especialização em Direito Penal. Antes de se dedicar à transcrição da conversa de Temer com Joesley, coube a ele determinar se havia ou não um fantasma numa foto da internet divulgada pela atriz americana Jéssica Alba no ano passado”, informa o texto, que também afirma que o perito trabalhou de corretor de imóveis.

Os veículos do Grupo Globo também apresentaram conclusões do laudo diferentes do que a Folha de S. Paulo apresentou em sua reportagem.

“Procurado pelo O Globo, ele (Ricardo Caires dos Santos) afirmou que seu trabalho é apenas inicial e que qualquer conclusão depende de uma outra perícia. Ele negou que o áudio da conversa tenha 50 pontos de edição, como apontado pela Folha. Segundo ele, são 14 pontos de edição, entre 15 e 20 pontos de corte e diversos trechos de ruído. Mas disse que ele não tem condições de apontar onde estão os pontos de edição. O perito disse que o objetivo de seu trabalho era apenas que outro profissional fizesse a perícia”, diz o texto, que questiona, também, a metodologia usada pelo perito.

“Para elaborar o laudo, ele afirma ter usado um tocador de mídia, o programa Audacity, uma ferramenta gratuita para edições de áudio caseiras, e o software Vegas Pro 10, ferramenta profissional para edição de vídeo, embora a fita tenha apenas áudio e não imagens. Especialistas ouvidos pelo O Globo afirmam que as ferramentas adotadas por Caires para fazer a perícia são insuficientes para dizer se houve ou não edição”.

A Globo também apontou erros de português no laudo, que, segundo a matéria, mostram que o perito “não tem domínio da língua portuguasa”.

“Na conclusão, o perito cometeu erros de português: escreve ‘para melhor identificação está marcados os pontos em vermelho e amarelo’ quando deveria dizer ‘estão marcados’. Diz ainda e “o objeto ‘áudio’ está eivados de vícios’. No lugar de “está eivado”, o que demonstra que o perito não tem o domínio da língua portuguesa. O perito defendeu ainda que os trechos editados teriam reduzido o tempo total de conversa de 50 minutos para 38 minutos. A reportagem de O Globo alerta que ele não considerou a gravação feita enquanto Joesley estava no carro, antes e depois de entrar no Palácio Jaburu”, diz a matéria.

Os veículos da Globo acabam as matérias apresentando a versão de defesa do jornal Folha de S. Paulo.

“A Folha de São Paulo informou que contratou o perito Ricardo Caires dos Santos e posteriormente o entrevistou para produção de reportagem. Tanto no laudo produzido como na entrevista, Santos afirma textualmente que a gravação sofreu 53 edições.

Em nome da transparência, marca de seu jornalismo, a Folha voltará ao profissional para que ele esclareça o teor das declarações dadas ao O Globo, a quem Santos ofereceu outra conclusão. Santos é perito judicial e já fez análises para diversos órgãos de imprensa”, conclui o texto.

STF pede perícia do áudio

Depois que a defesa de Michel Temer pediu suspensão do inquérito que investiga o presidente da República, o relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, enviou o áudio para perícia na Polícia Federal (PF) e decidiu remeter para julgamento pelo plenário da Corte, na próxima quarta-feira (24), o pedido feito pela defesa do presidente Temer para suspender as investigacões até que a finalização da perícia.

Antes da decisão do ministro, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, defendeu a continuidade da investigação e disse que não contém qualquer “mácula que comprometa a essência do diálogo”, mas informou não se opõe ao pedido de perícia feito pelo presidente.

Perícia do Estadão

O jornal O Estado de S. Paulo também realizou uma perícia do áudio, dessa vez com o perito extrajudicial Marcelo Carneiro de Souza, que apontou “fragmentações” em 14 pontos da gravação. Ou seja: há pequenos cortes de edição no áudio da conversa entre o presidente Michel Temer (PMDB) e o empresário Joesley Batista, dono da JBS

Segundo a matéria, “a constatação vai ao encontro da suspeita levantada pelo advogado criminalista Antônio Cláudio Mariz de Oliveira sobre a integridade do material”.

“Soubemos que a fita foi editada e isso é gravíssimo”, afirmou Mariz ao Estado.

O detetive, que afirmou ter feito um exame premiliminar, não encontrou cortes entre o 6.º e o 12.º minutos, o intervalo de tempo em que se falou sobre o deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). “Para se chegar a uma conclusão definitiva, é necessário analisar o material onde a mídia foi armazenada, nesse caso, o gravador. Verificar se esse material foi devidamente acondicionado ou se, por exemplo, ficou largado em algum local que poderia danificá-lo. Precisaria fazer uma transcrição fiel. E, para ter certeza da identidade dos dois locutores, o ideal ainda seria fazer um exame de confronto de voz”, disse Souza.

Perícia do Blog da Cidadania

O blog de Eduardo Guimarães pediu tratamento do áudio ao produtor de áudio Guilherme Gama, da Dope Áudio Design, e sinaliza que “muita coisa foi comprometida no áudio divulgado pela Globo porque foi gravada com microfone de lapela, que se coloca embaixo da roupa. Mas grande parte da gravação pôde ser melhorada”.

O tratamento do áudio permitiu resgate de alguns trechos da gravação. Em um deles, segundo o Blog da Cidadania, Temer fala que possui “boa relação com a imprensa”

“Já no início da gravação, Temer diz a Joesley que a versão de Dilma Rousseff e de seus apoiadores de que ela sofreu um golpe, não colou. Temer diz que ‘ainda bem’ que tem muito apoio no Congresso e muito apoio da imprensa. E que a economia está ‘dando certo’ em “seis meses de governo”, apesar de estar no cargo há um ano e um mês”, afirma o texto do blog.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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