Governo Bolsonaro até aqui é amador e twitteiro

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Por André Henrique

Jair Bolsonaro não deixou a vida de militante virtual – que fazia sentido quando o mesmo era apenas um parlamentar atacando a militância progressista para amealhar simpatizantes conservadores.

Acontece que agora Jair Bolsonaro é presidente da República, portanto, tem de dialogar com forças sociais e econômicas diversas; esgrimir-se em meio a pressões e interesses, construir e manter uma base congressual coesa, para o governo caminhar e aprovar projetos.

Mas ao que parece o presidente não entendeu a nova realidade ou não se adaptou. O fato de ele dar ouvidos excessivamente a Olavo de Carvalho deixa claro que Bolsonaro é mais militante do que presidente.

A intransigência ideológica de Olavo de Carvalho não combina com os compassos e descompassos da vida real. O “filósofo” indicou alguns ministros, “criando” a chamada “ala ideológica”, do governo – a que mais causa confusão, por conta das excentricidades ideológicas dos escolhidos. Um ministro da educação já caiu. Complicado.  

Ao massagear o ego do “filósofo”, Jair Bolsonaro busca agradar a bolha conservadora ao passo que a sua “base política” no Congresso míngua junto com a sua relação com o vice-presidente Hamilton Mourão. Neste domingo (21), o jornalista Lauro Jardim, de “O Globo”, sustentou em sua coluna que teve acesso a áudios em que Jair Bolsonaro incentiva ataques de aliados ao vice.

O jornalista não divulgou os áudios, entretanto, um dia depois Carlos Bolsonaro compartilhou do canal do pai em seu twitter vídeo de Olavo de Carvalho tecendo críticas ao exército e indiretas a Hamilton Mourão. Significa. O vice-presidente ironizou: “acho que ele [Olavo de Carvalho] deveria se limitar a função de astrólogo. Ele pode continuar a prever coisas, ele é bom nisso”.

O vídeo foi excluído por Carlos Bolsonaro; mas o valente não evitou a avalanche. Nem ele. Nem Olavo. Nem Mourão. Os três provocaram um mal-estar que gera mais calor em torno de um governo que está à beira do inferno. De um governo que precisa de paz congressual para aprovar a impopular reforma da previdência – sem a qual, Bolsonaro perde o que lhe resta de apoio das elites financeiras.

Jair Bolsonaro segue a criar zonas de atrito com o Congresso e a mídia, refém de ideólogos e filhos inconsequentes. Perguntas: 1) o presidente não se atentou para o fato de que é o presidente em primeiro mandato mais impopular da história do Brasil pós-redemocratização? 2) O direitista não sacou que o Brasil e a camada que votou nele são muito maiores que a seita Olavette? 3) Jair Bolsonaro não percebeu o amadorismo de seus principais conselheiros?

Sim, para a terceira pergunta, mas o presidente é tão amador quanto, tendo em vista que não consegue deixar para trás o Bolsonaro que trafegava basicamente nas redes sociais e participava de discussões profundas no programa da Luciana Gimenez (especialista em reforma da previdência e conselheira de Jair) sobre a vida íntima dos homossexuais.

Se não se mancar, o ultra-direitista ficará pelo caminho, antes de 2022. Nessa bagunça, de lideranças (risadas) twitteiras, quem perde é o Brasil. Que tempos!

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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