Gregório Duduvier critica editorial da Folha de S. Paulo sobre violência policial

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Em coluna publicada na própria Folha de S. Paulo, o humorista diz que quando o jornal “pede maior repressão a adolescentes desarmados, se alinha com o mais forte e faz vista grossa pra truculência”, ressaltando que o jornalismo tem função contrária a esta atitude.

Por Rafael Bruza

O humorista do canal Porta dos Fundos e colunista do jornal Folha de S. Paulo, Gregório Duduvier / Foto - Reprodução
O humorista do canal Porta dos Fundos e colunista do jornal Folha de S. Paulo, Gregório Duduvier / Foto – Reprodução

O humorista do canal Portas dos Fundos, Gregório Duduvier, fez críticas à Folha de S. Paulo nesta segunda-feira (05) através de sua coluna semanal chamada “Dona Folha, tá difícil te entender”, publicada pelo próprio jornal. O texto do humorista é uma resposta à editorial da Folha publicado na sexta-feira (02) que se chama “Fascistas à solta” e pede mais violência policial contra “fanáticos da violência” em protestos políticos.

“Em seu editorial na sexta-(2), a senhora diz que se o governo não souber ‘reprimir os fanáticos da violência’, o Brasil corre o risco de se transformar numa ditadura assim como aconteceu na ‘Alemanha dos anos 30’. À polícia do Estado de S. Paulo, que já não é famosa pela gentileza, a senhora recomenda que ‘reprima’ mais durante os ‘grupelhos extremistas’- porque senão os baderneiros vão tomar o poder e transformar o Brasil na Alemanha nazista”, afirma a coluna.

O texto logo diz que “existem muitas razões pra ter medo”, mas indica que não são as apontadas pelo jornal.

“O vampiro que nos governa acaba de recriar o Gabinete de Segurança Institucional. O ministro da Justiça pede menos pesquisa e mais armamento. Uma jovem perde um olho atacada pela polícia. Uma presidenta democraticamente eleita é derrubada porque teria cometido um crime, mas não perde os direitos políticos porque afinal ela não cometeu crime nenhum. O Senado que a derrubou por causa de créditos suplementares muda a lei em relação aos créditos no dia seguinte à sua queda”, argumenta.

Gregório também diz que concorda quando a Folha “diz que uma ditadura se avizinha”, mas discorda “que são os ‘black bloc’ que vão tomar o poder”. Logo o humorista faz questionamentos ao jornal e compara o comportamento do editorial à Alemanha nazista.

“Dona Folha, a senhora já conheceu um ‘black bloc’? ‘Black blocs em geral têm 12 anos, espinhas e mochila cheia de roupa preta e remédios pra acne. Não sei se por ignorância ou cinismo, a senhora ignorou o fato de a Alemanha nazista não ter sido criada pelos ‘fanáticos da violência’. Como bem lembrou Bruno Torturra (fundador da Mídia Ninja e do Fluxo), a Alemanha nazista se consolida quando Hitler culpa os tais baderneiros pelo incêndio do Reichstag e cria um Estado de exceção com o objetivo de ‘reprimir baderneiros’ – igualzinho a senhora tá pedindo. Quando o Reichstag pegou fogo, os jornais pediram medidas de emergência contra os ‘baderneiros’ em editoriais muito parecidos com o seu. Hitler não teria ganhado terreno sem uma profusão de jornais pedindo ‘mais repressão aos grupelhos’ – jornais estes que, vale lembrar, depois foram proibidos de circular”, afirma o colunista.

Gregório conclui dizendo que golpes acontecem “quando há medo” e que quando a Folha de S. Paulo “contribui com o medo, também “contribui com o golpe”.

“O golpe de 64 não foi obra do ‘extremismo’, mas daqueles que alegavam querer combatê-lo. Quem instaura a ditadura não são os baderneiros, são os apavorados. Só há golpe quando há medo. Quando a senhora contribui com o medo, a senhora contribui com o golpe. Um jornal é do tamanho dos inimigos dele. Quando a senhora pede maior repressão a adolescentes desarmados, se alinha com o mais forte e faz vista grossa pra truculência. Jornalismo, pra mim, era o contrário”.

Confira o texto na íntegra:

Dona Folha, tá difícil te defender.

Em seu editorial na sexta (2), a senhora diz que se o governo não souber “reprimir os fanáticos da violência”, o Brasil corre o risco de se transformar numa ditadura assim como aconteceu na “Alemanha dos anos 30”. À polícia do Estado de S. Paulo, que já não é famosa pela gentileza, a senhora recomenda que “reprima” mais duramente os “grupelhos extremistas” –porque senão os baderneiros vão tomar o poder e transformar o Brasil na Alemanha nazista.

Concordo que existem muitas razões pra ter medo. Mas não pelas mesmas razões. O vampiro que nos governa acaba de recriar o Gabinete de Segurança Institucional. O ministro da Justiça pede menos pesquisa e mais armamento. Uma jovem perde um olho atacada pela polícia. Uma presidenta democraticamente eleita é derrubada porque teria cometido um crime, mas não perde os direitos políticos porque afinal ela não cometeu crime nenhum. O Senado que a derrubou por causa de créditos suplementares muda a lei em relação aos créditos no dia seguinte à sua queda.

Concordo quando a senhora diz que uma ditadura se avizinha, mas discordo que são os “black bloc” que vão tomar o poder. Dona Folha, a senhora já conheceu um “black bloc”? “Black blocs” em geral têm 12 anos, espinhas e mochila cheia de roupa preta e remédios pra acne.

Não sei se por ignorância ou cinismo, a senhora ignorou o fato de a Alemanha nazista não ter sido criada pelos “fanáticos da violência”. Como bem lembrou Bruno Torturra, a Alemanha nazista se consolida quando Hitler culpa os tais baderneiros pelo incêndio do Reichstag e cria um Estado de exceção com o objetivo de “reprimir baderneiros” – igualzinho a senhora tá pedindo.

Quando o Reichstag pegou fogo, os jornais pediram medidas de emergência contra os “baderneiros” em editoriais muito parecidos com o seu. Hitler não teria ganhado terreno sem uma profusão de jornais pedindo “mais repressão aos grupelhos” – jornais estes que, vale lembrar, depois foram proibidos de circular.

O golpe de 64 não foi obra do “extremismo”, mas daqueles que alegavam querer combatê-lo. Quem instaura a ditadura não são os baderneiros, são os apavorados. Só há golpe quando há medo. Quando a senhora contribui com o medo, a senhora contribui com o golpe.

Um jornal é do tamanho dos inimigos dele. Quando a senhora pede maior repressão a adolescentes desarmados, se alinha com o mais forte e faz vista grossa pra truculência. Jornalismo, pra mim, era o contrário.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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