Grupo pró-Moro tentou impedir fala de Greenwald em evento; ABI classifica como ‘censura inaceitável’

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(Assista) A Associação Brasileira de Imprensa afirmou em nota que “as hordas antidemocráticas decidiram sair das ofensas das redes sociais para ações físicas” e prometeu responsabilizar Jair Bolsonaro e Sergio Moro pessoalmente, caso a integridade física de Glenn Greenwald seja afetada de alguma forma, em atos deste tipo.

Por Rafael Bruza

Durante evento na programação paralela da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei), em Paraty (RJ), na última sexta-feira (12), o jornalista do site The Intercept Brasil, Glenn Greenwald, teve dificuldades para se comunicar com o público, por conta de um grupo de aproximadamente 50 pessoas, a favor do ex-juiz Sergio Moro, que decidiu atrapalhar sua fala, usando lasers, tocando músicas em alto volume e soltando fogos de artifício – inclusive em direção ao público, segundo relatos.

O jornalista sofre críticas e oposição de defensores de Moro desde 9 de junho, quando seu site, o Intercept, começou a publicar reportagens que mostram conversas privadas do ex-juiz (atual ministro da Justiça de Bolsonaro) e procuradores como o coordenador da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol.

Desta vez, o grupo de manifestantes discordou da presença de Greenwald na Flipei e começou o protesto por volta das 19h. O evento também teve presença do ator e humorista, Gregório Duvivier, e da socióloga e youtuber Sabrina Fernandes, que mediou a mesa de Greenwald.

O jornalista do Intercept ironizou o protesto e tentou seguir com a fala, apesar do alto volume do barulho de fora.

“Eu espero, primeiramente, que ninguém esteja incomodado com esse protesto contra Gregório”, disse o jornalista, em tom irônico, gerando risos na plateia, pois os protestos eram contra ele. “Na realidade, isto está mostrando o que o jornalismo pode trazer para este país. Agora tem uma facção muito poderosa, que é Sergio Moro e a força-tarefa da Lava Jato, que está fazendo coisas com consequências muito graves, sem transparência nenhuma”.

A socióloga Sabrina Fernandes questionou em seu Twitter reportagem do jornal O Globo sobre o ocorrido. A matéria diz que os manifestantes “abafaram” a fala de Greenwald, mas a youtuber discordou.

“Abafou o que? Fizemos nossa mesa certinha, falamos tudo que queríamos falar, mesmo sob o barulho da manifestação de uma minoria do outro lado que apontava rojões DIRETAMENTE pro nosso barco. O atraso foi técnico. Algumas dezenas de bolsonaristas não abafaram 3 mil pessoas”, disse a socióloga.

“O que precisa ser questionado é: eles tocaram música ensurdecedora e apontaram rojões para PESSOAS e a PM ficou um tempão só assistindo…”, se queixou a youtuber, no Twitter.

Além dos rojões, os manifestantes tocaram diferentes versões do hino nacional e a música Pavão Mysterioso – em referência ao perfil anônimo de Twitter que divulga prints falsos de supostas conversas do jornalista com políticos do PSOL.

Há umas semanas, o autor da música Pavão Mysterioso, Ednardo, prometeu processar governistas que usaram a canção em protestos a favor do Governo.

“Insistem em utilizar sem autorização, minha música, minha imagem, minha voz, e versos e títulos para objetivos que nem de longe são os meus e com os quais não concordo de forma alguma nem quero associações”, disse na publicação.

Repúdio de jornalistas

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) divulgou nota no sábado (13) em que repudia a manifestação dos indivíduos favoráveis a Sergio Moro e trata o caso como uma “censura inaceitável” feita por “um bando de desordeiros antidemocráticos”.

“A ABI considera inaceitável e preocupante este acontecimento, pois, tal episódio indica que as hordas antidemocráticas decidiram sair das ofensas das redes sociais para ações físicas, numa clara demonstração de desprezo pelo Estado Democrático de Direito”, diz a nota, assinada pelo presidente da entidade, Paulo Jeronimo, e o vice-presidente, Cid Benjamin.

A entidade também afirmou que irá responsabilizar Jair Bolsonaro e Sergio Moro, caso ocorram atentados contra a integridade física do jornalista. “Diante deste fato, que representa um acirramento das agressões à democracia, e com a inação cúmplice do governo, caso ocorra qualquer atentado à integridade física de Glenn Greenwald e sua família, a ABI irá responsabilizar pessoalmente o presidente da República e o ministro da Justiça (Moro)”, conclui a nota.

O jornalista Glenn Greenwald, na Flipei (esq.), e manistantes pró-Moro (dir).

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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