Igreja evangélica é acusada de incentivar ataques contra terreiro em Campinas

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Um homem fez ameaças de morte e apedrejou o Terreiro de Umbanda da Vó Benedita. Lideranças da casa acionaram a polícia para apurar o caso, enquanto entidades e um vereador cobraram punições ao Ministério Público.

Por André Henrique e Rafael Bruza

Lideranças e membros do Terreiro da Vó Benedita, em Campinas, São Paulo, sofreram ataques no início de maio e apontaram fiéis da Igreja do Evangelho Quadrangular da Vila Ipê, situada a 50 metros da casa, como autores dos delitos.

Nos primeiros atos considerados ataques, os pneus de três carros de frequentadores do terreiro foram furados. No dia 2, uma mulher procurou a proprietária do imóvel onde os rituais são realizados para questionar o motivo de a casa estar alugada para umbandistas.

Por último, na sexta-feira (03), um homem apedrejou o terreiro e ameaçou de morte alguns frequentadores, afirmando que eles “não têm Deus no coração”.

O responsável do Terreiro da Vó Benedita, João Galerani, conhecido como Pai Joãozinho, fez um boletim de ocorrência na Polícia relatando as hostilidades.

Em nota, o terreiro disse que membros da casa escutaram pessoas na Igreja vizinha dizendo que os terreiros de Umbanda deveriam ser apedrejados. No mesmo dia, ocorreu o apedrejamento e as ameaças contra frequentadores do terreiro.

“Na sexta feira passada, membros de nossa casa escutaram em alto e bom tom, durante o culto, que os terreiros de Umbanda eram para ser apedrejados, fato que infelizmente ocorreu contra nossa casa no mesmo dia”, dizem Galerani e a Mão Sueli Galerani, em nota. “Chamamos a polícia militar e a guarda municipal, as quais nos atenderam com toda rapidez e respeito. (…) Não iremos aceitar nunca esse tipo de agressão, física e psicológica”.

Nota de repúdio.Nossa casa o Terreiro da Vó Benedita, casa de Umbanda com 16 anos de trabalhos caritativos foi alvo de…

Posted by Joãozinho Galerani on Saturday, May 4, 2019

Procurada pelo Independente, a Igreja do Evangelho Quadrangular da Vila Ipê optou por não comentar o caso.

João Galerani conta que o terreiro funciona há 16 anos e nunca teve problemas com fiéis da igreja vizinha.

“Quero pensar que foi um ato isolado de violência, que não vai se repetir. Vamos fazer algumas conversas e ir atrás de Justiça para que não aconteça mais”, diz João Galerani. “Temos contato com pastores vários se solidarizaram, e nós vamos conversar com eles, inclusive”.

Repercussões

O vereador Carlão (PT) e a Associação das Religiões de Matrizes Africanas de Campinas e região (Armac) fizeram uma representação pedindo que o Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) apure responsabilidade de prática de intolerância, preconceito e discriminação religiosa de membros da Igreja Evangélica Quadrangular em questão.

A ação alega que a intenção dos autores dos ataques era “demonizar, difamar e enxovalhar as religiões de matriz africana, induzindo e incitando os fiéis ao preconceito e à discriminação religiosa”.

O Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro) também acionará o Ministério Público de São Paulo para cobrar punições aos delitos.

“Isso (o ataque) é um abuso total. Entendo que as pessoas que cometeram tal atrocidade devem responder perante a lei”, diz o advogado Basílio Filho, presidente do Idafro.

Na última quinta-feira (09) foi feita uma audiência na Câmara Municipal de Campinas que debateu a concretização dos direitos das religiões africanas e seu acesso à Justiça. Os ataques ao Terreiro da Vó Benedita foram tratados no encontro.

Policiais presentes no Terreiro da Vó Benedita, depois que um homem jogou uma pedra na casa e fez ameaças de morte

O que fazer nestes casos?

O advogado Tagino Alves dos Santos, presidente da União de Negros pela Igualdade (Unegro), explicou ao Independente que vítimas de intolerância religiosa podem fazer denúncias por telefone.

“Existe o Disque 100, uma linha nacional, onde denúncias podem ser formalizadas contra este tipo de prática racista, que é uma discriminação religiosa. A pessoa disca esse número, 100, cai no Governo Federal e o sistema encaminha a denúncia ao município. Ela logo vem à delegacia e ao Ministério Público do local, onde aconteceu o caso, e gera um início de procedimento”, explica o advogado.

O Disque 100 é um canal do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que concentra denúncias de discriminação e violação de direitos.

Tagino Alves dos Santos também orienta vítimas a procurar advogados especializados.

“A própria entidade tradicional de matriz africana pode fazer um boletim de ocorrência a respeito daquele ponto. De preferência, que acione um advogado especializado nas religiões de matriz africana para poder fazer o documento de maneira adequada, porque o crime de racismo tem dificuldade de ser enquadrado logo de início, inclusive pelo delegado. Então o advogado pode orientar o delegado de que aquilo é um crime e não apenas um caso de injúria”, conclui.

Dados de intolerância religiosa

Nos últimos anos, os ataques contra os seguidores de religiões de matriz africana aumentaram.

Segundo dados do Disque 100, foram feitas 213 notificações de intolerância contra este ramo religioso, de janeiro a novembro de 2018.

O número é 47% maior do que o registrado em todo o ano de 2017, quando foram recebidas 145 denúncias.

do que o registrado em todo o ano de 2017, quando foram recebidas 145 denúncias.

Na contramão deste aumento, o número total de denúncias de intolerância religiosa, que inclui casos de todas as religiões, vêm caindo nos últimos anos.

Os dados de 2019 ainda não estão fechados, mas, segundo reportagem do jornal O Globo, tudo indica que 2018 terá sido o ano com menos queixas de intolerância religiosa desde 2014.

De janeiro a novembro foram 360. Há quatro anos, eram 556.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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