Imprensa dá destaque ao vestido de Marcela Temer no desfile de 7 de setembro

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Horas depois, uma pesquisa indicou que mais de dois terços das mulheres se sentem discriminadas na política nacional.

Por Rafael Bruza

Matéria do jornal Folha de S. Paulo sobre o vestido de Marcela Temer
Matéria do jornal Folha de S. Paulo sobre o vestido de Marcela Temer

Os fatos

Alguns internautas ficaram admirados com a postura de veículos da imprensa corporativa neste feriado de quarta-feira, 7 de setembro. Ao invés de fazer análises de conjuntura sobre as aparições públicas de Michel Temer no desfile do Dia da Independência e na abertura das Paralimpíadas, onde foi duplamente vaiado por partes do público, o foco de atenção de algumas matérias jornalísticas foi centrado no vestido da primeira-dama, Marcela Temer.

A maioria das publicações que tratam sobre o assunto é especializada em celebridades, fofocas, moda, etc., como é o caso do portal “Ego” e o “Ela” (Grupo Globo).

Outras, como a revista Época, fizeram o trabalho jornalístico de questionar “por que nos preocupamos tanto com a roupa da primeira-dama e não com o terno do presidente”?

Mas também há publicações de jornais gerais que falam informações sobre o vestido que vão além de seu preço de R$610, como é o caso do portal Metrópoles e o R7, do Grupo Record.

O jornal Correio Braziliense, por exemplo, disse que Marcela Temer “atraiu olhares no desfile de 7 de setembro” e publicou análise de uma estilista sobre o vestido da primeira-dama.

Mas a maioria das críticas de internautas foi dirigida a uma matéria da Folha de S. Paulo publicada na madrugada desta quinta-feira (08).

Segundo a publicação, Marcela Temer vestiu uma roupa que mostrava “um resumo do que o seu marido quer transmitir no início da gestão como presidente: serenidade, ordem e progresso”.

Nesta quinta, alguns internautas continuavam criticando e ridicularizando a publicação do jornal Folha de S. Paulo.

A opinião

A questão central deste fato é a diferença concedida a homens e mulheres na política. Como questionou a revista Época, devo perguntar por que nós, jornalistas, fazemos análises sobre a roupa de Dilma, de Marcela Temer e de outras representantes femininas, mas tratamos as roupas masculinas como iguais, sem sequer publicar seus exorbitantes preços.

Segundo o dicionário Priberam, discriminar significa “estabelecer diferenças”. É sinônimo de diferenciar, distinguir, “colocar alguém a parte”.

Ora, se a imprensa analisa a roupa de mulheres, mas ignora os caríssimos ternos dos homens, ela cria, de certa forma, uma discriminação, uma separação de condutas em função do sexo da figura pública em questão.

Isso não é positivo para a política.

Há outras questões que devemos analisar, como o papel institucional da primeira-dama de um estado, por exemplo.

Em breve, Marcela Temer assumirá um gabinete e um cargo social no Governo.

Mesmo sem receber salário, como indica a tradição de Governos executivos de municípios, trata-se de uma ação que funciona como marketing para Michel Temer, pois sua esposa naturalmente passa a ser vista como “um exemplo a seguir”, o que garante votos e choca com a intenção de nomear pessoas especializadas para cargos (assistentes sociais fazendo trabalhos sociais, por exemplo, que, na minha visão, é o ideal a ser buscado).

Essa situação precisa dos holofotes da mídia.

Mas aparentemente nós, jornalistas, estamos mais preocupados em fazer análises fúteis sobre a roupa das primeiras-damas, que nada importa na política.

É preciso reconhecer essa situação para melhorar o sistema político brasileiro, principalmente considerando que horas depois do desfile de 7 de setembro, uma pesquisa do DataSenado em parceria com a Procuradoria da Mulher e com a Ouvidoria do Senado Federal indicou que mais de dois terços das mulheres na política se sentiram discriminadas por causa do gênero.

Segundo a pesquisa feita com candidatos e candidatas nas eleições municipais de 2012 e gerais de 2014, 37% das mulheres afirmam ter passado por episódios de preconceito no meio político. Os homens que tiveram experiências de preconceito por seu gênero correspondem a 17%.

Além disso, a maioria dos entrevistados (54%) acredita que o sistema político privilegia indivíduos do sexo masculino. Os 42% restantes indicam que o gênero do candidato não faz diferença.

Mas quando apenas mulheres são questionadas, 73% afirmam que o sistema não as favorece. No caso dos homens, menos da metade (49%) afirmou que o sistema privilegia indivíduos do sexo masculino.

E, com isso, vemos como as mulheres são, sim, discriminadas na política nacional com a existência de privilégios aos homens (de diferentes naturezas), enquanto muitos cidadãos do sexo masculino (a metade, segundo a pesquisa) nem percebem essa realidade.

Logo vemos coberturas na imprensa como esta sobre o vestido de Marcela Temer e percebemos, claramente, como na política, as condições de ser de um ou outro sexo estão longe de corresponder com a igualdade prevista nos primeiros artigos da Constituição Federal de 1988.

Vamos, portanto, deixar vestidos de lado. É hora de ter concentração no que realmente importa.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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