Incêndios na Amazônia: céu em Rondônia fica 4 dias no escuro; enquanto Bolsonaro se esquiva

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Bolsonaro ironizou críticas à postura do Governo e os pedidos para que o Exército trabalhe na contenção de incêndios na Amazônia.

Por Rafael Bruza

Milhões de paulistas se impressionaram nesta segunda-feira (19), quando o céu ficou escuro às 3 horas da tarde em São Paulo, por conta de queimadas na região amazônica. Em Rondônia, esta situação se repete há pelo menos 4 dias.

Desde 16 de agosto, relatos de internautas nas redes sociais criticam os incêndios na Amazônia e denunciam o céu escurecido no Estado, pela fumaça de queimadas. Eles usaram principalmente as hashtags #PrayForRondonia e #PrayForAmazonia para fazer os posts.

Cleiton de Oliveira Souza vive em Rondônia, na região da Alta Floresta do Oeste, próxima à fronteira com a Bolívia, e contou ao Independente sua perspectiva dos incêndios.

“Ficamos preocupados porque o sol ficou sem aparecer uns três dias aqui na minha região. Hoje voltou porque durante a noite houve muito vento que espalhou as nuvens (de fumaça). Mas na região de Porto Velho, que é capital do Estado, a situação ainda é crítica”, relata.

Cleiton também aponta a ausência de militares no local.

“Geralmente o Exército faz umas rondas, nós víamos os carros do Exército com carros passando e isso amedrontava muito as pessoas que fazem queimadas e desmatam. Mas nesse ano ainda não vi militares passando aqui. E é triste porque vemos que a Grande Mídia não está fazendo cobertura (da situação) e, com isso, as pessoas que cometem esses crimes se veem encorajadas”, conclui.

Incêndio na região Amazônica

O Corpo de Bombeiros de Rondônia informou já atendeu mais de 900 ocorrências de incêndio em vegetação nos últimos 60 dias.

Imagem de satélite

Os incêndios se espalham pelas florestas do Norte do Brasil, estendendo-se pelos Estados do Acre, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, a ponto de chegar à tríplice fronteira entre Brasil, Bolívia e Paraguai. 

O fogo destruiu propriedades, arrasou florestas, matou pessoas e causou cancelamento e alterações de rotas de diversos voos.

Em Manaus, capital do Amazonas, a fumaça de incêndios chegou no dia 15 de agosto, tampando o sol. Internautas fizeram imagens de “antes” e “depois” para mostrar a situação.

As chamas em regiões amazônicas são combatidas por bombeiros há cerca de 15 dias.

No dia 9 de agosto, governo do Amazonas decretou situação de emergência em razão de queimadas e do que chamou de “impacto negativo do desmatamento” na região metropolitana de Manaus e na região sul do estado.

Tragédia nas queimadas

No Assentamento Galo Velho na Zona Rural de Machadinho do Oeste (RO), cerca de 345 km de Porto Velho, capital da Rondônia, um casal morreu abraçado, depois de um incêndio atingir a região no dia 13.

Os vizinhos conseguiram fugir do local e notaram o desaparecimento dos dois. Os corpos foram encontrados carbonizados e literalmente abraçados um no outro, um dia depois, na última quarta-feira (14).

Incêndio foi registrado na terça-feira (13) em propriedades rurais na Linha TB-14. — Foto: Reprodução/ Redes Sociais

Posições do presidente

Questionado sobre medidas para conter os incêndios na Amazônia, Jair Bolsonaro declarou apenas que “é época de incêndio por lá”.

“Agora estou sendo acusado de tocar fogo. Nero (em referência ao imperador de Roma). Eu era o capitão motosserra, agora sou o Nero, tocando fogo na Amazônia”, ironizou Bolsonaro. “É época de queimada por lá”.

O presidente também comentou pedidos para que o Governo Federal coloque o Exército para trabalhar contra as chamas.

“O pessoal tá pedindo para eu colocar o Exército para combater (os incêndios). Alguém sabe o tamanho da Amazônia? A distância entre os pelotões de fronteira é de 200 km, nos mais pertos (sic). Você vai botar quantas pessoas para apagar fogo na Amazônia? Agora é época de queimada. Tá tudo mudando, estou destruindo a Amazônia”, disse o presidente.

Por último, Bolsonaro afirmou que críticos usam os incêndios na Amazônia para “atacá-lo”.

“Inclusive a revista, acho que a Carta Capital, fez uma foto de capa linda. Botou a Amazônia toda desmatada e toda a região Sul e Sudeste com a Mata Atlântica toda preservada. Coisa mais linda. Não sabem mais o que fazer para me atacar”, concluiu Bolsonaro.

Causas dos incêndios

Especialistas alegam que o tempo seco do inverno contribui para as queimadas. Mas ainda alertam que a maioria dos focos de incêndio começa por ações de seres humanos, seja para destruição de resíduos como lixo ou para “limpar” terreno para o seu cultivo.

Além disso, o número de focos de queimadas cresceu 70%, no Governo de Jair Bolsonaro, até o dia 18 de agosto, em comparação com o mesmo período de 2018.

Ao todo, o Brasil registrou 66,9 mil pontos, segundo a medição do Programa Queimadas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Este dado foi obtido com recursos do Fundo Amazônia, que se tornou alvo de polêmica internacional envolvendo Jair Bolsonaro, depois que Alemanha e Noruega suspenderam verbas do fundo, em protesto contra o aumento do desmatamento no bioma.

O presidente, na ocasião, se limitou a declarar que a Alemanha tentou comprar a Amazônia e que o Brasil não precisa do dinheiro destes países.

Depois, Bolsonaro compartilhou no Twitter um vídeo de caça às baleias para criticar a Noruega, que também suspendeu verbas dirigidas ao fundo. Mas, na verdade o vídeo foi gravado numa ilha da Dinamarca.

Com isto, o presidente foi acusado de propagar notícias falsas.

Guerra com dados

Desde o final de julho, Jair Bolsonaro está publicamente em guerra com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) que indicam um forte aumento do desmatamento na Amazônia durante os primeiros meses de seu Governo.

O presidente desacreditou números do órgão sobre desmatamento, e foi contestado publicamente pelo então presidente da instituição, Ricardo Galvão, que acabou destituído do cargo.

O presidente também fez comentários sobre dados do desmatamento, nesta terça-feira (20).

“Tô esperando as próximas rodadas de números, que não vão aparecer sem responsabilidade, para mostrar. Ninguém vai esconder nada, não. Queremos é responsabilidade, se os números forem alarmantes, eu vou tomar consciência na frente de vocês”, afirmou o presidente.

Além disso, Bolsonaro sinaliza desde a campanha de 2018 que fará uma flexibilização de controles de desmatamento. Também enfraqueceu o IBAMA e disse reiteradas vezes que pretende legalizar a mineração e o garimpo em terras indígenas, ignorando o fato de que os nativos costumam evitar casos de desmatamento de florestas.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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