INDIFERENÇA E ALIENAÇÃO

0

(Texto / Ilustração: Ygo Ferro)

Aqui não temos jogadores de futebol, não temos apresentadores de fácil apelo popular, não temos cantores de músicas frágeis, não temos estrangeiros ou celebridades instantâneas. Nem mesmo uma tragédia que envolva algum nome de impacto que transita nos holofotes da mídia. Temos mais de sessenta mil mortos e uma apatia brutal por parte de uma parcela da população e de um sistema financeiro que trata pessoas como números distantes (e que uma dia foram usadas de forma barata para gerar renda à alguém).

Por aqui, nem mesmo planos de governo que nos últimos anos nem existiam ao certo. A crise sanitária deixou explícito o que alguns já sabiam. Não há planos de salvação da economia, muito menos da saúde das pessoas. É muito doloroso constatar que aqui e também em algumas partes do mundo não existe plano de bem estar ao próximo, mesmo que esse próximo seja um cidadão que pague os seus impostos em dia. Afinal, para onde vai nosso dinheiro do montante de impostos que a gente paga? Vai para a privatização dos bens públicos? 

É estarrecedor que diante de uma  situação dessa haja tamanha alienação. As pessoas não se dão conta o quanto é exigido delas quando se deparam em ter de assegurar qualquer renda básica para não ter privações, arriscando sua própria vida ao ter de continuar sua rotina de trabalho como se nada estivesse acontecendo. O governo que a gente sustenta com nossos impostos é indiferente à este dilema. Com discurso raso, não preserva a vida das pessoas e não tem estratégias de movimento da economia. As resoluções até agora são frágeis e burocráticas. Nessa falta de empatia e até de caráter, alguns abastados ainda tem o descaramento de fraudar a pouca ajuda social que o governo liberou, com muito custo, para os autônomos e desempregados afetados diretamente pela pandemia. 

Poderia está escrevendo sobre outras realidades, sobre filmes, música ou ficção, no entanto o presente é urgente. Depois de alguns meses de uma quarentena sabotada estamos aí: descrentes, apáticos, alienados, decepcionados. Parece que a vida de pessoas comuns não vale muito. Parece que a minha vida ou a sua não importa a ninguém. Somos números, mera estatística. Somos mais de 60.000 almas perdidas, distantes, frias. Somos notícias banalizadas de números que só aumentam a cada dia. Mesmo que encontrem a cura para o mal, até quando seremos tratados assim? Ou, pensando melhor, quando vamos ter consciência desta nossa situação?

Ygo Ferro

Comente no Facebook

Comments are closed.