A injustiça por trás do cancelamento de 469 mil benefícios irregulares do BF

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Apesar de acabar com fraudes, o “pente-fino” também atinge muita gente humilde que continua pagando sozinha o preço do ajuste fiscal, enquanto o governo insiste em gastar mais em tempos de recessão econômica.

Opinião – Rafael Bruza

Ilustração
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O Governo Federal comandado por Michel Temer cancelou 469 mil benefícios do Bolsa Família e bloqueou outros 654 mil cartões do programa após detectar indícios de que beneficiários tinham renda superior à permitida, que é de R$ 170 reais per capita na família. Obviamente as fraudes devem ser investigadas, encontradas e eventualmente punidas. Mas por trás desse cancelamento também há grandes sinais de injustiça social praticada pelo Governo Temer.

Os mais de 469 mil cartões cancelados apresentaram rendas superiores à R$ 440, que é três vezes maior do que o permitido pelo programa. Os bloqueados têm 3 meses para provar que têm renda compatível com o Bolsa Família, feito para famílias em situação de extrema pobreza.

Caso não provem, também terão o benefício cancelado.

Portanto, o Governo suspeita que estes beneficiários não se encaixam no Bolsa Família porque recebem mais do que o mínimo.

Certo.

Mas se uma família tem renda de R$ 500 reais per capita, perderá o benefício do Bolsa Família neste pente-fino, mesmo recebendo um salário irrisório, menor do que salário mínimo de R$ 880 por mês.

Na prática, portanto, o pente-fino do Governo corrige fraudes, sim, mas afeta gente humilde, que ganha mais do que o teto de R$ 170 reais e menos do salário mínimo, que é pouquíssimo num país que incide a maioria de seus impostos sobre o consumo, de forma regressiva (afetando principalmente os cidadãos mais pobres), o que contraria todas as indicações que buscam a diminuição da desigualdade social.

Isso prova que o ajuste fiscal continua incidindo sobre os mais carentes, pois o Bolsa Família é feito para ajudar cidadãos na extrema pobreza.

É lamentável.

De qualquer forma, essa situação não seria um problema tão grave se os políticos do Governo tivessem real compromisso em reduzir seus próprios gastos.

Mas cada semana aparecem novas e péssimas notícias sobre a gastança dos representantes do povo.

Em quatro meses do segundo semestre, o Governo já gastou mais do que nos seis primeiros meses do ano de 2016.

Os poderes aumentaram seus gastos desse ano por acreditar que os orçamentos do ano que vem estarão submetidos ao teto da PEC 55 (dessa forma ampliam o teto para poder gastar mais em 2017).

Logo ocorrem reformas em diversos gabinetes do Senado Federal, que valem cerca de R$ 15 mil cada uma. Romero Jucá (PMDB-RR) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP) estão entre os beneficiários dessa reforma, sendo que o ex-ministro de Temer disse esta semana que a PEC 55 (antiga 241) passará com mais facilidade nessa casa do que na Câmara dos Deputados.

Para completar, o Palácio do Planalto se dispôs a gastar 500 mil reais num show de homenagem ao samba, pagando R$ 15 mil apenas para Fafá de Belém cantar o hino nacional numa festa fechada para convidados de Michel Temer.

E o Governo ainda se sente no direito de fazer tal festa porque ano passado o Governo Dilma gastou R$ 1 milhão no mesmo show

Ah, me poupem dessa hipocrisia toda!

O ajuste fiscal só existe quando convém aos cínicos detentores do poder, sejamos sinceros.

Tudo bem, o Governo economizará R$ 2,4 bilhões por ano com os cancelamentos do Bolsa Família e, como dito acima, com certeza o ponte fino resolverá fraudes que devem melhorar o programa a ponto de ampliá-lo no futuro.

Mas, para mim, é uma enorme injustiça cortar o Bolsa Família de quem ganha 500 reais por mês enquanto o Governo continua gastando bilhões de reais a mais em tempos de recessão.

Se querem ajuste fiscal, que comecem cortando sua própria carne antes de retirar benefícios de cidadãos em situação de pobreza.

Que rejeitem o aumento de salário dos servidores do Judiciário e públicos até 2019. Que cortem auxílios de políticos, como o cotão, usado para gastos dispensáveis dos parlamentares. E que deixem de falar em ajuste fiscal apenas para enfiar a faca nas costas do povo.

É o mínimo que se espera de um governo responsável disposto a cortar benefícios de gente humilde, não acham?

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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