Jornalistas contam em livro o que presos vivem ‘Depois das Grades’

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Reportagem feita como Trabalho de Conclusão de Curso virou livro e será divulgado em biblioteca da Vila Madalena.

Informação – Rebecca Vettore* com colaboração de Rafal Bruza

olaO livro ‘Depois das Grades’ fala sobre a realidade que os ex-presos que desejam uma nova oportunidade na sociedade enfrentam. O conteúdo foi produzido em 2015 por Lucas Carvalho e Rebecca Vettore para o Trabalho de Conclusão de Curso de jornalismo da Universidade Anhanguera e em 2016 virou um livro que será apresentado na livraria da Vila, localizado na Rua Fradique Coutinho, em São Paulo, dia 8 de agosto, às 19:30.

Os oito mostram todas as etapas que são necessárias para o egresso voltar à sociedade, apresentam os órgãos públicos que ajudam nessa reintegração, os profissionais que estão envolvidos com o tema, ONGs que fazem o intercâmbio entre as empresas e os ex-presos para encaminhá-los a vagas de emprego, entre outras fontes.

No conteúdo, os ex-presidiários que passaram pela ONG Afroreggae contam quais foram os obstáculos que eles enfrentaram desde que saíram da prisão. Entre essas dificuldades estão conseguir a emissão de documentos, que muitas vezes são perdidos quando eles vão de uma penitenciária para outra; conseguir entrevistas de emprego; como eles não optam pelo caminho mais fácil, o da reincidência, para que não voltem para cadeia; entre outras.

Esses entrevistados falam que conseguir um emprego é muito mais do que uma forma de pagar as contas no fim do mês: “Não é só a minha liberdade, mas a minha independência. Eu preciso também dar um motivo para minha mãe se sentir bem, que não se sinta decepcionada como já se sentiu. Depois que eu conseguir um servicinho, já era. Aí vou viver a minha vida novamente”, conta um dos entrevistados.

No segundo capítulo, os autores falam sobre a quantidade de presos no Brasil (terceira maior população carcerária do mundo), o que a Constituição Federal diz sobre os direitos e deveres do cidadão que for preso e quando ganhar a liberdade. Além disso, trata sobre as funções da cadeia e as responsabilidades dos representantes do sistema carcerário do estado de São Paulo.

Os dois próximos capítulos do livro são destinos às ações que órgãos governamentais e organizações não governamentais, as ONGs, exercem para recolocar os egressos no mercado de trabalho. Para conseguir essa recolocação, são feitas algumas ações como a ministração de cursos profissionalizantes rápidos em diversas áreas, aconselhamento com psicólogos e orientação para entrevistas, além do próprio encaminhamento para vagas de empregos.

José Antônio, superintendente da Fundação Professor Doutor Manoel Pedro Pimentel, a Funap, conta que para a reintegração acontecer entre o egresso e a sociedade, existem muitas dificuldades: “A maioria da população presa não terminou o ensino fundamental. Acho que a elevação da escolaridade é importante numa sociedade como a nossa, para ele conseguir um emprego. Um problema para o egresso conseguir emprego é o preconceito. Quem tem coragem de contratar um egresso”?

O quinto capítulo conta as experiências das empresas que contrataram ex-presos e o que mudam na vida dos que conseguiram sua segunda chance. Os empregadores falam sobre o preconceito dos empregados quando começarem a trabalhar com egressos, o que as empresas fizeram para que todos fossem como iguais, além das surpresas e melhorias que essas contratações trouxeram para as empresas. Além disso, os ex-presos falam sobre as mudanças que aconteceram a partir do momento que começaram a trabalhar.

Para aprofundar o tema da reintegração social, os autores mostram no sexto capítulo a opinião de profissionais que convivem diariamente com presos e ex-presos. Entre esses representantes estão a psicóloga Isabel Hamud, da Secretaria da Administração Penitenciaria, os advogados Alvino Augusto de Sá e Ana Gabriela Braga, respectivamente integrante e ex-integrante do Grupo de Diálogo Universidade-Cárcere-Comunidade da USP, e o sociólogo e voluntário da Pastoral Carcerária, Rafael Godoi.

Os profissionais falam sobre o que os presos pensam da reintegração social, do cumprimento da pena, dos trabalhos informais que os egressos fazem quando não conseguem um trabalho com carteira assinada, os porquês da reincidência dos crimes, sobre o funcionamento da reintegração oferecida pelo governo, das falhas do cárcere, da grande quantidade de presos no Brasil, o preconceito que a população sente e como o tema da ressocialização é falado nas mídias sociais e programas televisivos.

No sétimo capítulo é contado como o ex-preso Hermes de Sousa conseguiu mudar a sua vida e da população de um bairro carente da cidade de São Paulo. Hermes passou 10 anos preso por diversos crimes, mas durante o cumprimento da sua pena tinha consciência dos erros que tinha cometido e do que queria fazer quando ganhasse a liberdade.

Após o fim do cumprimento do regime semi-aberto, ele começou a trabalhar em um ateliê de arte, no qual fazia esculturas de madeira, um talento que descobriu durante os anos de prisão. Mas depois percebeu que queria passar para frente a sua arte, para que ajudasse os outros assim como fora ajudado. Para fazer isso, fundou há 20 anos a ONG Nova União da Arte, no bairro da Vila Nova, zona leste da cidade de São Paulo.

Hoje essa ONG consegue dar independência e renda para mães através de cursos de corte e costura, tira crianças e adolescentes do caminho da criminalidade e do ócio através de programas culturais e atividades e ainda recicla todo material descartável da região. Por esses motivos, é frequentemente destaque de algo bom e que funciona muito bem nos meios de comunicação, e foi reconhecida como exemplo de sustentabilidade pela Fundação Bill e Melinda Gates.

Para finalizar a obra, seus autores reúnem as falas dos entrevistados sobre as mudanças que devem ser feitas para melhorar a reintegração social de egressos. E entre essas mudanças está a proposta da psicóloga Isabel Hamud:

“As pessoas precisam enxergar o crime, em última instância, como um comportamento humano. Por consequência, é uma coisa que qualquer pessoa pode fazer. Não existe este o ‘eu sou o cara bom que nunca vai delinquir, aquele cara é o monstro, é o mauzão, ele que é diferente de mim’. Não. Nós somos iguais. Acho que nos pequenos espaços que a gente puder promover isso, na educação, na cultura, no lazer, seja no cárcere, colocando um pouquinho disso nesses espaços, é possível a gente construir uma sociedade melhor”.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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