Leandro Karnal critica ‘escola sem partido’ e diz que ‘não existe escola sem ideologia’

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“A demonização da política é a pior herança dessa Ditadura Militar, que além de matar seres humanos, ainda provocou na educação um dano que ainda vai se arrastar por algumas décadas”, afirmou o historiador.O professor leandro Karnal durante entrevista no Roda Viva

O professor leandro Karnal durante entrevista no Roda Viva

Informação / Vídeo – Redação

A iniciativa Escola sem Partido afirma que está “preocupada com” “o grau de contaminação político-ideológica das escolas brasileiras, em todos os níveis: do ensino básico ao superior”. Na prática, propõe basicamente o que chama de “fim de doutrinação marxista nas escolas”, alegando que professores e livros tendem a fortalecer uma visão “esquerdista” da história e das ciências sociais, doutrinando estudantes para difundir essas ideias no futuro.

Alexandre Frota levou essa iniciativa ao ministro da Educação quando se encontrou com ele no final de maio.

E em julho, o historiador e professor da Unicamp, Leandro Karnal, manifestou sua opinião sobre a proposta da Escola sem Partido durante entrevista no programa Roda Viva, na TV Cultura (SP). Veja o vídeo ou leia a transcrição da declaração de Karnal no programa:

“Escola sem partido é uma asneira sem tamanho. É uma bobagem conservadora. É coisa de gente que não é formada na área e que decide ter uma ideia absurda, que é substituir o que eles imaginam que seja uma ideologia em sala de aula por outra ideologia, que é uma ideologia conservadora.

Então, como já desafiei algumas pessoas: me digam um fato histórico que você vai dar que não tenha opção política.  Cortaram a cabeça de Luis XVI, 21 de janeiro de 1793. Cortaram a cabeça de Antonieta, 16 de outubro de 1793. Nós vamos dizer ‘que pena, coitados dos reis’? Ou vamos analisar como processo de violência típico da Revolução e assim por diante?

Não existe escola sem ideologia. Seria muito bom que um professor não impusesse apenas uma ideologia, que abrisse caminho sempre para o debate. Mas é uma crença, em primeiro lugar, fantasiosa, de uma direita delirante e absurdamente estúpida de que a escola forma a cabeça das pessoas e que esses jovens saiam líderes sindicais.

Os jovens têm sua própria opinião. Ouvem o professor, vão dizer que o professor é de tal partido. Os jovens não são massa de manobra e os pais e professores sabem que os jovens têm sua própria opinião. Toda opinião é política, inclusive a Escola sem Partido. Eu gostaria de uma escola que suscitasse o debate. Gostaria de uma escola que colocasse para o aluno, no século XIX, um texto de Stuart Mill falando do indivíduo na liberdade do mercado ao lado de um texto de Marx. E que o aluno debatesse os dois textos.

Mas se o professor for militante de um partido de esquerda ou de centro, também faz parte do processo. Isso não é ruim. A demonização da política é a pior herança dessa Ditadura Militar, que além de matar seres humanos, ainda provocou na educação um dano que ainda vai se arrastar por algumas décadas”.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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