Mídia atua como assessoria de imprensa ao noticiar que ‘Temer busca filho na escola’

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Mais uma vez os conglomerados atuaram como assessoria de imprensa de Temer e fizeram exatamente o que o interino pretendia: tirar fotos dele pegando o filho na escola, um grande “fato de interesse público” (aspas pela ironia).

Opinião – Rafael Bruza

Matéria do jornal O Globo sobre a ida de Temer à escola do filho / Foto - Reproduçao
Matéria do jornal O Globo sobre a ida de Temer à escola do filho / Foto – (Captura da página do jornal com ajustes)

O assessor de imprensa é um cargo fundamental dentro de empresas. Ele faz todos os trabalhos de comunicação da organização, além de ter a função básica de criar e difundir notícias alinhadas aos interesses da empresa, de forma que a opinião pública receba material positivo sobre a marca.

Guardem essa informação, pois falaremos sobre o trabalho do assessor de imprensa nas próximas linhas.

Pois bem, quando houve troca de governo entre Dilma e Temer em maio de 2016, a Grande Mídia simplesmente deixou de atacar o Governo Federal petista e virou verdadeira assessora de imprensa do presidente interino, Michel Temer, falando exatamente o que o Governo quer ouvir.

“Superministérios”, “otimismo na economia” e “liberalismo econômico” eram termos que fizeram os jornalistas da mídia corporativa se alegrarem mais do que o normal, após toda ira e indignação que sentiam em relação ao mandato de Dilma Rousseff.

Nenhum dos termos virou realidade concreta, com exceção, talvez, do otimismo na economia, que de fato aumentou no empresariado (apenas nesse setor), sempre crítico a Dilma nos últimos anos.

Mas o trabalho de assessoria de imprensa exercido pela Grande Mídia continuou firme e forte.

Em editorial publicado nesta segunda-feira (26), o Estadão literalmente defende a permanência de Michel Temer na presidência ao falar sobre as pesquisas de opinião que apontam as eleições antecipadas como desejo da maioria da sociedade brasileira.

O artigo responde as pesquisas dizendo logo no título que “a maioria também se equivoca”.

“Existe, contudo, nessa questão, uma enorme distância entre o aparentemente ideal e o realmente possível. Sem entrar no mérito de ser ou não a eleição presidencial direta antecipada a melhor solução para o momento político do País – o que é muito discutível –, basta saber que ela é praticamente inexequível, diz o texto. (inexequível = impossível de se realizado).

O curioso é que dia 7 de abril, há menos de 3 meses e pouco antes da votação do Impeachment na Câmara, o próprio jornal citou a “vontade da maioria” para dizer que o “Impeachment é o melhor caminho” para o Brasil.

“Este governo, inviabilizado por uma presidente da República inábil e inepta, se deslegitimou de facto por decisão da maioria absoluta dos brasileiros e precisa ser afastado o mais rapidamente possível para permitir que se dê início à reconstrução nacional”, diz o texto.

Ora, por que antes a vontade da maioria era “absoluta” e agora é “inexequível”?

O que mudou no Brasil após o Impeachment, além do governo, para o jornal deixar de apoiar o desejo da maioria e defender apenas a permanência de Temer na presidência?

E por que não dizer que se Dilma e Temer renunciarem, há novas eleições, sim, e que essa dupla renúncia é uma forma de fazer a vontade da maioria, a despeito do que vocês opinam e defendem?

É simples: a imprensa corporativa não quer eleições. O Grupo Globo, Grupo Estado, Grupo Folha e a Editora Abril querem Temer. Por isso fazem assessoria de imprensa para ele.

Mas, apesar de opinar com egocentrismo, olhando apenas sua vontade, o Estadão pelo menos foi menos falso do que a Folha de S. Paulo.

Em seu trabalho de assessoria de imprensa, o jornal simplesmente ignorou o dado do Datafolha que indica que 62% dos entrevistados deseja novas eleições no Brasil e deu destaque à informação de que 50% da sociedade apoia um mandato de Michel Temer, usando gráfico que evidentemente possui “aspecto enganoso” e impreciso, conforme reconheceu a gerente do Datafolha, Luciana Chong, ao Intercept, autor da denúncia.

Também poderíamos falar da Globo, mas são tantos colunistas pró-Temer, tantos editoriais a favor dos interesses do interino e tantos casos que distorção e autocensura (como o praticado no ranking de liberdade de imprensa), que prefiro ficar quieto.

Além disso, a maior prova de que a mídia corporativa faz assessoria de imprensa para Temer aparece em um simples fato: quando o presidente diz em sua agenda oficial que irá pegar o filho na escola ao lado da mulher, pedindo, de certa forma, a presença da imprensa no local, os jornalistas vão!!

Vão, tiram fotos e publicam a notícia como se fosse um evento oficial de interesse público.

Ainda completam com a informação de que “outros pais ficaram revoltados com a confusão gerada pela presença do presidente e de suas forças de segurança” para destoar (um pouco) da narrativa literal usada pela assessoria de imprensa e fingir, assim, que essa notícia foi feita por veículos de “jornalismo independente profissional”, não por uma verdadeira assessoria de imprensa.

Pessoalmente, gostaria de ver se fosse Dilma pedindo para a imprensa ir tirar fotos dela com a filha em algum lugar. Os jornais iriam rir da cara da presidente e dizer: “não vamos, companheira”.

Mas isso é fantasia de minha cabeça.

O caso é que “Temer busca filho na escola” é uma notícia tão irrelevante quanto “Caetano Veloso estaciona carro no Leblon”, um mito da Internet brasileira.

Se os internautas sabem disso (e sabem, pois fizeram uma série de piadas na Internet comparando as duas notícias), os jornalistas que têm maiores salários, melhores cargos e maior reconhecimento no país também deveriam saber.

Mas não pretendo, aqui, destruir a mídia gratuitamente.

Quero apenas mostrar como  nós, jornalistas, abdicamos de nossa independência e nos aproximamos do poder público por interesse e menosprezo aos direitos de toda sociedade. E quero dizer isso porque o comportamento político do quarto poder no Brasil é, sim, de interesse público, ao contrário da cobertura feita hoje na escola de Brasília.

Então, além da crítica à imprensa e o esclarecimento sobre as preferências políticas dos principais conglomerados do país, deixo vocês com algumas piadas na Internet que mostram como hoje nossa profissão perdeu qualidade e vínculo com sua função essencial ao fazer exatamente o que Temer pretendia:

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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