Ministro da Justiça tenta ‘erradicar a maconha’ cortando pés de cannabis no Paraguai

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Vídeo do ministro cortando pés de maconha viralizou na Internet, enquanto especialistas de drogas alertaram que Alexandre Moraes estava apenas “enxugando gelo” na fronteira.

Análise / Opinião – Rafael Bruza * com informações do Justificando

O ministro da Justiça, Alexandre Moraes, cortando pés de maconha na fronteira do Brasil com o Paraguai / Foto – Reprodução
O ministro da Justiça, Alexandre Moraes, cortando pés de maconha na fronteira do Brasil com o Paraguai / Foto – Reprodução

Diversos especialistas ao redor do mundo afirmam que a guerra às drogas falhou por não conseguir conter a demanda e o tráfico. Conscientes dos problemas da criminalização das drogas, indicam que é preciso encontrar novas formas de diminuir o consumo dessas substâncias, seja com a legalização ou com o simples aprimoramento na orientação estatal.

Mas o ministro da Justiça, Alexandre Moraes, não escutou nenhum desses especialistas e fez questão de ir até a fronteira do Brasil com o Paraguai para destruir uma plantação de maconha na tentativa de “erradicar a droga”, conforme argumenta o locutor do vídeo abaixo, que não foi identificado.

O vídeo foi divulgado na quarta-feira (03) pela página Quebrando o Tabu, que advoga pela legalização da maconha, e viralizou logo em seguida.

A cena não foi bem recebida pelos especialistas citados no começo desse texto.

O coordenador de Relações Institucionais da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, Gabriel Santos Elias, por exemplo, disse ao site Justificando que o ministro foi ao Paraguai “enxugar gelo”, pois há métodos mais eficientes de lidar com o problema das drogas, como a melhora na orientação aos usuários.

Ele recomenda “não apenas falar ‘drogas, nem morto’”, mas trabalhar em uma orientação mais sincera.

“Fazer uma orientação honesta sobre os problemas que elas causam, sem exagerar para aterrorizar, como temos feito. As pessoas não são idiotas e percebem quando estamos mentindo. Quando os primeiros amigos começam a usar drogas e não morrem, percebemos que tem alguma coisa errada na informação que o governo passa”, afirma Gabriel Santos Elias.

Além disso, está na cara que ir cortar pés de maconha na fronteira é mais artifício político/eleitoral do ministro do que real combate ao uso da cannabis, pois a demanda do consumo de drogas não diminui com a redução da oferta.

Muitos especialistas propõem a legalização da maconha para não só retirar a principal fonte de financiamento do crime organizado (que é justamente a venda de cannabis), como também para atrair impostos para o Estado, que podem ser revertidos em tratamento de usuários ou até construção de escolas e hospitais.

Segundo estudo da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados divulgado em junho, estima-se que o Brasil poderia arrecadar entre 5 e 6 bilhões de reais em impostos por ano com a legalização da maconha. Isso é 40% do que nosso país reúne hoje com bebidas e 60% do que arrecada com tabaco, segundo o mesmo estudo.

Mas hoje esses bilhões de reais financiam diretamente o tráfico de drogas, que é combatido pela polícia de forma literalmente sangrenta para os dois lados.

E enquanto polícia e traficantes se matam ao redor do país, o ministro corta plantas no Paraguai.

É lamentável.

Mas calma que não acabou por aí.

Também cabe ressaltar que o Governo interino de Michel Temer se mostrou bastante contrário a qualquer tentativa de legalização, pois nomeou um coronel da PM para comandar a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas.

Isso sem falar que alguns de seus ministros, como Osmar Terra, do ministério do Desenvolvimento Social, já se posicionaram veemente contra qualquer suspiro pró-legalização.

Então resta ao ministro ir ao Paraguai enxugar gelo enquanto tenta obter algum voto para as eleições de 2018, quando pode ser candidato a Governador, segundo boatos que estão longe qualquer confirmação.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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