Moro responde artigo na Folha que o define como um ‘justiceiro messiânico’

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Texto do físico Rogério Cerqueira Leite compara o juiz federal com um padre dominicano que acabou queimado na fogueira após afastar a Casa Médici do poder em Florença, no século XV.

Informação – Por Rafael Bruza

O juiz federal Sérgio Moro / Reprodução (Agência Brasil)
O juiz federal Sérgio Moro / Reprodução (Agência Brasil)

O juiz federal Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava a Jato na Justiça de 1ª instância e conhecido por manifestar opiniões apenas nos autos dos processos, enviou uma mensagem ao jornal Folha de S. Paulo nesta quarta-feira (12) para responder um artigo de opinião do físico Rogério Cerqueira Leite, que critica as ações do magistrado e o define como um “justiceiro messiânico”.

O texto compara Moro com o padre dominicano Girolamo Savanarola, que afastou a Casa Médici do poder de Florença no final do século XV e promoveu uma campanha reformadora no local.

“A história tem muitos exemplos de justiceiros messiânicos como o juiz Sérgio Moro e seus sequazes da Promotoria pública. Dentre os exemplos se destaca o dominicano Girolamo Savanarola, representante tardio do puritanismo medieval. É notável o fato que Savanarola e Leonardo da Vinci tenham nascido no mesmo ano. Morria a Idade Média estrebuchando e nascia fulgurante o Renascimento. Educado por seu avô, empedernido do moralista, o jovem Savanarola agiganta-se contra a corrupção da aristocracia e da Igreja. Para ele ter existido era absolutamente necessário o campo fértil da corrupção que permeou o início do Renascimento. Imaginem só como Moro seria terrivelmente infeliz se não existisse corrupção para ser combatida”, afirma o artigo da Folha publicado na terça-feira (11).

Durante a comparação, o autor afirma que uma diferença entre Moro e o “fanático dominicano” são as acusações de parcialidade.

“Todavia existe uma diferença essencial, apesar de muitas conformidades, entre o fanático dominicano e o juiz do Paraná – não há indícios de parcialidade nos registros históricos da exuberante vida de Savanarola, como aliás aponta o jovem Maquiavel, o mais fecundo pensador do Renascimento italiano”, afirma.

Rogério Cerqueira Leite segue a crítica adicionando “outro componente à constituição da personalidade de Moro”: “o sentimento aristocrático”, segundo afirma, que seriaa sensação, inconsciente por vezes, de que se é superior ao resto da humanidade e de que lhe é destinado um lugar de dominância sobre os demais, o que poderíamos chamar de ’síndrome do escolhido’”.

Logo afirma que a consequência “inexorável” desse “sentimento aristocrático” é a aceitação da ideia de queo plebeu que chega a status sociais elevados é um usurpador e, portanto, precisa ser caçado”.

Nesse sentido, “o PT no poder está usurpando o legítimo poder da aristocracia, ou melhor, do PSDB”.

“A corrupção é quase que apenas um pretexto. Moro não percebe, em seu esquema fanático, que a sua justiça não é muito mais que intolerância moralista. E que por isso mesmo não tem como sobreviver, pois seus apoiadores do DEM e do PSDB não o tolerarão após a neutralização da ameaça que representa o PT”, afirma Cerqueira Leite no texto.

O autor conclui o artigo contando o final da vida do padre dominicano Girolamo Savanarola e dizendo que “o destino dos moralistas fanáticos é a fogueira”.

“Savanarola, após ter abalado o poder dos Médici em Florença, é atraído ardilosamente a Roma pelo papa Alexandre 6º, o Borgia, corrupto e libertino, que se beneficiara com o enfraquecimento da ameaçadora Florença. Em Roma, Savanarola foi queimado. Cuidado Moro, o destino dos moralistas fanáticos é a fogueira. Só vai sobreviver enquanto Lula e o PT estiverem vivos e atuantes. Ou seja, enquanto você e seus promotores forem úteis para a elite política brasileira, seja ela legitimamente aristocrática ou não”, conclui o texto.

Resposta de Moro

Entre as críticas ao artigo de Rogério Cerqueira Leite enviadas por leitores ao jornal Folha de S. Paulo nesta quarta-feira (12), foi publicada uma mensagem do juiz federal Sérgio Moro. O juiz reconhece que “críticas a qualquer autoridade são bem vindas” e que é importante “manter um ambiente pluralista”, mas também afirma que “a publicação de opiniões panfletárias-partidárias e que veiculam somente preconceito e rancor, sem qualquer base factual, deveriam ser evitadas”.

Confira a mensagem completa do juiz enviada e publicada pela Folha.

“Lamentável que um respeitado jornal como a Folha conceda espaço para a publicação de artigo como o ‘Desvendando Moro’, e mais ainda surpreendente que o autor do artigo seja membro do Conselho Editorial da publicação. Sem qualquer base empírica, o autor desfila estereótipos e rancor contra os trabalhos judiciais na assim denominada Operação Lava Jato, realizando equiparações inapropriadas com fanático religioso e chegando a sugerir atos de violência contra o ora magistrado. A essa altura, salvo por cegueira ideológica, parece claro que o objeto dos processos em curso consiste em crimes de corrupção e não de opinião. Embora críticas a qualquer autoridade pública sejam bem-vindas e ainda que seja importante manter um ambiente pluralista, a publicação de opiniões panfletárias-partidárias e que veiculam somente preconceito e rancor, sem qualquer base factual, deveriam ser evitadas, ainda mais por jornais com a tradição e a história da Folha.

SERGIO FERNANDO MORO, juiz federal (Curitiba, PR)

NOTA DA REDAÇÃO – Os artigos publicados na página Tendências/Debates não traduzem a opinião do jornal, que é expressa nos editoriais sem assinatura da pág. A2.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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