Moro sugeriu a divulgação de argumento que usaria para condenar Lula

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Conversando com um procurador da Lava Jato no Telegram, o ex-juiz sugeriu que o MPF editasse nota para expor as “contradições” nos depoimentos do ex-presidente.

Dois meses depois, Moro condenou Lula à prisão argumentando que considerou “falsas” as alegações do petista, por conta de “contradições” e “inconsistências” na defesa.

Por Rafael Bruza

Em mensagens de Telegram enviadas ao procurador do Ministério Público Federal (MPF), Carlos Fernando dos Santos Lima, no dia 10 de maio de 2017, o então juiz federal, Sérgio Moro, pediu que a Operação Lava Jato divulgasse uma nota expondo “contradições” no depoimento de Luiz Inácio Lula da Silva, feito horas antes, naquele mesmo dia. Dois meses depois, Moro justificou a condenação de Lula no caso do tríplex, apontando que trechos de seu depoimento eram “falsos”, por possuir “contradições” e “inconsistências”.

As conversas de Moro com o procurador foram reveladas na sexta-feira (14), pelo site The Intercept Brasil, que desde a semana passada publica uma série de reportagens sobre conversas privadas entre o ex-juiz federal e atual ministro da Justiça, Sérgio Moro, com procuradores da Operação Lava Jato.

Assista a reportagem:

Nas mensagens trocadas com Carlos Fernando dos Santos Lima e reveladas na última sexta, Moro faz a sugestão de divulgar as “contradições” de Lula – que seriam usadas de argumento para condenar o ex-presidente, em julho.

Moro – 22:12 – Talvez vcs devessem amanhã editar uma nota esclarecendo as contradições do depoimento com o resto das provas ou com o depoimento anterior dele

Moro – 22:13 – Por que a Defesa já fez o showzinho dela.

Santos Lima – 22:13 – Podemos fazer. Vou conversar com o pessoal.

Santos Lima – 22:16 – Não estarei aqui amanhã. Mas o mais importante foi frustrar a ideia de que ele conseguiria transformar tudo em uma perseguição sua.

Atendendo a sugestão do ex-juiz federal após debatê-la em grupos de Telegram, a força-tarefa da Operação Lava Jato divulgou uma nota no dia 11 de maio de 2017, que citou as “contradições” no depoimento do ex-presidente.

Veículos de imprensa, como o Estadão, Folha de S. Paulo e Jovem Pan, repercutiram o texto, na época, enquanto canais do Grupo Globo – como GloboNews e o jornal O Globo – destacaram em matérias próprias as “contradições” no depoimento de Lula.

A relevância das “contradições” na sentença

Dois meses depois, no dia 12 de julho de 2017, Sérgio Moro condenou Luiz Inácio Lula da Silva a 9 anos e seis meses de prisão, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

A sentença aponta – em pelo menos dez trechos – que o petista caiu em “contradições” ao falar sobre a reforma do tríplex do Guarujá e a respeito da decisão de desistir de comprar o apartamento, por exemplo.

“O ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi confrontado com essas contradições no interrogatório judicial e, apesar das inapropriadas intervenções de sua Defesa no momento, não logrou explicá-las satisfatoriamente”, diz Moro na condenação.

Estas contradições e inconsistências, segundo Moro, demonstraram que os argumentos da defesa de Lula eram “falsos”.

“Assim, em conclusão, devem ser descartados como falsos, porque inconsistentes com as provas documentais constantes nos autos, os depoimentos no sentido de que o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua esposa eram meros ‘potenciais compradores’ do apartamento 164-A, triplex, no Condomínio Solaris, bem como os depoimentos no sentido de que o ex-Presidente e sua esposa teriam desistido de tal aquisição em fevereiro ou agosto de 2014 (…)”, diz a sentença.

Em contrapartida, o ex-juiz federal sinalizou que a palavra de delatores e a acusação da Lava Jato eram verdadeiras e tinham fundamento em prova documental.

“Tendo os depoimentos dos dois criminosos confessos (os delatores Leo Pinheiro e Agenor Franklin Magalhães Medeiros) amplo apoio em prova documental, o mesmo não ocorrendo com os álibis contraditórios do ex-Presidente, devem as declarações deles ser tidas por corroboradas”, conclui Moro.

“Veja aqui” matéria de 2017 que mostra a interpretação que Moro seguiu para condenar o ex-presidente no caso do tríplex do Guarujá.

Defesa de Lula reage

Após a divulgação destas últimas conversas de Moro com procuradores, no Telegram, a defesa do ex-presidente Lula divulgou nota afirmando que “é estarrecedor constatar que o juiz da causa, após auxiliar os procuradores da Lava Jato a construir uma acusação artificial contra Lula, os tenha orientado a desconstruir a atuação da defesa técnica do ex-Presidente e a própria defesa pessoal por ele realizada durante seu interrogatório”.

A nota também afirma que o ex-juiz federal teria interesses diretos em atacar Lula e os seus advogados.

“As novas mensagens reveladas, para além de afastar qualquer dúvida de que o ex-juiz Sergio Moro jamais teve um olhar imparcial em relação a Lula, mostram o patrocínio estatal de uma perseguição pessoal e profissional, respectivamente, ao ex-Presidente e aos advogados por ele constituídos”, conclui a defesa de Lula.

A versão de Moro

No sábado (14), o Ministério da Justiça e Segurança Pública divulgou nota à imprensa na qual afirma que o ministro Sergio Moro “não reconhece a autenticidade e não comentará supostas mensagens de autoridades públicas colhidas por meio de invasão criminosa de hackers e que podem ter sido adulteradas e editadas”.

A nota do ministério reitera “a necessidade de que o suposto material, obtido de maneira criminosa, seja apresentado a autoridade independente para que sua integridade seja certificada”. Antes disso, no dia 10 de junho, o ministro da Justiça declarou que não viu anormalidade nas “supostas conversas” vazadas pelo The Intercept Brasil.

O procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, a sua vez, disse que desconhece “completamente as mensagens citadas, supostamente obtidas por meio reconhecidamente criminoso, segundo afirmou.

“É um ataque covarde e criminoso, perpetrado por uma organização criminosa que, valendo-se de um jornalista ideologicamente comprometido e leniente, pois até agora não explicou como isso tudo veio parar em suas mãos, nem como procurou aferir a veracidade, autenticidade e integralidade das conversas, consegue criar esse falso drama com conversas pinçadas seguindo o objetivo claro de libertar Lula.”

O ex-juiz federal Sérgio Moro e o ex-presidente Lula

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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