Num país de corruptos e sonegadores, Suplicy foi preso por defender gente humilde

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O ex-secretário de Direitos Humanos de São Paulo foi preso por “obstrução da Justiça” e “desacato à autoridade” ao tentar impedir uma reintegração de posse em São Paulo.

Opinião – Rafael Bruza

O ex-secretário de Direitos Humanos de São Paulo, Eduardo Suplicy, antes de ser preso / Foto - Reprodução
O ex-secretário de Direitos Humanos de São Paulo, Eduardo Suplicy, antes de ser preso / Foto – Reprodução

O Brasil tem milhares de políticos condenados em casos de corrupção e outros milhões de empresários que reconhecidamente sonegam impostos como se fosse uma prática aceitável ou digna de acatamento.

Muitas deles estão nas ruas, especificamente em seus carros importados que desfilam pela Paulista, Jardins, Morumbi e Avenida Brasil, ostentando um padrão de vida acima da média diante dos mortais que já os serviram e agora esperam pelo ônibus lotado na maior cidade da América Latina.

Mas Eduardo Suplicy nunca esteve nesse grupo de nariz em pé.

O ex-senador do PT pode ter milhares de defeitos, mas é dos poucos políticos brasileiros que tem a humildade de aos 75 anos se deitar no chão ao lado de membros das famílias instaladas no terreno da Rua Carlos Faria, na periferia oeste e periférica de São Paulo, para tentar evitar uma iminente reintegração de posse, feita por um governo do Estado tucano, que em pleno século XXI não se intimida em deixar seus cidadãos sem casa, mesmo em período de extremo frio nas madrugadas da capital paulista.

A situação do terreno da prefeitura é delicada, como costuma acontecer com problemas de moradia num país imperial como o Brasil.

A Prefeitura de São Paulo controlada pelo também petista Fernando Haddad indicou que a região em que as famílias estavam instaladas apresenta riscos de desabamento, inviabilizando a construção de moradia popular. (Atualização: cabe ressaltar que foi a Prefeitura quem pediu reintegração de posse do terreno).

“A Defesa Civil do município estudou a possibilidade de retirar apenas parte dos barracos, mas concluiu que isso colocaria os demais barracos em risco, por causa da fragilidade estrutural do conjunto”, diz uma nota da Prefeitura de São Paulo, controlada pelo petista Fernando Haddad.

Ainda segundo a nota, as famílias estão sendo cadastradas para receber o bolsa-aluguel, feito para ajudar famílias que moram em áreas de risco e não têm recursos para bancar meses de aluguel em uma casa diferente.

Mas mesmo com a tentativa de ajuda, as centenas de famílias instaladas no terreno de 11 mil metros quadrados localizado próximo à Rodovia Raposo Tavares não quiseram sair do local em que moram.

Então a Polícia Militar controlada pelo tucano Geraldo Alckmin tomou sua faceta mais agressiva para retirar as pessoas de lá através da “legalidade” da reintegração de posse.

Os moradores sabiam da ação policial marcada para às 5h da manhã e esperaram os policiais com barricadas feitas com móveis e colchões.

Houve violência policial e agressões.

Às 8h da manhã, a Tropa de Choque da Polícia chegou ao local e reprimiu os manifestantes com bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral.

Os relatos são confusos, mas indicam que uma criança foi atingida por uma bomba de gás e os moradores reagiram, inclusive prendendo fogo em viaturas.

No meio de toda confusão, o ex-senador Suplicy se deitou no chão para tentar impedir a ação policial junto com mulheres e outros membros de famílias.

O ex-secretário de Direitos Humanos de São Paulo, Eduardo Suplicy, sendo carregado por policiais durante protesto contra reintegração de posse / Foto – Reprodução
O ex-secretário de Direitos Humanos de São Paulo, Eduardo Suplicy, sendo carregado por policiais durante protesto contra reintegração de posse / Foto – Reprodução

Mas foi carregado e preso por “obstrução da Justiça e desacato da autoridade”, segundo indica a PM.

A reintegração de posse logo foi suspensa e as famílias continuam no terreno.

Mas quero que prestem atenção no motivo da prisão de Suplicy: “obstrução da Justiça”.

“Obstrução da Justiça”!!

Como um senhor de 75 anos deitado ao lado de gente simples que tenta salvar sua casa pode ser preso por “obstruir da justiça”?

Como o ato de Suplicy pode ser considerado ilegal enquanto as agressões policiais são vistas como “monopólio legítimo da força”?

E como Suplicy pode ter perdido a liberdade, mesmo que momentaneamente, enquanto continuam em liberdade o réu Eduardo Cunha e um diretor da Fiesp chamado Laodse de Abreu Duarte, que tem a maior dívida ativa do país?

Suplicy não foi preso por roubar nem por sonegar. Nunca desviou nada de dinheiro público e trabalha com enorme humildade.

Mas no país dos corruptos e sonegadores, ele acabou no 75ª Delegacia de Polícia por defender gente humilde e contrariar um estado cínico, egoísta e cruel.

E nessas horas o Brasil revela a mais cruel de suas carências: a de valores.

Mas isso, meus amigos, Suplicy tem de sobra. Que seja exemplo.

SUPLICY DEITA NO CHÃO EM PROTESTO CONTRA REINTEGRAÇÃO DE POSSE

Grande e valoroso Suplicy!!! Minutos antes de ser preso, deita no chão protestando contra ação de reintegração de posse em São Paulo.

Posted by Jandira Feghali on Monday, July 25, 2016

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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