O caminho tortuoso de Ciro Gomes

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Por André Henrique

Depois das eleições presidenciais de 1989 o Brasil ficou claramente dividido em dois polos ideológicos: um converge as forças de esquerda e outro as de direita.

A dificuldade para Ciro Gomes nas disputas para presidente da República é nunca ter sido a liderança que aglutina um dos lados.

Lula chegou ao segundo turno da querela de 89 com pequena vantagem sobre Leonel Brizola, determinando o PDT como coadjuvante da esquerda e o PT protagonista.

O PT ainda levava a vantagem de ser mais orgânico. Enquanto o PDT respirava em função de Brizola, o PT contava com uma base social que ia de sindicatos a setores da igreja católica, movimentos estudantis e de luta pela terra a intelectuais e artistas.

Esse exército organizado e Lula foram determinantes para o PT chegar ao segundo turno das eleições para presidente de 1989 a 2018 e continuam sendo as vigas que sustentam a hegemonia do PT à esquerda.

Nem mesmo a debacle do governo Dilma conjugada com a união de setores liberais-financistas a ultraconservadores em torno das narrativas construídas a partir da Lava-Jato criminalizando o PT e Lula no biênio 2015-2016 foram capazes de quebrar essa “hegemonia”.

É verdade que o PT perdeu base social ao longo das décadas e encolheu drasticamente nas eleições municipais de 2016, caindo de 638 prefeituras para 254, ficando abaixo do PDT e do PSB, mas esses partidos não têm a organicidade petista e vários prefeitos vão abandonar essas legendas quando for oportuno, o PT é um vaso difícil de quebrar, por ter uma liderança nacional e militância organizada, não a toa saiu das eleições 2018 com a maior bancada do Congresso e liderando a oposição ao bolsonarismo.

Esse cenário decorre da eficiência do lulo-petismo em manter as esquerdas mobilizadas na pauta “Lula livre”, mesmo no auge da crise. A insistência na candidatura do ex-presidente até o limite foi eficaz para tanto. Os áudios vazados pelo The Intercept comprovando as arbitrariedades da Lava-Jato e de Sérgio Moro mobilizam naturalmente as esquerdas em torno do petismo e reduzem o raio de ação de Ciro Gomes nesse campo, forçando-o a se aproximar do centro.

Não foi por outra razão que o ex-governador do Ceará intensificou as críticas a Lula, depois que o mesmo deixou a prisão, e propalou na imprensa possíveis alianças do PDT com o DEM e PSB nas eleições municipais. Esses movimentos afastam Ciro das esquerdas e o aproxima da centro-direita, onde nomes hostis ao mercado financeiro não despertam confiança.

À direita o plano Real consolidou FHC a âmbito nacional em 1994 e juntou em torno do ex-presidente e do PSDB as elites liberais-financistas, as oligarquias nacionais e o conservadorismo, formando blocos antipetistas. Com a derrocada do PSDB, essas forças passaram a orbitar o bolsonarismo, dando protagonismo à extrema-direita.

Em suma, os caminhos à esquerda e à direita estão congestionados para Ciro Gomes. Por essa razão o ex-governador trocou tantas vezes de partido. Ele anseia ser presidente da República, mas não tem as bases sociais do PT à esquerda e a confiança do mercado à direita. As consequências são dramáticas: em 2010, nem liderando as pesquisas para presidente, Ciro conseguiu ser candidato; e assistiu em 2018 Fernando Haddad entrar na fase final da eleição e ir para o segundo turno.

Por mais que as militâncias de um lado e de outro atirem pedras, esses fatos são da natureza do processo político. Não há vilões nem vítimas, talvez erros de cálculos. Será que Ciro fez a escolha certa ao não tomar a frente da defesa política de Lula no dia de sua prisão e no decorrer desse imbróglio? Seria uma maneira de ele se tornar o líder do campo progressista e a alternativa imediata a Lula?

Esperar que um dos lados ceda sem condições conjunturais para tanto é ingenuidade. Até 2022, sem um fato extraordinário que lhe dê protagonismo, o caminho para Ciro Gomes deve seguir tortuoso, cheio de cascalhos e armadilhas.

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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