‘O certo seria apoiar Ciro Gomes lá atrás’, diz governador petista, Rui Costa

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Em resposta ao governador da Bahia, o PT emitiu nota dizendo que Lula “liderava todas as pesquisas de opinião” e Ciro Gomes não teve intenção de “constituir uma alternativa no campo da centro-esquerda”.

Por Rafael Bruza

O ex-presidente Lula e o atual governador da Bahia, Rui Costa / Foto: Mateus Pereira/GOVBA

Em entrevista à revista Veja, publicada na sexta-feira (13), o governador da Bahia, Rui Costa (PT), faz uma espécie de autocrítica ao Partido dos Trabalhadores, falando sobre eleições, apoio a “um dos lados” políticos da Venezuela e alianças futuras.

Questionado se o PT “errou” por apoiar numa candidatura própria, nas eleições de 2018, num contexto de antipetismo, o governador da Bahia declarou que o partido deveria ter apoiado Ciro Gomes.

Adjetivar dessa forma é ruim. Mas o certo era ter apoiado o Ciro Gomes lá atrás. Essa não é uma opinião que dou com a partida já encerrada. Eu e o ex-governador Jaques Wagner defendemos naquele momento a ideia de que o PT deveria ter um candidato de fora do partido caso houvesse o impedimento do ex-presidente Lula. Nenhuma outra liderança teria condições de superar o antipetismo ou disputar a Presidência em pé de igualdade naquele cenário. A reflexão também tem de ser anterior. Faltou perceber que era preciso dialogar com todos os segmentos sociais, mesmo com aqueles que pensam diferente”, diz Rui Costa.

O petista também disse que a defesa da liberdade do ex-presidente Lula não deve ser usado de critério para formar alianças futuras.

“Não acho que esse é o ponto que deve ser usado pelo PT para condicionar qualquer diálogo com as oposições para formar uma frente. Mas o PT não deve nem pode abrir mão dessa bandeira. Hoje mais do que nunca está claro que Lula não teve direito a um julgamento justo. A condenação no caso do tríplex é uma aberração gigantesca.”

O governador da Bahia também comentou a situação da Venezuela, ressaltando que o PT se posicionou na questão.

“Esse é um problema que ocorreu com o PT, porque manifestamos unilateralmente apoio a um dos lados na Venezuela, independentemente do que estivesse ocorrendo. A Venezuela enfrenta o mesmo momento que o Brasil, mas no oposto ideológico. Há sinais claros de que a democracia está sendo desrespeitada e de que agressões estão sendo desferidas contra pessoas e seus direitos.”

Costa nega que a Venezuela viva uma Ditadura.

“Assim como considero um exagero dizer que o Brasil é uma ditadura, não tenho elementos para classificar a Venezuela dessa forma. Ainda”, diz o governador.

Comentando a recondução da deputada federal, Gleisi Hoffmann (PT-RS) à Presidência Nacional da sigla, Costa afirmou que o partido acabou afastado da população por conta de uma “burocratização”.

Tenho defendido a ideia de que devemos discutir métodos, governança e práticas. O PT precisa mais disso do que de um debate por nomes. Eu me filiei ao partido no início da década de 80. Naquele momento, tínhamos núcleos nas comunidades mais pobres e uma capilaridade social grande. Isso se perdeu ao longo do tempo. Houve uma burocratização nas últimas décadas que afastou o povo do PT. Se o partido ainda tivesse esses núcleos, teria sentido o crescimento evangélico nas periferias e a urgência de um debate sobre a violência. Mas, de novo, não se trata de nomes, não gosto de estigmatizar as pessoas. Até porque a Gleisi não conduz nada só a partir da cabeça dela”, disse Rui Costa.

PT responde o governador

Em resposta à entrevista, o Partido dos Trabalhadores emitiu nota no sábado (14) afirmando que “a bandeira ‘Lula livre’ é central na defesa da democracia, da soberania e dos direitos no Brasil”.

“O PT tomou uma decisão absolutamente correta ao lançar candidatura própria nas eleições presidenciais de 2018. O companheiro Lula, nosso primeiro representante, liderava todas as pesquisas de opinião, com forte tendência a vencer no primeiro turno”, diz o partido. “Com a candidatura de Lula ilegalmente cassada, lançamos o nome de Fernando Haddad que teve grande desempenho político e eleitoral, chegou ao segundo turno e só não venceu a eleição pelo uso criminoso de notícias falsas pela campanha de Bolsonaro, com financiamento ilegal até de fontes estrangeiras, contando com a omissão da mídia e da Justiça Eleitoral”.

A nota também rejeita a ideia de que o PT deveria ter apoiado Ciro Gomes.

“O eventual apoio do PT a Ciro Gomes, se à época já não se justificava porque nunca foi intenção dele constituir uma alternativa no campo da centro-esquerda, hoje menos ainda, dado que ele escancara opiniões grosseiras e desrespeitosas sobre Lula, o PT e nossas lideranças”, diz o PT, em nota.

O partido ainda afirma que “não impõe condições para dialogar com todos os setores que se oponham ao governo autoritário, antinacional e antipovo (de Jair Bolsonaro”.

“Ao contrário, temos trabalhado fortemente pela reconstituição da frente de esquerda dentro e fora do parlamento, pela construção da mais ampla frente democrática e participado de todos os fóruns em defesa da liberdade e da democracia. Em todos esses espaços denunciamos o caráter político da prisão de Lula e o que isso representa de afronta ao próprio regime democrático. Temos bem claro que a bandeira “ Lula livre” é central na defesa da democracia, da soberania e dos direitos no Brasil”, diz a nota.

Repercussões de políticos

Padrinho político de Rui Costa e seu antecessor no governo da Bahia, o senador Jaques Wagner (PT) defendeu as candidaturas de Lula e Haddad em 2018. 

“É um nome bem avaliado (Rui Costa), mas repare: dentro do nosso partido eu ainda tenho esperança que Lula possa sair e se credenciar (à disputa eleitoral), obviamente quando se reconhecer que o processo dele não foi legítimo, que ele não teve um julgamento equilibrado e justo. Então, eu diria que ele é hors concours, se tiver oportunidade. Tem Fernando Haddad, que foi candidato e, portanto, já tem o nome colocado. Mas o nome de Rui é um nome que entra em qualquer lista”, disse Wagner ao site BNews durante participação em um encontro de prefeitos na Bahia.  O deputado federal José Guimarães (PT-CE) recorreu à sua página no Twitter para também defender a pré-candidatura de Lula. “O Lula foi, é e será sempre nossa maior liderança na condução de nosso partido. Um preso político condenado injustamente”, escreveu.

Atualização: o senador Jaques Wagner criticou a nota que o Partido dos Trabalhadores divulgou contra o governador Rui Costa, da Bahia.

“A nota é totalmente descabida. Eu nunca vi a Executiva de um partido fazer uma nota daquele tamanho para repreender ou atacar um governador. Aliás, o governador do maior estado governado pelo PT e o governador mais bem avaliado do PT num território em que, modéstia a parte, fomos nós que mais demos votos para Dilma e Haddad”, disse, em entrevista nesta terça-feira, 17, à rádio Metrópole, de Salvador.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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