O encontro de Dilma Rousseff com o dono da Globo, segundo Renan Calheiros

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Em gravação vazada pela Folha, o presidente do Senado fala sobre um encontro entre Dilma Rousseff e João Roberto Marinho, um dos donos do Grupo Globo.

dilma marinho
A presidente afastada, Dilma Rousseff, e o vice-presidente do Grupo Globo, João Roberto Marinho / Foto – Reprodução

Análise/Opinião – Rafael Bruza

O ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, não fez gravou apenas o senador Romero Jucá (PMDB – AL), ex-ministro do Planejamento exonerado oficialmente na terça-feira (24). Nesta quarta, a Folha de S. Paulo divulgou áudio de duas conversas de Machado com Renan Calheiros (PMDB – AL), o presidente do Senado Federal.

Na conversa, um dos donos do Grupo Globo, João Roberto Marinho, herdeiro de Roberto Marinho, fundador do maior conglomerado de mídia da América Latina, aparece duas vezes nas conversas entre Machado e Renan Calheiros.

Nesses dois momentos da conversa, Calheiros fala sobre um encontro entre a presidente afastada, Dilma Rousseff, com João Roberto Marinho.

Confira o primeiro trecho em que o nome de João Roberto Marinho é citado:

MACHADO – Renan, só se fosse imbecil. Como é que tu vai sentar numa mesa para negociar e diz que está ameaçado de preso, pô? Só quem não te conhece. É um imbecil.

RENAN – Tem que ter um fato contra mim.

MACHADO – Mas mesmo que tivesse, você não ia dizer, porra, não ia se fragilizar, não é imbecil. Agora, a Globo passou de qualquer limite, Renan.

RENAN – Eu marquei para segunda-feira uma conversa inicial com [inaudível] para marcar… Ela me disse que a conversa dela com João Roberto [Marinho] foi desastrosa. Ele disse para ela… Ela reclamou. Ele disse para ela que não tinha como influir. Ela disse que tinha como influir, porque ele influiu em situações semelhantes, o que é verdade. E ele disse que está acontecendo um efeito manada no Brasil contra o governo.

Segundo o presidente do Senado, Dilma fez reclamações a um dos donos do Grupo Globo e disse que ele poderia “influir” (em algo não determinado, mas que deve ser na situação do Governo) porque já o fez em situações semelhantes.

Faltam informações específicas, mas podemos deduzir que Dilma pede uma cobertura menos agressiva ou mais compassiva da Rede Globo, de forma que seu Governo seja poupado da hostilidade midiática.

Mas, sempre segundo Renan Calheiros, Marinho indica que não tem “como influir”, pois “está acontecendo um efeito manada no Brasil contra o Governo”.

Logo depois, a conversa muda de assunto.

Apesar da rivalidade entre Dilma e o Grupo Globo, esse diálogo entre Dilma e Marinho é bastante veraz.

Mas, de qualquer forma, há mais detalhes sobre isso a serem levantados.

No segundo diálogo gravado, Renan Calheiros não especifica quem, mas fala sobre uma conversa de alguém (que provavelmente é Dilma) com Otavio Frias, dono do Grupo Folha, e dá mais detalhes sobre o encontro de Dilma com Marinho.

RENAN – [inaudível] sexta-feira. Conversa muito ruim, a conversa com a menina da Folha… Otavinho [a conversa]foi muito melhor. Otavinho reconheceu que tem exageros, eles próprios tem cometido exageros e o João [provável referência a João Roberto Marinho] com aquela conversa de sempre, que não manda. […] Ela [Dilma] disse a ele ‘João, vocês tratam diferentemente de casos iguais. Nós temos vários indicativos’. E ele dizendo ‘isso virou uma manada, uma manada, está todo mundo contra o governo.’

MACHADO – Efeito manada.

RENAN – Efeito manada. Quer dizer, uma maneira sutil de dizer “acabou”, né.

Há vários detalhes jornalísticos muito interessantes.

Segundo Renan, a conversa de alguém com Otavio Frias foi “muito melhor” do que a realizada com João Roberto Marinho.

Frias reconheceu exageros na cobertura da Folha de S. Paulo em relação ao Governo Dilma, enquanto o dono da Globo veio “com aquela conversa de sempre, que não manda” (em seu próprio conglomerado, pelo visto), segundo palavras de Renan Calheiros.

A interlocutora (que como disse, deve ser Dilma, apesar da falta de confirmação)  respondeu dizendo que os globais “tratam diferentemente de casos iguais” e indicando inclusive que sua equipe tem “vários indicativos” de que há dois pesos e duas medidas na Rede Globo.

Mas Marinho insistiu que nada pode fazer, pois há um “efeito manada” contra o mandato de Dilma Rousseff. Renan Calheiros completou os afirmando que essa é “uma maneira sutil de dizer” que o Governo acabou (tudo isso foi narrado por Renan Calheiros).

Conclusão

A gravação revela algo infelizmente comum na política brasileira: encontros entre barões da mídia ou jornalistas com autoridades públicas. Nesse caso específico, não há amizade, pois Dilma e Marinho são rivais, tendo em vista a linha editorial do Grupo Globo, que, apesar da declaração de apartidarismo e neutralidade, costuma se encaixar em correntes liberais e até conservadoras, contrárias as ideias intervencionistas e progressistas do Partido dos Trabalhadores.

Então não foi uma conversa amistosa. Se o encontro de fato ocorreu (que deve ter ocorrido, pois Renan falava com aparente honestidade com Machado), Dilma praticamente pediu socorro a um de seus maiores algozes. Mas recebeu a negativa, com a justificativa de que João Roberto Marinho não manda dentro do jornalismo de sua própria empresa e que o Governo Dilma Rousseff estava praticamente acabado pelo “efeito manada” citado por Renan Calheiros.

De qualquer forma, essa análise se baseia sobre palavras de Renan Calheiros, obtido através do vazamento do áudio, que logo foi editado pela Folha de S. Paulo. Então pode haver mais (ou menos) detalhes nessa história.

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