O fracasso parlamentar das esquerdas

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Por André Henrique

Setores progressistas deveriam emprestar a organicidade de seus movimentos a uma estratégia eleitoral visando mais espaço nos parlamentos brasileiros.

A movimentação desesperada de Michel Temer para angariar os votos dos 221 parlamentares da Câmara ligados ao agronegócio mostra o quanto conservador e elitista é o Congresso Nacional.

41% da Câmara são de congressistas ruralistas. Trata-se de uma supremacia absurda. Mas não adianta a esquerda reclamar disso e não fazer nada para aumentar o seu espaço no Congresso. E potencial para tanto as esquerdas têm.

O problema é que parte delas tem ojeriza à democracia liberal, utilizando o velho mantra de que o estado é um aparelho burguês, portanto, a luta deve acontecer nas ruas, por uma assembléia nacional constituinte, soberana e popular.

Enquanto o discurso não vira realidade, as grandes corporações continuarão a manipular o Congresso na direção de seus interesses em detrimento do meio-ambiente, da soberania nacional e de minorias desprotegidas, como os indígenas.

As ONGS ambientalistas exercem influência sobre as instituições, mas não têm a força da caneta e não participam diretamente do jogo real da política congressual. A retirada de área da floresta de Jamanxim seria de 37%, por pressão ambientalista Temer autorizou 27%. Pouco, não?

Os setores ambientalistas e os de lutas populares estão sub-representados nos parlamentos municipais, estaduais e federais. Culpar apenas o poder econômico dos capitalistas não cola, pois essas organizações possuem organicidade para mobilizar recursos humanos e financeiros e lutar pela via das urnas por mais cadeiras legislativas.

Se não a ponto de conquistar a hegemonia, pelo menos ao patamar de reduzir a disparidade de poder atual. Mas não há estratégia para tanto e os movimentos de esquerda estão fragmentados, quando não dopados por um purismo ideológico que os afastam da política institucional.

Concentrar esforços nas mobilizações de rua apenas me parece um erro, tendo em vista que os aparelhos políticos de esquerda não falam a mesma língua e quem geralmente vai pra rua são seus militantes e não o povo de fato, o que torna a batalha por essa trincheira mais complicada.

É na política institucional que se decide o destino do país, dos estados e das cidades. Ainda que a pressão de fora seja importante, em momentos de desmobilização a força do dinheiro e as maiorias falam mais alto; vai daí a necessidade de aumentar a representação progressista nas casas legislativas.

Sem isso, restar-se-á às esquerdas o berreiro, e nada mais.

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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