O PT acabou?

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A derrota nas urnas e o Impeachment de Dilma acabaram com os governos petistas e determinaram vitória de correntes liberais/conservadoras. Mas isso significa o fim do PT?

Opinião – Por Rafael Bruza

Ilustração
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O PT teve a maior derrota nas urnas nos últimos 20 anos. Em capitais, só elegeu um prefeito, perdeu a Presidência da República para Michel Temer e ainda viu seu maior líder – Luiz Inácio Lula da Silva –denunciado diversas vezes pela Operação Lava a Jato, enquanto seus rivais conquistavam as ruas e o voto dos eleitores. Com isso, surgem análises e opiniões que não temem ao afirmar: “o PT acabou”.

Outros vão além e afirmam que a crise não é petista, mas sim na esquerda, a “maior” desde a Ditadura, segundo palavras de Marcelo Freixo, candidato do PSOL derrotado em 2º turno do Rio de Janeiro para o ex-bispo da Igreja Universal, Marcelo Crivella (PRB).

“Não lembro de uma crise tão grande. A esquerda não deve dizer que a culpa é de outros atores e esquecer a sua responsabilidade. É hora de autocrítica e entender os erros. Todo projeto de esquerda está pagando caro por isso. Há o fim de um ciclo, erros do modelo de governabilidade, erros cometidos principalmente pelo PT. Mas não adianta crucificar o PT. É fundamental que a esquerda não se vitimize”, afirmou Freixo em entrevista ao jornal O Globo.

Seguindo a linha de Freixo, dá para falar em crise na esquerda sem citar PT, Impeachment e Operação Lava a Jato, pois esses três elementos estão relacionados com o “fim de ciclo” citado pelo candidato na declaração acima e explica em parte o fracasso da esquerda nas urnas.

Os 13 anos de PT geraram conquistas que nem o mais ferrenho opositor do partido poderia negar. Mas o final deste ciclo foi especialmente problemático: os escândalos de corrupção levantados pela Operação Lava a Jato especialmente contra o PT e os problemas na economia fortaleceram a frustração geral com a política e com o sistema político, canalizando as críticas em Dilma (detentora do Governo Federal até então) com mais ímpeto e fortalecendo, em seguida, o rompimento de sua base aliada, que culminou, como todos sabem, no Impeachment finalizado em agosto.

Este fim de ciclo marca o desgaste final do PT, que exerceu influência nos resultados eleitorais de outubro.

Dilma entregou o país melhor do que Lula assumiu em 2003, mas desde 2013 a população quer mais do que isso, inclusive porque este modelo de governabilidade está moralmente falido e incapacitado de oferecer melhorias substanciais aos cidadãos.

O Impeachment foi uma campanha com ares de parlamentarismo que corrobora essa visão: tiraram Dilma porque não queriam seu governo, mas muitos continuam insatisfeitos com Temer, apesar de afirmarem que preferem “ele” do que “ela”, usando razões relativamente orgulhosas.

Mas nessa simples lógica, aparece uma característica marcante da política nacional do Brasil: a tendência a escolher o “menor pior”, em um cenário onde simplesmente não há o “melhor”.

Essa tendência se vê nas eleições de 2014, quando muitos votaram em Dilma ou Aécio por não querer o Governo de um ou de outro.

E aqui começamos a falar de uma das questões chave do momento político do Brasil e do fracasso do PT nas urnas: a crise de representação, que existe quando os eleitores não se sentem identificados ou representados pelas ofertas políticas ( de políticos atuais.

Essa crise aparece explicitamente nos 32,5% (quase um terço do eleitorado) que optou pelo voto branco, nulo ou abstenção no 2º turno.

Mais de 7 milhões de eleitores simplesmente não quis ir às urnas no domingo (30).

Logo, a grande rejeição a candidatos presidenciáveis também é indicador relacionado com a crise de representação.

Aécio, Marina Silva e outros têm próximas à 30% (40%, no caso de Lula, que ainda lidera as pesquisas com apoio de eleitores fiéis).

Esses expressivos dados de rejeição são sinais de um eleitorado frustrado, cansado e insatisfeito, que prefere não votar, votar nulo ou escolher alguém “menor pior” do que deixar o “pior” vencer.

Nesse sentido, não pense que os partidos vencedores das eleições municipais de 2016 estão bem na cena, pois o PT começou seus erros pensando assim em 2014.

O PSDB foi o grande vencedor dessa disputa eleitoral, pois ganhou em 14 capitais das 19 em que disputou e viu seu principal rival em eleições maioritárias (o PT) elegendo apenas um prefeito (Rio Branco, no Acre) em todas as capitais do país.

Mas, no fundo, os tucanos só aproveitaram o momento de desgaste do rival.

Não há sinal de inovação nas propostas, na campanha ou nas ideias, tanto é que o Governo Temer ainda fala do projeto Ponte para o Futuro e o PSDB se concentra simplesmente em privatizações e austeridade.

Sendo assim, a ideologia liberal/conservadora e a imagem de “administrador” (usada pelo prefeito eleito de São Paulo, João Doria, para fugir da imagem de político) garantiram bons números nas urnas, mas não solucionam a crise de representação, que persiste a despeito dos resultados eleitorais.

Se os governantes vitoriosos e aliados de Temer forem sensatos, portanto, perceberão que sua vitória se deve mais ao enorme desgaste do PT e da esquerda no geral do que por mérito próprio.

Mas o presidente sabe disso: após as eleições de 1º turno, disse que os números de votos brancos, nulos e abstenções são “um recado para a classe política”.

E ele está certo!

Apesar de não fazer nada para mudar essa realidade, convém a todos os partidos com governo vigente trabalhar para representar seus eleitores, pois eles podem e devem ser os próximos desgastados e derrotados da Era da Internet, no país da crise de representação e da Operação Lava a Jato.

É exatamente por isso que, respondendo a pergunta do título, digo: “não”. O PT não acabou, mas está num momento de profundo desgaste, falta de credibilidade e de estancamento, gerado tanto pelo fim de ciclo do PT, fechado com o Impeachment, quanto pela crise de representação.

O problema é que ninguém tem fórmula para resolver essa crise de representação.

Ela nem é exclusividade do Brasil, pois está presente em várias democracias ocidentais: os Estados Unidos (onde Clinton e Trump disputam a presidência) e a Europa (onde países como Espanha e Bélgica ficaram meses sem governo) também vivem suas próprias crises de representação, escolhendo apenas os governos “menos piores”, no geral.

Isso indica, no entanto, que é hora de inovar. Aliás, a população CLAMA por essa inovação.

O papel de oposição facilita essa possibilidade ao Partido dos Trabalhadores e a qualquer outro partido de esquerda. Nesse ponto fica claro que o PT não está morto, pois essa sigla ainda pode se reinventar, mudar, fazer novas alianças, “voltar às origens” (como pedem muitos eleitores) e então se preparar para disputar as eleições de 2018, onde tende a ter novamente resultados desfavoráveis, mas que podem apontar um norte.

A questão central desse texto, portanto, não é a possibilidade de volta do PT em si, que é real, ressalto, mas sim a necessária e ainda imprecisa solução da crise de representatividade, que é uma das causas da queda de Dilma, do PT e até de futuros governos que também terão sérios problemas de representatividade/desgaste no futuro.

Aguardem para ver.

A solução então pode vir com uma mudança no sistema, com uma aproximação entre partidos e eleitores e quem sabe pela criação de novos partidos ou frentes no país.

Mas algo precisa ser feito. Caso contrário, derrubaremos um governo atrás do outro sem nunca encontrar aquilo que realmente desejamos: uma mudança na classe política e no sistema político brasileiro.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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